Tuesday, February 19, 2008

"...tolo..."

Dá-lhe para falar e, a mim, para rir. Ou, então, para ficar com um sorriso, ora apalermado, ora coisa nenhuma que palavra alguma o descreva. Coisas de pai-galinha.

Já fazia contas ao tempo, para minimizar o atraso ou, se possível, eliminá-lo. Tivera, até, o cuidado de, antes de sair de casa, lhe telefonar, "Amôr grande, vai descendo que o pai já está a ir para aí". A garota demorou 15 minutos a descer. Ou mais. Julguei que fosse, como habitualmente, por causa de algum carrapito que não tomava o jeito pretendido, ou a côr da camisola que não combinava com outra peça da indumentária. Esta malta pode levar uma eternidade, até que se sinta confortável com os trapitos escolhidos para sair à rua. No entanto, desta vez, não teria sido esse o motivo.

Entra-me no carro, esbaforida, de sorriso gaiato e feliz, beija-me de forma esfusiante. Está com muito bom aspecto e, rapidamente, sinto que, hoje, tenho a minha filha, mesmo que por breves instantes, de volta. Quase a rir, pergunto-lho, porque se demorou. Ainda com aquele sorriso de orelha a orelha, diz-me que esteve a acabar o trabalho de geografia. Desarmou-me. Se foi essa a razão, tem a quem sair. Se foi por causa duma conversa no "messenger", nunca o saberei. "Mas tu sabes que não podemos chegar atrasados". "É que tinha mesmo de acabar o trabalho". Mudo de rumo ao assunto e peço-lhe para me contar as coisas boas do fim-de-semana. A rapariga continua faladora e, ora me faz rir, ora sorrir.

Passo a portagem, olho para o relógio e percebo que tenho 12 minutos para chegar ao destino. Ela diz-me que dará um "soco nos dentinhos" de quem se puser à nossa frente. Com isso, tira-me uma gargalhada.
Continua a falar sobre tudo e eu, numa de galináceo, ora a sorrir, ora a rir. "Ó pai, pareces um tolo". "Hã? Êêê ...Êêêeuuu? ... Porquê? ", "Estás sempre a rir". "É porque me fazes rir", sorrio-lhe eu, enquanto finto o trânsito da auto-estrada a velocidades nada pedagógicas. Perante a visão, um pouco mais à frente, duma luzinha vermelha deveras antipática, desabafo, digo-lhe que, no dia em que o sinal luminoso, por que iremos passar, estiver verde, até deito um foguete. Ela sorri. O sinal muda para verde, quando nos aproximamos dele. Trocista, espreita-me e questiona, "Então, onde está o foguete?". "Pois ... ", desculpo-me e, meio engasgado, "fica para a próxima". Ainda tenho tempo para lhe dizer o que achei do último filme do Astérix e da comicidade do actor que encarnava o tal de Brutus. Quanto ao resto, não lhe achei grande piada.
Desafio-a para, o mais brevemente possível, irmos explorar um sushi. Deve ser a décima vez que lhe falo no assunto. Pergunta-me porque não vou com a minha amiga. "Porque quero ir com a minha filha. ", atalho.

Ora bolas, chegámos. Fim de conversa mas ... ainda estamos dentro do horário. Registamos a chegada e, uns minutos depois é a chamada. Cumprimento a psicóloga, saio e ... sorrio, agradecido e apreensivo. Tento ler um livro mas tenho de mudar de sala, para ignorar os comentários sarcásticos de um pai que já esperava há duas horas pela consulta de pediatria. Não deve, mesmo, estar habituado a estas coisas. Ainda por cima, num dia de temporal e de cheias. Ou, então, não sabe apresentar uma reclamação. Das primeiras vezes que lá fomos, aguardámos, também, duas horas. Tanto eu como a mãe sabemos que os bébés, febris ou não, sempre estiveram primeiro. Os nossos, também já o foram, bébés febris e garotos, daqueles muito ranhosinhos, que se nos agarram ferozmente à protecção do colo. Também sabemos que as pessoas erram e, por isso, deveremos estar atentos. Aquando da primeira consulta com a psicóloga, apercebemo-nos de que haveria um problema. Enquanto tentávamos esclarecer o assunto, a psicóloga fez o mesmo, depois de esperar meia hora sem que lhe fosse comunicada a nossa chegada. Nós, para além de descobrirmos que nem constávamos da lista de consultas, exigimos que se contactasse a médica. Esta, afinal, já estava ali, ao nosso lado, no mesmo balcão, pelo que se ultrapassou, de imediato, o problema.

Às tantas, o homem começa, jocosamente e sempre em alta voz, a desatinar, que se tratava do simplex a funcionar. Respirei fundo, saí dali.

Há malta assim, em todos os estratos sociais e de formação escolar ou académica. Atiram uns comentários em voz alta, sem destinatário específico, quiçá à espera duma ovação, ou apenas de alguma forma de atenção por parte dos outros presentes. Os piores são aqueles que, depois, se gabam junto dos amigos, de terem dito isto mais aquilo, e se vangloriam, como se tivessem ganho a grande causa das suas vidas, sem que, no fim, tenham atingido qualquer objectivo útil, ou resolvido o problema. Por falar em problema, esta malta deve ter problemas graves com o ego.

Não obstante o almofadado de uma fina camada de espuma, os bancos são quase de "suma-pau" e convidam-nos a darmos uns passos, a cada meia hora, para que as nádegas retomem a sua forma arredondada e se aliviem dos formigueiros da dormência. São quase seis da tarde e a minha filha continua lá dentro. Ainda bem. Pergunto-me o que, ou se, aos pais, será dado, em qualquer altura, algum retorno dessas conversas. Para mim, outra coisa não fará sentido. Claro está, se calhar, não pensamos todos da mesma maneira. Veremos.

Mudo de sítio, para facilitar o trabalho à equipa da limpeza, que o agradece. Absorvo-me no livro. Não dou pelo tempo e, de repente, tenho a filhota, ali mesmo ao lado, a perguntar-me, "então, vamos, pai?". Estava com um sorriso sereno e introspectivo. "Já foste ao guichet, por causa da justificação e saber se é preciso mais alguma coisa?". Sorriu, " não me digas que nem me viste...". Pois não. Enquanto percorríamos, de volta, os corredores labirínticos, diz-me que a psicóloga também acha que todos, os da família, incluindo o irmão, deveriam, também, recorrer a uma ajuda especializada, como ela o estava a ter. Percebo que, muito provavelmente e, assim, sem o devido contexto em que a conversa decorreu, aquelas palavras devam levar algum desconto. Ocorreu-me, por exemplo, que as mesmas tenham tido origem numa questão posta pela filhota, de forma directa, sobre o assunto. "...mas, como? Todos juntos?", "Não, cada um com o seu.", "...se ela o acha, assim, como tu o dizes, também o há-de recomendar ao pai e à mãe ...". Ocorreu-me, simplesmente, que nenhum terapeuta me ajudou a encontrar o, ou o meu caminho, para deixar de sentir ou aliviar-me do sentimento de perda causado pelo súbito afastamento dos filhos, nem do vazio que isso me deixou. Hoje, percebo que terei de conviver com esse vazio, até ao fim. Como algo que estará sempre presente, que fará, sempre, parte da vida. Há doenças que se curam, que o corpo cura. Mas, na vida, tal como no corpo, há coisas , mazelas, que não se curam. A vida não tem cura. Ponto final.

Sinto a filhota mais reconciliada consigo, com o mundo, comigo. Isso concede-me mais um momento de serenidade. Não obstante, tenho consciência de que estamos no início, de que nada está consolidado e o caminho ainda será longo. No regresso, comenta que a vida das senhoras da limpeza é difícil, ganham pouco e os horários raramente lhes permitirão ver a família. Dei-lhe razão, sugerindo-lhe que escrevesse sobre isso, e sobre outros pensamentos e reflexões, decorrentes da sua observação do mundo. Lembrei-me das muitas vezes em que eu e outros colegas as víamos chegar e partir sem irmos a casa. Como nós, muitos mais há e haviam, noutras vidas. Coisas da globalização e das profissões que, mesmo antes dela, sempre foram tramadas.
Finalmente, despede-se em beijinhos e abraços. Mas ... ainda não será desta que a terei de volta às visitas.

Chego a casa e a electricidade resolve ter descanso. Já de madrugada fizera o mesmo. Vou à janela e acho injusto que os bairros à volta continuem iluminados, indiferentes à escuridão vizinha. Paciência. Foi mais um dia, missão cumprida.

P.s.
Enquanto escrevia, alguém me telefonou, com a notícia da morte dum amigo. A vida não se lhe curou, o álcool não lhe perdoou, um cancro matou-o. A vida pode ser inebriante, se com ela formos honestamente sóbrios e ... nos deixarem, ou ajudarem a viver.

3 Comments:

Anonymous ...uma mãe said...

Hum... isso vai bem encaminhado :)

Parabéns e felicidades

Bjs

2:42 PM  
Blogger TãoSóUmPai said...

Esperemos que sim, menina, esperemos que sim. Obrigado, por tudo.

5:24 PM  
Blogger Eva Lima said...

A cachopa vai no bom caminho!
bjos

11:54 PM  

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