Sunday, March 16, 2008

E viva o "El niño" (bem lá de baixo, cá para cima ...)

Vai ... e vem, isto, o tempo dos tempos.




(20/03/08)



(2.1. ou seja, dois ponto um ponto) ... excepto no dia ...



... em que me vieste ao encontro, choroso, 3 aninhos de choraminguice, anuncias a decisão, de que te ias embora, "ai sim?, e para aonde?", "vou-me embora de casa". Baixaste os olhos, compreendo-te, uma parte de mim não achou piada, olhou-te fixamente de sobrolho carregado, enquanto a outra, num rasgado sorriso, continha uma gargalhada, deves ter ficado confuso. Já nem me lembro porque te desentendeste com a mãe. Por certo que, para ti, fora algo ou de muito inesperado, ou de muito doloroso, ou ambos, e "porquê, amor?", porque "Estou muito zangado com a mãe", ... tu?, zangado com a mãe?, com a tua rainha super-heroína, aquela que nunca largas, como um pinto sempre debaixo da galinha??! ... olááá...?!...
... será que tenho o rapaz avariado?, só pode, o rapaz não está a funcionar bem, era a primeira vez que te ouvia tal coisa, já para não falar dessa decisão, a de te ires embora, exigindo que o assunto fosse tratado com delicadeza, ou ainda lhe tomas o gosto. Onde foste buscar essa ideia de ires embora de casa?, por certo que nalgum desenho animado, tenho de perceber melhor o que andas a ver na televisão. Que diabo, eu fiado que só te zangavas comigo e, agora, isto. Sabes?, não está certo, viras os papéis cá de casa ao avesso, tiras-me o tapete debaixo dos pés, não estou nada confortável com o que se está a passar, ouviste, ó pequerrucho?. A custo e indeciso, de quando em vez levantando os olhos, estudando-me a reacção, lá explicaste as tuas razões, que até nem eram grande coisa, pois então, mas, pelo sim, pelo não, deixa-me apelar-te ao teu pequenino coração, isto tem que ser resolvido a bem, "se te fores embora, a mãe e o pai vão ficar muito, muito tristes, vamos chorar muito, não vás ... sabes, a mãe e o pai gostam muito de ti, mesmo quando ralham, eu sei que não acreditas, mas é verdade, eu gosto muito de ti e a mãe também". Enquanto ouvias, acenavas afirmativamente com a cabecinha, às tantas, a choraminguice, ora verdadeira, ora um nadinha fiteira, acalmou-se, apercebi-me duma luzinha, aí, dentro da cabecinha, ficaste indeciso, mas, logo te lembraste da zanga recente, vieram-te, de novo, as lagrimitas e a irredutível decisão de te ires embora de casa. Pois é, também querias que intercedesse junto da mãe, para ela não te deixar ou pedir-te para não ires, e, agora, assim, à distância, até calculo que, quando lho disseste, tenhas ouvido um calmo e desorientador "então, vai", mas não quiseste dar o braço a torcer. Como agora. Ainda por cima, não te estou a dar razão. Não posso, pá, não posso. "... depois, tu não tens a mãe, não tens o pai, à noite não tens uma casinha e uma caminha quentinha, pró frio e prá chuva (... azar, ainda estamos no verão ...), não tens os brinquedos, estás sózinho, não tens comidinhas,...", hum, pensaste mais um bocadinho, mas não, queres, mesmo, ir-te embora, e quando tivesses fome ias pedir comida ao senhor do café, pois, percebi, até, que já terias alguma fisgada quanto ao sítio para ficares, vizinhos conhecidos e amigos não te faltam, o filme está quase completo, dás-me um abraço de despedida, bolas, pá, isto não está certo, pior, ainda estás de pantufas e pijama, tenho de distrair-te, se te atrasar a partida, pode ser que a esqueças, "mas tens que fazer, primeiro, uma malinha, como o Marco, quando foi à procura da mãe ...", vê se percebes, o Marco anda pelo mundo à procura da mãe, não a fugir dela, e tu, não precisas de sair de casa para a encontrares, ela já cá está, pá, é só ires ali, à cozinha, e viv'á mãe, encontraste-a. Hum, o esforço foi bom, quanto ao resultado, esse é que não. Fui atrás dele até ao quarto onde, sem qualquer indecisão, agarrou no maior saco de pano que lá tinha, aliás, era o único, e encheu-o com uma dúzia dos brinquedos mais preciosos. "então, e roupa?, não levas?". Pergunta tola, "não quero", pois claro, os brinquedos estão primeiro. Bom, vamos tentar outra, "eu não acho que a mãe foi má para ti, mas se tu achas, porque não perdoas?", "ainda não perdôo à mãe", ainda?, então, ponderas vir a fazê-lo, já estás a recuar, estamos no bom caminho, alinho na tua aventura, a ver vamos se não será preciso terminá-la autoritariamente, se calhar, até o querias, tem paciência, vais ter que aprender a tua lição e dar o braço a torcer, "não te esqueças de dizer adeus à mãe", não se fez rogado, de saco às costas, um saco quase do seu tamanho, acena-lhe da porta da cozinha, "adeus mãe, adeus, ouviste, mãe?, vou embora, adeus, adeus ...". Sei que o foi, pungente e afectuosa, a despedida entre os dois, e amaldiçoo-me por não me encontrar com os detalhes na memória. Dá-me um abraço, "sabes?, nas escadas já é estar fora de casa", concordou, acenando afirmativamente com a cabecinha, "vou sentar aqui", e, de ar pesaroso, sentou-se no segundo degrau do patamar que ficava de frente para o elevador. Excelente, dali eu vejo-te. Não quis a porta aberta, mas aceitou que lhe deixasse a luz acesa. À vez, pelo óculo da porta, revezámo-nos em vigilância, eu, a mãe e, mais esporadicamente, a que seria a madrinha da filhota, não fosse ele tomar-se de coragem, apanhar o elevador, ou calcorrear a escadaria até ao rés do chão. É que, então, a pedagogia parental acabaria logo ali. Entretanto, os outros moradores do prédio, os que iam passando, ficavam-lhe a saber o que fazia e o porquê de estar ali. Nisso, não se poupava em palavras, sempre no seu ar trágico e pesaroso. À incredulidade inicial sucedia-se o sorriso que escondia a contenção das gargalhadas. De vez em quando, tinha que entreabrir a porta para mostrar que ele estava a ser vigiado. Por duas ou três vezes fui ter com ele, convidando-o a entrar, "não queres voltar a casa?, precisas de alguma coisa?". Com os olhos no chão, abanava a cabeça em negação. Às tantas, levantou-se, pegou na "trouxa", olhou para o elevador e, repentinamente, veio tocar à porta. Um,dois,três, quatro,cinco,seis ... nove, dez, agora sim, não vá ele pensar que estamos em pulgas, abri-lhe a porta, nem tempo houve para lhe perguntar seja o que for, exultando energicamente, anuncia, em alarido, a sua descoberta condescendente, "já não vou embora, pai, já não vou embora, eu já perdôo à mãe, já perdôo ... ", "que bom, que bom, dá um abraço ao pai, que bom ... vais dar um beijinho à mãe, vais?", sem pressas, dirige-se à cozinha, de onde lhe ouço, no mesmo tom de magnânima seriedade, "mãe, dá um beijinho, eu já não vou embora, eu já perdôo", "e eu também, meu filho ...", ouvi-o a ela, com quem troco um cúmplice sorriso no olhar. E lá vai ele para o quarto, fazer como a mãe ordenara, como se nada tivesse havido ... Este rapaz ... , enfim, até é um bandidozinho com piada ...




(19/03/08)

(1.1. lê-se um ponto um ponto, tá?) ... aniversários e festas.


Mais sextas, bem taralhocas.

Numa das últimas vezes, telefonam-me, claro, fora de horas, perguntando-me onde estava, se me tinha esquecido da festa lá em casa e que ainda me esperavam. Um pouco atordoado, ainda balbucio " ...há festa? Mas tu fazes anos?". Que sim, numa secura já ofendida. O sentimento de culpa, por tão grave esquecimento, arranca-me do torpor televisivo com que tentava dormir.
Desperto o esqueleto, sacudo-lhe o pó e, penosamente, transporto-o em penitência ao sítio aniversariante. Embora estranhando aquele silêncio, lá me desfiz em sentidas desculpas, no meio de felicitações e votos de muito bons e mais anos. Os de vida, claro. Os outros não se escrevem assim. O seu sorriso complacente e o abraço efusivo de agradecimento dizem-me que sou bem-vindo, o perdão foi-me concedido. Oiço vozes familiares na sala, que vou logo cumprimentar, percebendo, então, que ... esta coisa a que chamaram de "festa", o era a de três gatos pingados, à espera do quarto, para uma noite de cartas à kingalhada.

A tal "festa" já o ia no wisky que, por sorte, não era a zurrapa do "famoso faisão", cuja venda já deveria, há muito, ter sido proibida. Aproveito para me recompôr do logro sem perder a compustura, enquanto tento controlar um sentido e negativo impulso, associativo dos "convivas" a variações linguísticas com raiz na raça caprina, não excluindo outras que, de momento, o mínimo decoro me impedede de referir, quer por metáforas, quer por parábolas.

Ora bem. Ficou-me de lembrança a jogatina com um olho fechado e o outro aberto, a impossibilidade de memorizar seja o que for, as decisões de cartas tomadas por pressentimento, muita risota e a sensação estranha de pertença a uma seita de zombies, esperando o sol para se refugiarem em escuras catacumbas.


... Poizzzz'i-a-nôte foi quente e longa, o amanhecer estava lindo, não me lembro se almocei, apenas que dei por mim, outra vez, de noite, à procura dum torpor televisivo e a tentar adormecer. Haja pachorra, paz, amor e ... mais "aniversários" destes.

Há muito que a vida se tornou demasiado curta, sem "amanhãs", só os "hojes", arrastando os "ontens". Cá se fizeram, cá se recebem, ou em dádiva, ou em pagamento. Que o diga a dor de cabeça e a menos prosaica história de Pedro, o pastor, e do lobo, quando lobo o foi.




(18/03/08)


(3.nada) ... im-preparado

... "... não me sinto bem acolhida na tua casa. No verão, foste violento". ... o quê? ... fôôôgo ...! Percebo que cambaleio, sinto-me dorido e atordoado, um frio no estômago, quase tenho um vómito, sei que estas palavras não são dela, não fui violento, fui severo, quando vi que não comias e nem o querias fazer, sou pai, a tua vida é-me importante, é-me quase tudo, dei-te a conhecer e mostrei-te as conseqüências últimas dos teus actos, no teu crescimento e corpo de mulher, de como, no limite, te verias num hospital alimentada por tubos, ficaste assustada, vi-o nos teus olhos, também deves ter visto nos meus um desespero inaudível mas, agora, essas palavras, bolas, mal acolhida? tu?, tenho que me recuperar, respirar, não me deixar ir ao tapete, já vi que não será hoje que me irás explicar isso, insistes no mal acolhida sem me explicares por á + bê o como e o porquê, vamos ver outros assuntos, quero ouvir-te, não me interessa se as palavras são, ou não, tuas, há muito que não me contas e não te ouço nada, absolutamente nada, não tem só a ver com a idade, tem a ver com o afastamento, "há conversas que só posso falar com a mãe", certo, falar conversas, "quais?", "de mulheres", "por exemplo ...?", "coisas de mulheres, pai", pachorra, "o quê? de namoradinhos?", "não tenho, mas falamos de rapazes", "sobre isso, também podes falar comigo, não te esqueças de que sou rapaz, conheço bem o assunto", abordámos momentos da infância, rimos e sorrimos, recordaste-te das banhocas e das noites de histórias, mostraste-me algum sentimento de culpa, "não acho justo", disseste, ao eu andar, sempre, com os olhos postos em ti e não dar a mesma atenção ao teu irmão, "é verdade, na altura fui injusto, tu eras a minha menina, mas, contigo, aprendi e aprendo a ser, hoje, mais pai para ele e, também, foi com ele que aprendi a ser mais pai para ti", recuámos mais, até ao tempo em que não ocorrera, sequer, a decisão de termos um segundo filho, de a termos, voltámos ao presente, à minha zanga com o irmão, no verão, ao ela ocultar injustiças porque não quer ser o motivo dos meus conflictos com ele, era o que mais faltava, ao stress nas alturas dos testes, à choraminguice habitual nesses dias, porque se via aflita com o pouco tempo que tinha, pois andara a ver muita televisão, para não falar das horas a tagarelar nos "chats" da internet, e voltámos atrás, à insónia, à minha recusa em o admitir e tratar-me, porque alguém teria de estar disponível para um chamamento ou emergência nocturna, e disse-lho, "hoje, digas o que disseres, faria e farei o mesmo, e suportarei as conseqüências, sejam elas as que forem". A nossa anfitriã desculpou-se, tinha de dar a sessão por terminada, congratulou-nos pelo diálogo que, por ainda se encontrar inacabado, poderia ser continuado sem a sua presença, começando, agora, no regresso a casa, o que fizémos. Recuando, à ida, senti a filhota tensa, fui gracejando, arracando-lhe a custo um ou outro monossílabo. Até lhe ter perguntado pelos foguetes para o sinal luminoso que, desta vez, nem foram necessários. Só aí lhe vi um sorriso. No regresso a casa, a filhota fala pelos cotovelos, está solta e expansiva, como se a tivessem libertado dum peso que a trazia tolhida. Conta-me coisas de apalpões, de "pêgas" e outros comportamentos femininos que condena. Engoli em seco, se isto é uma amostra da tal "conversa de mulheres", onde ela já vai. Lembrei-me duma reunião com a directora de turma do irmão, quando ele tinha a mesma idade, confidenciando, ruborizada, serem elas as mais provocadoras e bem explícitas, quer nos desenhos, quer nos textos constantes dos papelinhos que interceptara. Pois bem, tens a boca seca, mas assume-te, tu és pai, "acho bem que, se não aprovas esses comportamentos, não os deves adoptar nem aceitar que outros os tenham contigo", mas, como tu és gajo, "deixa-me dizer-te, no entanto, que esse comportamento não te deve meter, assim, como tu o dizes, tanto nojo, porque, quando gostares de alguém, logo veremos como vocês se irão comportar", e eu não o veja, ou corro com o gajo à chicotada e interno-te num convento de freiras, murmurou o pai. A despedida foi-o à sua maneira, afectuosa, nos abraços bem apertados, que eu julgava, assim, tão cedo, não os voltar a ter, e beijos, longos, dos bem coladinhos à face, com que só ela me mima. Sim, é verdade, sou um pai demasiado mimado e os filhotes já me toparam este ponto fraco. Pois, "demasiado", para quem não os teve, assim, a estes mimos.


(17/03/08)

(2.nada) Nocturnos com transumâncias

Sexta. Fora de horas, à noite. A melodia taralhoca persiste. Inspiro fundo, instintivamente, bastante apreensivo. Sei que, apesar de já estarmos no fim-de-semana, se não fosse muito importante, desistiam.


Não desistem e, tanta persistência, também não é a dos taralhocos. Não é um bom presságio. A guinada peitoral ordena-me, que me tenha na frieza da serenidade. Seja, serenidade. Oiço-o tocar, bolso esquerdo do que está pendurado, no pequeno ecrã, "Filhos casa", mau, qual dos três será?, não percas tempo, respira fundo, sorri, agora sim,
"Olááá. Boooaaa noooite...!?".
Oiço fungar, um
"olá"
engasgado no pigarrear, e é ele. Chora. Preciso de desencalhá-lo, o tempo escasseia,
"... grande carraspana, pá, quando te constipaste?",
o fungáqá não pára,
"... não é isso ... ",
eu sei, vá, desembucha,
"... posso ir para aí?",
suspiro, afinal não houve nenhum acidente, nenhuma emergência, fisicamente estão bem, já estava no carro, volto para casa, para trás, uns segundos, péra lá, "aí"?, qual "aí"?, quando "aí"?,
"... aonde?",
"... pai, posso ir para a tua casa?",
olha que pergunta,
"... sim, claro, a que horas te vou buscar?",
percebo o que se passa, houve zanga, revejo e ajusto, mentalmente, os compromissos do dia seguinte, tenho de falar com a mãe,
"...pai, tem que ser agora, tenho que me ir embora, não quero estar aqui ...",
o quê?, tudo mal,
"Filho, tu e a mãe sempre se perdoaram, é claro que te vou buscar, mas gostava que se perdoassem",
"pai, a mãe perdoa-me, mas tenho que sair daqui, posso ir para ai?",
bolas, se não vieres para aqui, para onde irás a esta hora, nesta hora em que não te consegues perdoar a ti próprio, e me procuras?, de resto, ele irá reconciliar-se e voltar para a casa da mãe porque, comigo, estas zangas não duram mais do que um ou, no máximo, dois meses de afastamento, depois, é como se não tivesse havido nada, quando falar com a mãe explico-o,
"amôr, já estou a ir, desce quando estiveres pronto, até já ...",
mas, cá dentro, continua tudo mal, não quero que faças isso, pões tudo em causa, como da outra vez, viras-me as crenças do avesso e, embora isto fosse previsível, com a tua mãe é que não, comigo, ainda vá, estamos habituados, desde que eras pequerrucho, eu zangava-me, e logo tu, vermelho de contrariedade e indignação, ias para o colinho dela, serenava-te no sorriso da sua voz, chamava-te à razão, às vezes fazia-o a mim, no seu tom seco de ôgre, mas sempre foi o teu refúgio, excepto no dia ...


(16/03/08)

(1.nada) Sextas- ...

Sexta. Fora de horas, à noite. A melodia taralhoca persiste. Inspiro fundo, ora indeciso, ora apreensivo. Sei que, se não não fosse muito importante, desistiam.

Só assim não o é ao fim-de-semana, quando o meu pessoal, igualmente do mais taralhoco, com uns copos já mal medidos, entende que sou preciso. Para medir mais copos, para a galhofa, celebrarmos a alegria de estarmos vivos, de nos rirmos juntos. E assim ficamos até às ... bom, isso é algo que, agora, não interessa. De todo.

Regra geral, aceito o repto. Agarro nas minhas jolas sem alcool e lá me vou. No inicio, custou-lhes a aceitar que sobrevivesse alguém num estado de ... e, apenas, um pouco menos de sobriedade. Um pouco menos porque, na minha incapacidade de replicar o milagre da multiplicação, as jolas sem álcool também se acabam. Digamos que se trata dum estado de ... isso, "sobrieguez".
Em desespero, por tanta contenção, acusam-me de recusar os prazeres da vida. "Já não bebes, não fumas, ..." . Como não podia deixar de ser, baixando a voz, quase entre dentes para a miudagem não os ouvir, lá tentam a provocaçãozinha, quiçá, na esperança de que dê à língua, para me saberem mais, ou se cumpro com vida, "... já não (coisas e tal)...". Ora bem, ignore-se a insinuação e aplique-se a táctica número três, lembrando-os de que "Cada um tem a sua medida. Na minha, são duas de água para uma de alcool ...". Se a descrença já é muita e não tenho os filhotes ao pé, torno-me um pouco mais "pedagógico", há que criar-lhes expectativas e calá-los com a esperança , saia a táctica número ... não sei quantos, porque lhes perdi a conta, " ... não há azar, não perdem pela demora, já vos passo, ...".

Metodicamente, com calma e, de preferência, razoavelmente sóbrio.

Sunday, March 09, 2008

Bizarrias de "tim"

1. Olá
2. Olá
1. Quem és tu?
2. Não sou nada, sou a voz. E tu?
1. Outro nada, outra voz. Porquê?
2. Porque estás aqui.
1. Tu também.
2. Mas eu sei, porque sei, porque estou aqui.
1. Porquê?
2. Porque tu estás aqui.
1. Não entendo.
2. Foste tu que me procuraste.
>
>
>
>
2. ...se calhar, sou a tua solidão.
1. Prazer em conhecer-te. Não sabia que tinha uma. Tem dó.
2. Não sejas cínico.
1. Gozas, só pode. Como sabes que sou "um"?
2. Porque te conheço.
1. Fazes-me me rir.
2. E tu, também.
1. Não interessa. De que vamos falar?
2. De ti?
1. Não!
> Não, hoje não, hoje quero ouvir. Fala-me tu, de ti.
2.>
> vais achar que não faço sentido.
1. Fala.
2. Não gosto de mim.
1. És feia?
2. Às vezes, sim. Sinto-me só. Apetece-me fazer os outros infelizes.
1. Hoje, nem te atrevas a fazer-me isso.
> Estou a brincar.
> Vá, continua.
>
2. Também já te fiz infeliz.
1. E tu a dar-lhe.
> Seja, suponhamos que sim, que me conheces, que já me fizeste infeliz.
>
2. Essa hipótese não te perturba?
>
1. Veremos.
>
2. Pois.
1. Continua.
2. Também há pessoas que se sentem felizes comigo.
> Mas é sempre por pouco tempo.
>
>
>
>
1. E ...?
2. Também te fiz e faço, muitas vezes, feliz.
1. Duvido. Eu conheço muito bem quem, e o que me fez, e faz, feliz ou infeliz.
2. Vês? Também estás a repelir-me.
1. Se assim fosse, não estávamos aqui a falar.
2. Não é isso. Tu repeles-me porque não acreditas.
1. Acreditar? Ah, as minhas crenças ... És danada. Vá, vá! Isso, agora, não
> interessa. Afinal, estou a ouvir-te ... ou a ler-te... ou seja lá o que for ... ou
> não for ...
2. Ultimamente, tenho sentido a tua falta.
1. Ora essa ...
2. Já foste o meu amigo inseparável.
> Pela minha mão, exploraste a natureza selvagem, onde mais ninguém te
> acompanharia. Passeavas e percebeste o mundo comigo. Caçaste pássaros
> e pescaste comigo. Quando lias, assustavas-me. Enchias a mente de vozes
> e imagens. Cheguei a pensar que, prematuramente, me abandonavas. Nas
> vezes em que quase
>
2. quase te foste, eu fui tu e, tu, eu.
1. Espera ai, calma lá. E que tal se a malta mantivesse a conversa num nível
> menos exotérico?
2. Foste tu quem queria, quis e quer ouvir, em vez de falar.
1. Bolas, mas isso, era porque não queria falar de mim. Agora, tu, metes-me
> nessa história, a torto e a direito. É aborrecido, pá, é chato. Não sabes
> falar só de ti?
2 .Não, eu estou a falar de mim.
1. Hum ...
2. Reagiste mal ...
1. ... não ligues, é por causa dessas bizarrias de que falas ... desse constante
> "tim"... tu e mim, topas? tou cansado ...
2. ...ainda não tens sono?
1. ... ham ... porquê?
2. ... sou eu que te acompanho e te dou o teu silêncio, aquele de que
> precisas para te desligares do mundo, quando procuras adormecer...
>
1. ... és má ... muito má ...
2. ... também sou eu quem te faz escrever, e te dá os momentos para o
> fazeres.
1. ... então, ainda és muito mais má!
2. posso dormir ao teu lado?
1. >
1. pá, já nem digo nada
>
1. dorme onde quiseres
>
>
1. ao menos, tens uma cara bonita?
2. para sonhares? tenho todas as caras bonitas de que te possas lembrar
1. ham ...
> ham
> pois, lembrar ... de coisa nenhuma
>
> nao quero
>
> deves chamar- te
> -te escholtzia
2 >
2.?
>
2. dormes?
>
1. >
1. quase, não me fales
>
1. e não me toques
>
> senão, desperto
2. prometo
> dorme
> sim?
1. adeus, beijo
>
2. beijo
> boa noite
1.>
>
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> [Esc]

Tuesday, February 19, 2008

"...tolo..."

Dá-lhe para falar e, a mim, para rir. Ou, então, para ficar com um sorriso, ora apalermado, ora coisa nenhuma que palavra alguma o descreva. Coisas de pai-galinha.

Já fazia contas ao tempo, para minimizar o atraso ou, se possível, eliminá-lo. Tivera, até, o cuidado de, antes de sair de casa, lhe telefonar, "Amôr grande, vai descendo que o pai já está a ir para aí". A garota demorou 15 minutos a descer. Ou mais. Julguei que fosse, como habitualmente, por causa de algum carrapito que não tomava o jeito pretendido, ou a côr da camisola que não combinava com outra peça da indumentária. Esta malta pode levar uma eternidade, até que se sinta confortável com os trapitos escolhidos para sair à rua. No entanto, desta vez, não teria sido esse o motivo.

Entra-me no carro, esbaforida, de sorriso gaiato e feliz, beija-me de forma esfusiante. Está com muito bom aspecto e, rapidamente, sinto que, hoje, tenho a minha filha, mesmo que por breves instantes, de volta. Quase a rir, pergunto-lho, porque se demorou. Ainda com aquele sorriso de orelha a orelha, diz-me que esteve a acabar o trabalho de geografia. Desarmou-me. Se foi essa a razão, tem a quem sair. Se foi por causa duma conversa no "messenger", nunca o saberei. "Mas tu sabes que não podemos chegar atrasados". "É que tinha mesmo de acabar o trabalho". Mudo de rumo ao assunto e peço-lhe para me contar as coisas boas do fim-de-semana. A rapariga continua faladora e, ora me faz rir, ora sorrir.

Passo a portagem, olho para o relógio e percebo que tenho 12 minutos para chegar ao destino. Ela diz-me que dará um "soco nos dentinhos" de quem se puser à nossa frente. Com isso, tira-me uma gargalhada.
Continua a falar sobre tudo e eu, numa de galináceo, ora a sorrir, ora a rir. "Ó pai, pareces um tolo". "Hã? Êêê ...Êêêeuuu? ... Porquê? ", "Estás sempre a rir". "É porque me fazes rir", sorrio-lhe eu, enquanto finto o trânsito da auto-estrada a velocidades nada pedagógicas. Perante a visão, um pouco mais à frente, duma luzinha vermelha deveras antipática, desabafo, digo-lhe que, no dia em que o sinal luminoso, por que iremos passar, estiver verde, até deito um foguete. Ela sorri. O sinal muda para verde, quando nos aproximamos dele. Trocista, espreita-me e questiona, "Então, onde está o foguete?". "Pois ... ", desculpo-me e, meio engasgado, "fica para a próxima". Ainda tenho tempo para lhe dizer o que achei do último filme do Astérix e da comicidade do actor que encarnava o tal de Brutus. Quanto ao resto, não lhe achei grande piada.
Desafio-a para, o mais brevemente possível, irmos explorar um sushi. Deve ser a décima vez que lhe falo no assunto. Pergunta-me porque não vou com a minha amiga. "Porque quero ir com a minha filha. ", atalho.

Ora bolas, chegámos. Fim de conversa mas ... ainda estamos dentro do horário. Registamos a chegada e, uns minutos depois é a chamada. Cumprimento a psicóloga, saio e ... sorrio, agradecido e apreensivo. Tento ler um livro mas tenho de mudar de sala, para ignorar os comentários sarcásticos de um pai que já esperava há duas horas pela consulta de pediatria. Não deve, mesmo, estar habituado a estas coisas. Ainda por cima, num dia de temporal e de cheias. Ou, então, não sabe apresentar uma reclamação. Das primeiras vezes que lá fomos, aguardámos, também, duas horas. Tanto eu como a mãe sabemos que os bébés, febris ou não, sempre estiveram primeiro. Os nossos, também já o foram, bébés febris e garotos, daqueles muito ranhosinhos, que se nos agarram ferozmente à protecção do colo. Também sabemos que as pessoas erram e, por isso, deveremos estar atentos. Aquando da primeira consulta com a psicóloga, apercebemo-nos de que haveria um problema. Enquanto tentávamos esclarecer o assunto, a psicóloga fez o mesmo, depois de esperar meia hora sem que lhe fosse comunicada a nossa chegada. Nós, para além de descobrirmos que nem constávamos da lista de consultas, exigimos que se contactasse a médica. Esta, afinal, já estava ali, ao nosso lado, no mesmo balcão, pelo que se ultrapassou, de imediato, o problema.

Às tantas, o homem começa, jocosamente e sempre em alta voz, a desatinar, que se tratava do simplex a funcionar. Respirei fundo, saí dali.

Há malta assim, em todos os estratos sociais e de formação escolar ou académica. Atiram uns comentários em voz alta, sem destinatário específico, quiçá à espera duma ovação, ou apenas de alguma forma de atenção por parte dos outros presentes. Os piores são aqueles que, depois, se gabam junto dos amigos, de terem dito isto mais aquilo, e se vangloriam, como se tivessem ganho a grande causa das suas vidas, sem que, no fim, tenham atingido qualquer objectivo útil, ou resolvido o problema. Por falar em problema, esta malta deve ter problemas graves com o ego.

Não obstante o almofadado de uma fina camada de espuma, os bancos são quase de "suma-pau" e convidam-nos a darmos uns passos, a cada meia hora, para que as nádegas retomem a sua forma arredondada e se aliviem dos formigueiros da dormência. São quase seis da tarde e a minha filha continua lá dentro. Ainda bem. Pergunto-me o que, ou se, aos pais, será dado, em qualquer altura, algum retorno dessas conversas. Para mim, outra coisa não fará sentido. Claro está, se calhar, não pensamos todos da mesma maneira. Veremos.

Mudo de sítio, para facilitar o trabalho à equipa da limpeza, que o agradece. Absorvo-me no livro. Não dou pelo tempo e, de repente, tenho a filhota, ali mesmo ao lado, a perguntar-me, "então, vamos, pai?". Estava com um sorriso sereno e introspectivo. "Já foste ao guichet, por causa da justificação e saber se é preciso mais alguma coisa?". Sorriu, " não me digas que nem me viste...". Pois não. Enquanto percorríamos, de volta, os corredores labirínticos, diz-me que a psicóloga também acha que todos, os da família, incluindo o irmão, deveriam, também, recorrer a uma ajuda especializada, como ela o estava a ter. Percebo que, muito provavelmente e, assim, sem o devido contexto em que a conversa decorreu, aquelas palavras devam levar algum desconto. Ocorreu-me, por exemplo, que as mesmas tenham tido origem numa questão posta pela filhota, de forma directa, sobre o assunto. "...mas, como? Todos juntos?", "Não, cada um com o seu.", "...se ela o acha, assim, como tu o dizes, também o há-de recomendar ao pai e à mãe ...". Ocorreu-me, simplesmente, que nenhum terapeuta me ajudou a encontrar o, ou o meu caminho, para deixar de sentir ou aliviar-me do sentimento de perda causado pelo súbito afastamento dos filhos, nem do vazio que isso me deixou. Hoje, percebo que terei de conviver com esse vazio, até ao fim. Como algo que estará sempre presente, que fará, sempre, parte da vida. Há doenças que se curam, que o corpo cura. Mas, na vida, tal como no corpo, há coisas , mazelas, que não se curam. A vida não tem cura. Ponto final.

Sinto a filhota mais reconciliada consigo, com o mundo, comigo. Isso concede-me mais um momento de serenidade. Não obstante, tenho consciência de que estamos no início, de que nada está consolidado e o caminho ainda será longo. No regresso, comenta que a vida das senhoras da limpeza é difícil, ganham pouco e os horários raramente lhes permitirão ver a família. Dei-lhe razão, sugerindo-lhe que escrevesse sobre isso, e sobre outros pensamentos e reflexões, decorrentes da sua observação do mundo. Lembrei-me das muitas vezes em que eu e outros colegas as víamos chegar e partir sem irmos a casa. Como nós, muitos mais há e haviam, noutras vidas. Coisas da globalização e das profissões que, mesmo antes dela, sempre foram tramadas.
Finalmente, despede-se em beijinhos e abraços. Mas ... ainda não será desta que a terei de volta às visitas.

Chego a casa e a electricidade resolve ter descanso. Já de madrugada fizera o mesmo. Vou à janela e acho injusto que os bairros à volta continuem iluminados, indiferentes à escuridão vizinha. Paciência. Foi mais um dia, missão cumprida.

P.s.
Enquanto escrevia, alguém me telefonou, com a notícia da morte dum amigo. A vida não se lhe curou, o álcool não lhe perdoou, um cancro matou-o. A vida pode ser inebriante, se com ela formos honestamente sóbrios e ... nos deixarem, ou ajudarem a viver.

Monday, February 18, 2008

Agora, toma tu a bola.

Sorriu, não hesitou um segundo, "aproveita o momento, telefona-lhe já".


Andaram sem se falarem durante um tempos. Quando as coisas aquecem no tribunal, em casa, a visão e a justiça são unilaterais. A civilidade dá lugar ao insulto, digo-lhe adeus e afasto-me. Ficamos, assim, um mês ou dois. Depois, reencontramo-nos, eu tenho saudades, ele também, vemo-nos, abraçamo-nos.

O dia de aniversário marcou um novo reencontro. Foi o meu melhor dia de aniversário dos últimos 5 anos. Haviam cerca de 20 convidados. Para ser perfeito, só o seria com a presença física do meu pai e de mais 15 amigos e amigas do peito. Senti-lhes a falta, mas a casa e a minha capacidade de servir não dão para tanto.

À despedida pedi-lhe para me telefonar e combinarmos qualquer coisa. "Tu, agora, já andas, outra vez, ocupado. Telefona-me tu, quando tiveres tempo para mim". Fiquei estupefacto. Desde que completou os 18 anos, acabou unilateralmente com as visitas. Agora, achava que a existência de mais alguém se iria interpôr entre nós. Será que só o achou agora? No dia seguinte, confidenciei-o, a ela, o que ele me dissera. A sua resposta pronta fez-me pegar, de imediato, no telefone. Desde então, temo-nos visto e estado juntos mais vezes do que com a aplicação da regulação do poder paternal.

O que fazemos? Experimentamos comidas exóticas, vemos e discutimos filmes, bebemos um wiskyzinho, falamos de projectos e, quando ele o aborda, falamos da escola. Sim, é verdade, também falamos de mulheres e raparigas, de relações afectivas, de géneros musicais e concertos.

São momentos como estes que me fazem sentir que tudo valeu e valerá a pena. Depois deles, fica-me o sentimento de que, se morresse, o faria em paz, comigo e com o mundo.

Sunday, February 17, 2008

Compôr

... a vida, ao som do tempo. Tiram-se umas notas, muda-se a harmonia, melhora-se o tema central e procuramos não tocar, outra vez, a nota abandonada. Simplesmente, retiramo-la deste improviso, que é a vida. Tomam-se decisões e apagam-se melodias outrora cativantes mas que, posteriormente, até feriam o ouvido, de tão primitivas e cansativas. Repetitivas de estereótipos e fífias. Cacofonias.


Tomou o gosto por outras harmonias. Mais frescas, tocadas em novas escalas de mudanças. Embalou-se. Um dia, encontrou parceria, alguém que queria tocar na mesma harmonia. Depois, percebeu, a parceria já não queria, não aceitava a liberdade e o respeito pelo solo do outro, queria um dueto que tocasse, agora, por uma pauta, a por si escrita. Desfez-se o dueto em fífias agonizantes de feridas. Do que ficou gravado na memória auditiva da vida, do que tinha sobrado nos solos em harmonia, foi tudo apagado, no dia em que a incongruência das palavras, e a dos actos, excedeu, em acumulação de fífias, qualquer forma de harmonia.

Por tudo isto, foi o ano de 2007 um dos melhores das suas vidas. Partiram-se corações e destruíram-se omissões. Que 2008 lhes reserve igual verdade. Obrigado, 2007.

Thursday, February 14, 2008

Namoricos sem desgosto

de-Namoro
(Relembrado)




Quantos anos teria … cinco? … seis? Lembro-me de as ter comprado à entrada da estação, no Cais do Sodré.



Sempre detestei este dia, muito corrompido. Para mim, sempre fora o de 19 de Março, aquele em que tudo se iniciara, num suave, mas quente e longo beijo. Ah, mas este ano, todo eu transbordavade paixão. “… tenho de levar mais, afinal, são duas … e somos dois ...”. Saí mais cedo, a correr, " ... que se lixem os papéis, a mais os compromissos pseudo-inadiáveis ..."



Ah, este ano, o amor sorria-me. Caminhei, orgulhoso, de ramo farto, bonito, frondoso. No combóio todos me olhavam, sorrindo, tantos cuidados com aquele tesouro. Autocarro é que não, ficaria todo amachucado. Vamos de táxi, o que levo é precioso.



Combino com o Filho, “ … esta é para a tua namorada …. chchchchchch … , sim, a grande” (referia-me à mãe). Deixo que ele complete a sua oferenda com muitos beijinhos. Depois, entro eu, beijo a Mãe, já meio apardalada, reservo-lhe o ramo grande, “… um beijo, são para ti, meu amôr …”. A pequerrucha olhava, com um sorriso intrigado. Virei-me, ajoelhei-me, devagarinho, estendi-lhas, um raminho de três lindas rosinhas, declarei-me, “… para a minha namoradinha …”. Surpreendida, pegou nelas, trémula, e, de repente, desmoronou-se num pranto, num tal pranto, que me afligi. Abracei-a, peguei-lhe, embalei-a, “… o que foi, meu amôr … o que foi …?”. Ainda hoje, não sei, não sabemos, o que a fez ficar assim, naquele lindo dia, de namorados.

Este ano, como desde então, renovei os meus votos. "Olá, boa noite. Quero deixar um postal na caixa de correio para a Carolina. Não te importas de abrir a porta? " Que sim, concordou a mãe. Ontem, a filhota telefonou-me a agradecer o postal. Enfim, nada de mais singelo. Na capa, a imagem de três rosas com um pequenino texto, "Só três palavras importam... ". Lá dentro, ainda se lia ... "Gosto de ti... ".

Não, a filhota já não chora.

Wednesday, February 13, 2008

Terapias

Não entendeu bem o objectivo.

Primeiro, entrou a mãe. Depois, chamaram o pai. O sorriso da psicóloga desarmou-o.

Não se lembra de como se iniciou a conversa. Recorda-se de ter falado dos filhos, da doença da mãe, das opções que tomou para o melhor e para o pior, sempre temendo que a mãe voltasse a passar pelo mesmo. De como optou por calar os problemas, e sentir-se feliz por chegar a casa, a horas ilegíveis, e sentir que tinha valido a pena morrer mais um dia, ao contemplar o sono dos seus três anjos. De assumir que, em relação a isto, voltaria a fazer o mesmo e suportaria todas as consequências que já conhecia. De como conheceu a mãe. Do parto, para ele traumatizante, do primeiro filho. Dos desentendimentos parentais quanto à educação deste.

"E, depois, veio a menina .." , atalhou a psicóloga. Aí, falou, como alguns falam dos tempos da tropa. Pôs um sorriso e só se calou quando a moça lhe chamou a atenção para o adiantado da hora. Pois, ainda tinha de ouvir a filha. Quando saíu, ficou confuso. Que sentido tirar de tudo o que disse? Que aquela bébé e menina o viciou numa paternidade interrompida, incompleta, deixando-lhe um vazio irreparável no seu sentido de vida? Que o ensinou a lidar e perceber o seu papel na paternidade em relação ao irmão mais velho? E depois? Podemos atenuar ou curar doenças, mas não podemos curar a vida, não é?

Suspirou. Meu Deus, nada de mim fez ou faz sentido. O que sentirão os pais a quem raptam os filhos de 8 anos? Nada disto me faz, ainda, qualquer sentido. Continuava sem as respostas de que precisava para entender onde errara nos valores que, de forma consciente, ou não, transmitira à filha. Onde lhe falhara com a sua presença e com o diálogo, apesar da separação? Onde estavam as pontas desta meada tão ensarilhada? Onde devia deixar de ser pai? Ou onde deveria passar a ser outro pai, um pai diferente? Mas que pai? Porque não vem o irmão aqui? Ainda nas férias me insurgi contra a forma verbal com que tratava a irmã, que nem podia trautear a sua música preferida, porque o incomodava. Aliás, a pobre mal poda abrir a boca e exprimir a sua opinião. Com ele a querer, sempre, decidir pelos dois. E do receio dela em estar no centro dos conflictos entre mim e ele. E, se é assim comigo, que justiça impera na casa da mãe? O que reprime ela, para proteger a paz? Quais as fontes da sua insegurança? Quais os seus receios, hoje, em relação ao futuro? Como encaram eles uma nova relação dos pais com outros companheiros? Como o inicio de um abandono?

Ficou confuso e frustrado.

Tuesday, February 12, 2008

Sezões

O Carnaval foi bom. Visita a Tábua e seus arredores. Um sitio onde ele até gostaria de viver, fez-lhe lembrar a sua querida Moimenta e a barragem do Vilar. Só lhe falta o mar.

A companhia foi excelente. Sempre adorou a sobrevivência granítica das gentes beirãs. À ida, já ia febril. Nada que um cêgripe não tratasse. E a oportunidade da saída era boa demais para ser desperdiçada por causa duma febrezita imberbe. Mais a mais, o ar fresco da montanha, por vezes, tem o dom de curar tudo. Depois, era a tão almejada visita à Avó, planeada com cuidado e carinho. As netas, essas, há já uma semana que não falavam noutra coisa.

À segunda noite, percebeu que o milagre cêgripe não aconteceria. Sem problemas, preparou-se para a sua longa noite dos facas longas. Hábitos de sofrimentos e curas aprendidas com o paludismo e transpostos para as gripes europeias. Bom agasalho, febres na ordem dos 40 graus, dôres e mais dôres, qual lâminas de espadas cruelmente enterradas pela base da coluna, e por ela subindo, até trespassarem, o cérebro, dilacerando-o, indiferentes ao indescritível sofrimento. Seriam os delírios e ... paciência, os pesadelos. Sempre eles, oportunistas, aproveitando-se de todas as vulnerabilidades e prostração da fragilidade humana.
Quanto ao resto, pois lá viria uma noite gostosamente suada, com a febre exorcisada em cada espasmo de suor e dor. Certo de que, no dia seguinte, ele estaria livre das sezões e preparado para mais um dia, moído no corpo mas sorridente na alma. Pronto para se chegar à cozinha e dar mais dois dedos de conversa à Avó, enquanto planeavam e davam corpo à almoçarada, em jeito de desgarrada.
Mas ... os tempos são outros. Os vírus andam mais truculentos e difíceis de debelar. Estes, ao que parece, o seu corpo não os conhecia. Desta vez, nem uma pinga o suou. Depois duma segunda noite de tortura, atirou a toalha ás cordas e suplicou " leva-me ao hospital ". Viu-lhe o olhar assustado, o medo de reviver com ele o que passara com a mãe, no verão passado, quando acometida de súbito problema cardíaco.
Respirou fundo, guiou-o pelas consultas do centro de saúde, onde nem a medicação adicional nem as compressas, embebidas na gelada água dos canos, faziam baixar a febre. Ele tremia , rangia os dentes e tentava explicar-lhe a obcessiva falta de botões que tanto o irritaram nas mantas do seu último delírio. O RX acusava algo de suspeito, exigindo meios de diagnóstico adicionais para o confirmar, ou não, nos serviços de um hospital central. A pneumonia estava a tornar-se, este ano e por aquelas paragens, num problema crescente. "Aqui, não podemos fazer mais, vamos enviá-lo para Coimbra ". E fizeram-no. Mais análises, perguntas num sotaque doce, no das gentes locais, doce de simpatias e muito humanismo, contrastando com a aspereza e cínica ironia que testemunhara por várias vezes nos hospitais de Lisboa. Havia muita juventude diligente naquela equipa médica. Diagnóstico? O de surto gripal agudo, nada de pneumonias. Por enquanto. Um injectável para baixar a febre (" é o mesmo que aspergic ") e , milagres dos milagres, a febre começou a baixar e o corpo a suar em pinga. Finalmente, tinham-lhe devolvido o corpo, o seu corpo, a funcionar como o conhecera e conhecia, e funcionou como o sabia por mais dois dias. Gostosamente, suando e suado.
Ele sade que, como doente, não é sensato e pode, mesmo, tornar-se cínico e irritadiço, quando o sobrecarregam com mezinhas tradicionais ou lhe descarregam em cima recriminaçôes, quanto ao que fez ou deixou de fazer, pela saúde, ou contra ela. Lembra-se de, uma vez, na sua infância, ter sido açoitado enquanto sangrava abundantemente dum joelho. Numa altura em que estamos vulneráveis e frágeis, não suportamos ser, nessa altura, mentalmente açoitados, reagimos da pior maneira e nada mais desejamos do que sair porta fora, nos isolarmos e tratarmos-nos sózinhos. Como em tudo, a aprendizagem fez-se do passado, fez-se do presente, a dois, de forma solidária e indiferente aos perigos do contagio. Sem isolamentos, com amôr, assim, como ele tanto o gosta de escrever. Foi dura, prendeu-o à cama, prendeu-o à casa, saídas para tomar o café do vício, é que nem pensar , ou acaba-se já e aqui o namoro. Bolas, murmurou ele, entre dentes. Lá se fora a sua adorada e sagrada independência de eremita, o seu hábito de tudo fazer sózinho, incluindo os os descuidos na saúde. Soube-lhe bem, ter alguém que dele cuidou de forma responsável e diligente, sem se preocupar com mais nada. Quando se dão provas de estarmos em boas mãos, até o mais renitente se entrega.

Tuesday, January 29, 2008

Onde ficaste? Por onde estás? Como estás?

Não a viu nascer porque não o deixaram. Depois, não a largou.
Deu-lhe a ver e experimentar, nas mãos e boca, todos os pedacinhos de tudo, provava e comia de tudo, e tudo lhe dava, do que, e para onde, o seu dedinho indagador apontava. Para o Mundo. Comunicavam pelo silêncio, falavam-se pelo olhar. Um dia, o mundo dele ruíu e, com ele, o invisível cordão que os ligava. No entanto, algo nele continuou a senti-la, a percebê-la, num estado constante de asfixia, misto de muita perda e ternura.
Ela cresce, ele olha, sorri, angustia-se, percebe e não aceita que seja assim. Hoje, perde-a, todos os dias, bocadinho a bocadinho, em cada minuto, em cada segundo de afastamento.
Ela fecha-se, assim, de um dia para o outro, opta pela mãe, para estar. Afasta-o no Natal. Já não falam abertamente do que, para outros, seria tabu, no que respeita a conversas de pai e filha. Já não vai com ela às consultas de ginecologia, onde crivavam a médica com perguntas. Mas isso, até é normal. O pior, é o já não falarem de nada. Meia dúzia de banalidades, escondendo conflictos e acusações de um longo processo de separação, em que o bode expiatório será sempre o que não está lá. Ele. E ele percebeu que, apesar de só a ver umas parcas horas semanais, algo não estava bem nos seus hábitos alimentares. Modas da idade, disseram-lhe. No verão deu o alarme. Foi acusado de alarmista. Hoje, ela está nas consultas de psicologia. Por causa da anorexia.
Ele, é avisado, ou melhor, ordenado, pelo médico, de que não lhe pode causar pressões. Bem entendido, lá se foram as visitas ao pai. Que isso é importante para a cura. Será? Sente-se numa camisa de forças, quase a explodir. Está farto. Não está a aceitar o papel que lhe destinam, como "parte importante no processo de cura ", ou seja, o de mero espectador passivo, como lho reservam. Algo não lhe está bem nesse papel, que não lhe serve e onde não cabe. Precisa da sua mão. Em silêncio, para lhe sentir a alma. Senti-la na alma.

Monday, January 28, 2008

des-achada, a maninha pintainha.

Nunca mais se soube dela, por estas paragens.

Da última vez que lhe ouviu a voz ficaram, um e outro, sem saber bem o que dizerem ao telefone. Ele, porque não estava à espera de a ouvir, enquanto descia as escadas e recebia os convidados para a sua festa de aniversário. Reconheceu-lhe o silêncio cúmplice da infelicidade, de quando não está bem. Tentou, atabalhoadamente, balbuciar qualquer coisa com sentido, que a animasse, que a fizesse sorrir. Procurou, à pressa, uma graça perdida na memória, mas não a encontrou.

Em pouco tempo, desde que ela voltou a casar e encontrou um novo emprego, a distância aumentou. Foi sabendo, por terceiros, que lhe ia melhor a vida, não obstante os contratempos da nova união, normais para quem está de fora, mas angustiantes para quem os vive. Congratulou-se, ao saber que ambos conversaram, que a união voltara. Isso soube-o, então, por ela. Um dia, ligou-lhe, para saber como ia. Era dia de aniversário do filhote, foi convidado, conheceu-lhe mais familia, sentiu-a feliz, bem entregue, sentiu-se, ele, feliz.

Naquele preciso momento, não havia nada a dizer, por ficar tanto por dizer, para dizer. Por o desalento ser tão audível naquele silêncio, enquanto ele, ainda de telemóvel na mão, entre dois beijos e outros tantos abraços dos convivas recém-chegados, lutava para lhe dizer que não a achava bem, que talvez fosse bom visitá-la e à família, para conversarem, pensarem. Ela deu-lhe, laconicamente, os parabéns, após o que passou o telemóvel ao marido. Este, como sempre, muito contido e, simultâneamente, um pouco mais efusivo.

A vida, por momentos, é tão difícil, que perdemos a capacidade de sorrir.
O aniversariante sabia o que é e foi ter filhos com problemas de saúde. Ser pai, ou mãe, nunca foi algo para que estejamos preparados, nestas condições. As de sofrimento, ansiedade e sobressalto. Se a isso juntarmos a imatura e gratuita violência de terceiros, sobra a vontade de desancarmos o mundo.

Ainda não decorreu muito tempo mas, para ele, já o foi demais para não saber de mais nada. Talvez, por isso, tenha começado, também, por aqui, na esperança de uma pequena, mas pouco provável, visita.

Tuesday, January 08, 2008

"Porquê? Ainda não tinham reparado?"

Não sei como foi, ou o que foi. E o que é e como o é. Mas é.

Há muito que te conhecia, áspera, como ásperas são as mulheres que que se fazem à vida sózinhas e tomam nas suas mãos enormes responsabilidades. Eu sei que têm um lado implacável, sim, ele está lá. Nunca gostei de ser encostado à parede por uma mulher que, no espaço do relacionamento, se ache empoderada ou com o direito a dizer-me como quer a minha vida e o que devo ou não fazer, na maioria das vezes sem qualquer empatia pela delicadeza das situações. Suspeitei que fosses assim. Depois, comecei a ouvir-te, "O que achas?". E eu, não fazia ideia porque mo perguntavas. É que não achava nada de especial, ou ter algo a dizer, sobre o que conhecia ou desconhecia, sobre o que, para ti, seria a diferença e, para mim, não passavam de diferenças, assaz normais, de vida. Achei-te intrusiva, na tua forma de quereres o que de mim pretendias, sabendo que tinha mais alguém. Depois? O tempo passou, nem tudo na vida te correu de feição. Aliá, a mim, também não. Fomo-nos vendo, percebi que me respeitavas, no cuidado que punhas, na ternura das palavras. Percebi, ainda, que me observavas, me estudavas, e lá me ias perguntando, "o que achas?". Eu? Eu acho que o importante é Tu achares que as tuas Convicções são o importante e, mesmo que não concore com elas, aceito-as. E percebi que não concordavas com todas as minhas, com algumas, mas que as aceitavas. Ou melhor, que reservas para outro momento uma nova abordagem sobre o assunto. Foi nesta troca que, assim, subitamente, apercebi-me dum brilho diferente nos teus olhos. Não, não eram já aqueles olhos de aço, ordenando, por ser essa a tua vontade ou, quiçá, estares habituada a que a vida tivesse uma ordem, a que tu lhe punhas. Desta vez, olhei-te melhor, sim, eu olho as almas nos olhos. E vi na tua alma aquele brilho cintilante, a centelha da ternura. No dia de Natal, prendeste-me a atenção, foi a minha vez, observei-te, na pessoa diferente em que te tornaste, imaginativa, solitária exploradora, dos espaços e do tempo mas, simultâneamente, não querendo fazer sozinha a viagem da vida. Descobriste tanto e pergunto-me o que achaste de fazê-lo sem a partilha. Percebo-te. Desde miúdo que guardo comigo imagens que, de mim, fizeram o que sou, alguém cheio de coisas que não se partilham. Puseste-me a falar de coisas até esquecidas, daquelas que eu não queria. Ou julgava não o querer. Entraste de mansinho nesta vida. Sabendo, apenas, do passado que me conheces, ignorando todos os outros terramotos que me abalaram a vida, todos os dissabores e amarguras dos últimos, quase, 4 anos. Hum.. ou então, conhece-los, enquanto, pacientemente, aguardavas o meu regresso à "quase vida". Com os olhos postos no futuro. Como o dizes querer, para o futuro. No dia do Ano Novo, soube-me bem, o teu gesto terno, tão discreto, de despedida.
Ah, mas há que contar com a "criação". Três mulherzinhas que, de tolas, nada têm. Não demorou muito até nos surpreenderam numa beijoca escondida, perceberam que estavas diferente, e nós sabíamos, ia haver interrogatório. Comigo ausente, não se rogaram, "ó mãe, porque não nos disseste que gostavas dele? ". Na tua voz calma, na paz que hoje te conheço, limitaste-te a responder "Ah.... Porquê? Ainda não tinham reparado?"
Fim de interrogatório.

Thursday, September 20, 2007

Efémero

Naquela manhã, voltei ao mesmo sitio, o do encontro, sem outros olhares, que não os nossos. Fui, sentindo-te, sussurrando, doçuras, "... porque não nos sentamos?". Olhei para a mesa, ainda por limpar, sorri, comecei a sorrir. Sentei-me. Num café, nesta mesa, onde já não estou, porque olhei para a outra cadeira, não há lá ninguém, mas está mais alguém. Às vezes, a solidão prega-nos destas partidas. Algo que nos envolve, nos trás o peito apertado em ternuras, nos acompanha em doçuras, nunca estamos sós. Sorri. Percebi. Vi, em delicada ondulação, ténue, suave, transparências de vapôres aromáticos, suavemente erguendo-se, na chávena, da chávena, que respiro, aspiro, semicerrando os olhos, o teu rosto, definindo-se em contornos, formando-se com um sorriso, meio triste, mas meigo. Sorri. Olhei-te como o gosto de te olhar, por dentro, na alma, ou seja, nos teus olhos, sempre tristes, sempre meigos. Por vezes, tão aflitos. Outras, um nadinha cansados. Ah, mas sempre tão lindos. Suspirei. Arfei, de ternura. Que podia eu fazer, senão sorrir. Nos lábios, desenhaste um coração, igual ao gesto dum beijo, sereno e doce. Sonhei, desejei, beijei, também, muitas vezese, de olhos postos no que os outros viam, apenas, como um vazio, ou pouco mais, ou seja, do que ar e ...um ar de nadas. De forma estranha, delicadamente, tão delicadamente, gotinha a gotinha, bebi, com doçura, o meu café, saboroso, sem açúcar.
Decorrido algum tempo, voltei ao mesmo sítio, pedi ao balcão, já não esperei por alguém, fiquei com a vida, a minha, a fugir-me, sussurrando-me, " não tenhas medo, não da solidão, essa tua forma estranha de estares, quando pensam não estares, e sorris, ou te te ris, no meio de gente que não te sente, em nada, e em nada ficas, sempre, tão só ". Quando saí, pensei, estou comigo, já não te atendi, não te precisava, nessa voz das 9 às 5, com descanso aos dias santos. Lá está, sorri. Estava mesmo só. Estabeleci um plano, e sorri, outra vez, por cada omissão, fingimento, incumprimento ou a já indiferente desilusão, em cada inconsequente desconfirmação. Ah, estas amizades ... de despedidas ...ou bem que o são, ou não passam de outras e fingidas mentiras. Para ambos.

Wednesday, August 08, 2007

É verão, é verão ...

... e palpitam os corações.
Olhar posto no vazio, enquanto a fila na caixa se movia lentamente.
Quando chegou a tua vez, lá arranjaste um problema com o cartão de crédito. Não sabias o código.
Olhei-te, pela primeira vez, para quem estava na fila á minha frente. Para os pés, e a correiazinha de prata (ou prateada?) pendurada no tornozelo. Julgava que isso já tinha passado de moda.
Sorri.
Depois, olhaste-me, senti-me observado, olhei-te e ... desfiz-me. Será que respirei?
Ficámos nesse pasmo durante uns segundos. Nenhum de nós teve a coragem de convidar o outro para uma água, café ou o que fosse. Apenas sorrimos.
O rapaz da caixa, com um ar reprovador, quebrou o silêncio, esboçou-me um sorriso ciumento e estendeu-te o talão.
Puseste às costas a tenda de campismo, com a forma de uma mochila redonda, agarraste no saco com o resto das compras, e seguiste em frente.
Sim, reparei que paraste mais á frente, olhaste para trás, esperaste um pouco, viste-me a sair da caixa e a afastar-me de ti.
Desististe, saiste.
Desculpa, da última vez em que me senti assim, em que até as pernas me tremiam, apaixonei-me perdidamente.
E ... nem percebi bem quão nova serias, apesar do teu lindo corpo de mulher.
Para além disso, eras linda demais. Demais.

Tuesday, August 07, 2007

Em resumo, por 20 dias, um sorriso ...

Noc! Noc!

“Quem é?”

“Sou eu. Preciso de ajuda. Deixas-me entrar?”

“Sim, entra”.

“Dá-me o teu mimo, dá-me a tua sala, o único sinto em que, ainda, consigo dormir. Dá-me a tua companhia. É a única que não me deixa só”.

Deste-me a tua companhia, o brilho dos teus olhos, achei-os lindos, familiarmente felinos, quando brilharam no escuro. Tão felinos. Deste-me um sorriso, este o que tenho, quando penso neles. Deste-me a tua preocupação, o teu lindo sorriso, agora o teu, e o teu mimo. Perturbou-me a familiaridade de tudo o resto, em ti.

Sem dar por isso, porque já não o acreditava, senti-te na minha ternura. Que se tornou um pouco incontrolada. Desta vez, nem tive medo de a sentir, tanto e assim, por o ser por ti.

Vi-te, na mulher linda, a que és. Amei-te, sem preocupações de compatibilidades ou de sonhos de vida. Apenas e tão só por estar contigo, na tua companhia. Com ela, nunca me senti só e sei que, contigo, nunca me sentirei só.

Senti-te a falta, quando foste de férias. Já antes te sentia o desconforto, de estares e não estares. Preparei-me. Preparaste-me.

Depois, “... não dá” ... . Nem houve problema. Não deu, pronto. Mas ... nem doeu. Soube-me bem, o nem ter doído. Outra novidade, a juntar às surpresas mais agradáveis da vida.

Ficou-me a saudade do teu sorriso, do teu mimo, daquele brilho, e da tua companhia. Ficou-me este sorriso agradecido, talvez maroto, quando me lembro de ti. A gostar de ti. Um beijo. E um, sempre agradecido, “obrigado!”. Sim, por ter reaprendido a gostar de alguém. Simplesmente, já nem acreditava que isso voltasse a acontecer. Ainda bem que foi contigo, com a minha Amiga. Vá, outro beijo, como o quiseres, onde o quiseres. Ou sem beijo nenhum, se também não o quiseres. Não, não me dês abraços chegados e longos. Senão, sinto o teu peito, o teu cheiro, e a coisa entorna-se. Pois, é verdade, eu também tenho uma porta. E olha, não consigo deixar de sorrir, quando penso em ti.

Tuesday, June 05, 2007

... ou será ...? E .. se não?

Rio-me. Cá dentro. Às vezes, o riso escapa-se. Malandro. Fugiu-me um sorriso. De Gosto. Não fui o único. Deliciei-me nas contas desse rosário, nos astros procurado. Será que sim? Será que não? Ali diz que sim mas, a seguir, diz que não. Pois, que dúvida, será que sim? Ou será que não?
Acordei á hora esperada, preparei-me. Não, até lhes senti o frio, mas não tive visitas. As outras. Na tua casa, são coisa rara, estas visitas. Espreitei-te e sorrias ... sabias? Não quis fazer barulho, até o sol nascer. Tentei não acordar-te enquanto me despedia. Até nem queria ir lado nenhum. É que, ainda, muito sorrias. Sabias? .... Sorriso, de menina. Sorrio, pela forma como vives o drama, como mo explicas. É perturbante vê-lo, no teu brilho excitado de menina, algo em ti que não me é nada estranho. De o ver, também, no teu cabelo. Não o cortes. De que côr era o teu cabelo? Sorrio, por aquele brilho nos olhos, pela procura nos astros para uma razão, será que sim, será que não? Sorrio, pela tua dúvida intrigante, pela procura, pelo nadinha de perturbação. Ah, e se os astros não tivessem posto aquela dúvida ou aquela condição? E se, em vez desse e duvidante Se, ou daquele danado Mas ... só tivesse havido um Sim? Hummmm ... Acreditavas? Ou davas-nos o benefício da dúvida? Sorrio. Pelo estranho brilho, pela menina. Sorrio. Por ver o Tu, o lá de dentro, o da esfusiante e, às vezes, amedrontada Menina. Ontem, estavas com uma paz especial. Hoje, não sei que beijos te dar. Construí um rosário de beijos. Vêm directamente do produtor, não sei o que valem, há muito que não os faço, há muito que não os submeto à apreciação de alguém, dá-lhes tu um preço. Desde que te fiquem em conta ... faz-lhes tu o preço. Ah, e para os "arrepios" ... os do calafrio, há quem use mais calor. O do Sol, o da Vida. Sorrio.

Sunday, June 03, 2007

... mais cuidado, Pá!

Um gajo é criança. Deve ter 7 ou 8. Pelas minhas contas, mais para os 8. Apanha uma hepatite que só é diagnosticada 3 meses depois, porque apenas em Lourenço Marques o podem analisar e determinar. Um gajo está desidratado e desnutrido, já não se segura nas pernas e tem de ir apanhar sôro todos os dias ao hospital, porque até a água que engole vomita. Um gajo é miúdo, mas percebe e sabe. Sabe das minas que elevam o camião Berliet a não sei quantos metros no ar, com tudo o que vai lá dentro. O mais pequeno Unimog, esse vôa muito mais. Um jeep? Bem ... E a malta sabe que, lá dentro, vai carne e sangue. Sabe que, numa emboscada, ficam, ou fica, para sempre, um número indeterminado de gente. A malta houve a tropa, que desabafa os mêdos de terrores entre si. A malta ouve dissimulada, está calada para não darem por a gente estar a ouvir, ali. A malta precisa. Quer perceber o que está a acontecer. Não quer saber porquê. Porque eles são os maus e a nossa tropa os bons. A mãe suplica, para que venham eles a casa. Eles, recusam. Ela, recusa, aterrorizada, como se tivesse sido insultada: Jamais! Ele, Aqui Não Fica Internado. Trago-o Todos Os Dias e Volta Para Casa. A malta é criança, vai diariamente ao hospital durante um mês, para levar sôro. Ouve os helicópteros Alouete a aterrar a cada 5 minutos e vê o material descarregado a passar-lhe à frente. Gajos de verde a gritarem e a gemêrem, sempre sem braços e pernas, ou já calados. Um gajo aterroriza-se com o constante espectáculo de sangue. No hospital há sempre sangue, é sangue por todo o lado. Um gajo tenta distrair-se, conta-lhes os membros que faltam, ou os que restaram. Um gajo tem, sempre, que manter a cabeça ocupada. Com o que à frente tem. O sôro é lento. Dura, sempre, uma eternidade. Mas um gajo nunca percebeu porque passou aquele que estava cortado ao meio, separado abaixo do peito, até as tripas estavam separadas, penduradas e a balançar. A malta julgava que ali só entravam os que, ainda, podiam ter algum conserto, que os outros entravam pelo outro lado. Afinal, não, entravam todos pelo mesmo lado. Com franqueza, a malta é criança, vive no meio duma, tem de saber e já sabe o que é a guerra. Mas podiam ter tido mais cuidado. Depois de saber a lógica da entrada, a malta conta os calados e faz mais contas. Ao número de caixões enflorados no enterro diário, o que atravessa a cidade às 5 da tarde. Não o do mesmo dia, mas dois depois. A malta já aprendeu. Nunca são menos do que 10. Às vezes, são muitos mais, porque a "coisa" aqueceu. Um gajo julgava que esta malta "morrida" voltava à terra natal, à chamada "metrópole". Estes gajos não nasceram aqui e um gajo não percebe, se é mentira ou se não percebe nada do que é um enterro, se são enterrados ou desviados para outro transporte que vai dar ao avião. A malta não consegue comer um bife. Lembra-lhe carne e sangue. Prefere omeletes e ovos mexidos. Mas não pode, tem ou teve hepatite. A malta já não consegue ir aos pássaros. Já não há prazer em caçar. A malta é miúda, mas não dorme. À noite, fica alerta, à escuta, de ouvir os Alouete's, os que vão naquela direcção, tenta imaginar o que vai lá dentro. Faz contas, aos que vivem e aos que já não terão concerto. Quantos serão, depois, os do combóio florido, o das 5 da tarde. Dessas tardes em que não há brincadeiras de índios e "cowboys", nem de polícias e ladrões. A malta brinca aos comandos e "turras", finge que dispara, ou uma G3, ou uma bazooca. Brinca às armadilhas e emboscadas. Aos 11, a malta já acorda à noite, com falta de ar e o coração aos saltos. Só percebem aos 12. Durmam bem. Há malta que acha que sim, que não precisa, que nunca mais é dia, que a escola nunca mais vem. A malta lê. Dos 7 aos 11, lê tudo o que há para lêr. Já não gosta de palermices, já não gosta nem dos Cinco nem dos Sete. Atira-se a Hemingway, a Stefan Zweig, à Pearl Buck em histórias da China. A dezenas de outros, de que já não se lembra. A livros proibidos. O "4 ismos" não é proibido, mas o Pai foi chamado à Pide, porque não devia ser lido. O livro passou para a frente da estante, em lugar mais visível, para quem o quisesse lêr e vêr. A malta sonha o mundo, às vezes até às 4 da manhã. A malta desculpa-se, tem que acabar o livro. A malta já não toca piano. O piano já não toca com alegria. A malta já não toca no piano. Não lhe gosta a côr. É igual à dos caixões. A malta não suporta a côr castanho escura dos móveis. É igual à dos caixões. Não suporta as decorações com o vermelho na parêde. Vê sangue. Cheira a sangue. A malta tem terror de ir ao hospital. Tem mêdo de estar doente. Oculta a febre, a dôr de garganta. Os Pais reparam, olham-se em silêncio. Exigem que o médico muito ocupado com a tropa passe à visita em casa. Ele prefere o consultório, sem hora marcada. Os Pais não vergam. É em casa. 12 anos. Comunicam. Vamos embora para Portugal, voltamos daqui a um ano, para Lourenço Marques. A vida acabou-se, no fim da infância em Tete. A malta recusa. Não gosta da metrópole, só há frio, as pessoas são diferentes, são frias, nunca se pode sair de casa. A guerra tornou-se o nosso modo de vida, de loucura, tudo gira à volta dela. Aqui, somos livres, temos cão, esse leão da rodésia que dava pelo estranho nome de Japão, a gata Tomazina e a sua recente ninhada, os caminhos infindáveis a descobrir de bicleta, o sempre misterioso rio Zambeze, para onde a malta se retirava depois dos sábados da mocidade portuguesa. Aqui, apesar do ambimente de morte, havia, também, muita e muito mais vida. E mais chegava, no rebuliço de gentes diferentes, pela barragem de Cabora Bassa. Por causa de tudo. Por ser, afinal, a nossa cidade natal por adopção, com ou sem guerra. Por, apesar da guerra, ser ainda esta a nossa única memória da felicidade. Ficámos a saber que a Mãe estava muito doente, já não podia ser adiado. Anuímos e murmurámos um apressado Adeus. Sem lágrimas. Apenas coragem. Na minha alma, nunca mais consegui acolher outro enraízamento. Perdi-o para sempre.

... era escusado, Pá!

A malta até gosta de ser visitada, mas o que é demais chateia, pá. Aquela de dizeres Olha Só Pra Mim enquanto os gajos decidiam não percebia. Nunca ouvi um gajo a gritar assim, pá. Um gajo não quer ouvir, um gajo não quer ver, mas tu gritavas e gritavas Olha Práqui Olha Práqui até que percebi que era só para olhar nos olhos e não ver mais nada, pá. Mas um gajo não consegue, um gajo também grita, um gajo já tá todo mijado e borrado como tu. Um gajo grita um gajo grita para te segurar um gajo grita para agarrar o gajo que te vai dar mais uma antes de tu o saberes se é que ainda sentias alguma coisa um gajo grita para que não te tirarem mais nada mas os gajos não ouvem, pá, os gajos não querem ouvir e tu gritas Olha Práqui e um gajo olha-te nos olhos e grita mais ainda um gajo não aguenta um gajo grita para não ouvir um gajo já grita antes de ti um gajo quer apagar a luz e ir embora mas a luz não se apaga um gajo grita e os gajos não param pá! Um gajo grita e já não sai mais nada um gajo só tem ar pra gritar e não pára de gritar ar, pá! Um gajo já percebe que não querias que um gajo sentisse o que vai acontecer a seguir. Mas as coisas não são assim e um gajo grita para te segurar a ti e não sabe se ainda estás mas como ainda gritas mesmo com o sangue a sair-te da boca um gajo grita mais ainda porque vê que os gajos não param pá. Um gajo julgava que só iam dar umas chicotadas até ver os gajos a afiarem o material com material e a rirem-se pá. Um gajo vê, pá, um gajo tem perspectiva e tu já não consegues só olhar pra mim, pá. É lixado. Tás todo separado, pá. Os gajos estão lixados, atiram um pé pró pé mim. Os gajos brincam, andam à porrada com umas coisas que até parecem braços. Não dá pra perceber porque aquilo não tem mãos. E tu já pouco gritas. Só eu é que grito ar e dão-me com uma daquelas coisas na cara, pá, não se faz. Um gajo até percebe que nem tenham material de jeito práviar mas assim custa mais porque precisam de malhar mais para desfazer e separar. Já não vejo nada nos teus olhos, pá, e os gajos jogam à bola com a tua cabeça. É um desporto do caraças. E eu não quero acreditar, pá, não quero. Depois param e pôem-se no bula bula com as catanitas a apontar pra mim, mufana práqui, mufana práli, pá. Um gajo quer ir embora e apaga a luz. Já não precisa de estar neste filme, pá. Depois um gajo arde em febre de paludismo porque outro não soube fazer o trabalho bem feito, pá, ficou tudo por acabar, pá, esta malta é preguiçosa, pá. Não sabe trabalhar, não sabe acabar o trabalho que começa, pá. Agora, não tens que andar sempre a olhar e a gritar-me Olha Práqui. Pôrra, pá, passas a vida a olhar-me, pá. Não tens respeito, pá! Até me olhaste com o meu Pai um dia antes de ele morrer, pá! É que não tens respeito. És tu e o gajo do trabalho mal feito que se riu no fim, pá. É que não foi fim, pá. Esta malta não sabe trabalhar. E um gajo não quer tanta visita, pá. Não há respeito. Um gajo não precisa de andar com as mãos molhadas, pá, um gajo também sabe lavar as manatas, pá. Um gajo farta-se, com tanta visita, pá! Um gajo precisa de privacidade, pá! Isto é só um filme, pá, não pode ser mais nada,pá, não pode ser mais nada. Vai dormir, pá! A malta já percebeu que tem de fazer a vida a correr. A malta já percebeu que, agora, nunca mais o terá, muito mais tempo de vida! A malta sabe que vai ser amanhã ou depois. A malta sabe que vai ter uma vida muito mais curta, muito mais curta que a do dos outros. A malta tem de correr. Já não tem muito tempo. Nunca mais o terá. Mas a malta não tem que estar, sempre, a ser lembrada. Deixa-me em paz, pá! A malta, às vezes, também precisa de acordar, pá! Pôrra pra Ti!

Thursday, May 31, 2007

A Malta não brinca com a Vida, Pá!

Nunca me reconciliei com Ela. Acho, eu acho, que nunca o farei. Para mim, como a aprendi, nunca será uma partida, apenas a última forma do horror, do maior, entre os mais impensáeis horrores, perpretado pelo sadismo, crueldade, indiferença, e o ódio, acumulado, em gerações, todo concentrado, dessa raça, que se convencionou designar por humana. Vi-o, senti-o, aos 7, aos 8, aos 11, aos 14. E, aos 15, Ela agarrou-me, quis dar uns passos. Com a barbárie, com a frieza macabra, com aquele momento, que sabemos, depois não sabermos, do horror suplicante nos olhos e dos gritos de indescritível desespero e dôr, de mais horror, sempre o horror. De como o cheiro das fezes, da urina, e o adocicado do sangue se misturam, de comos trememos por termos os músculos todos retesados, para não sentirmos nada, para não sentirmos o impacto, de como cada milésimo de segundo já custa e queremos que tudo acabe já, e ali, de como nem já suportamos a espera e somos nós a querer tanto e com raiva encostamos a testa ao cano para lhe cheirar melhor o sangue e exigimos, suplicamos, ordenamos ainda com mais raiva Pôrra Acaba Essa Merda Filho Da Puta! Esta m custa! A malta julga que apaga as coisas, porque éramos miúdos, mas elas é que não se apagam. E, depois, nada. Duas semanas de cama, a arder, a arder. No hospital receitam quinino para o paludismo. Quando somos visitados, a malta percebe que não nos deixaram a vida, a malta foi deixada, a malta foi ficada, vazia de nada e de sentido, a malta não sabe onde fica, nem aqui, nem lá, em lado nenhum, nem aonde nem porquê, a malta tá aonde? A malta tá aqui, pá? Aqui o quê? E a malta precisa de vento nas fuças, para respirar, para tirar o sufoco, a malta precisa de correr, fora e dentro, a malta precisa de andar sempre a chamar o gajo e desafiar o mêdo, e, depois, anda sempre a encolher os ombros, até conseguir querer acreditar que está preparado para a próxima. Às vezes, não está. A malta precisa de vêr coisas bonitas, a malta precisa, sempre, de raiva, e tem raiva em tudo, a malta ama com raiva, a malta defende a vida com raiva. A malta, às vezes, tem Paz. A malta precisa de ter um sentido, ou nada fará, jamais, algum sentido. Não há outra forma de estar na vida, para se ter vida, pá. Os que amamos estão acima de tudo. Nunca perceberam? A malta já morreu e só queremos ver e dar vida, para sentir que está viva, pá! Olhá merda, pá! A malta não deve mexer nestas coisas. Já chega quando elas mexem em nós, pá. Pôrra pra Ela, pá. Esta merda é dura. A malta não dorme! A malta, um dia, deixou de dormir. Vou ali e venho já, Pá! Tá explicado, Pá? Deixem-me em Paz, Pá! A malta tem é que viver, Pá!

Wednesday, May 30, 2007

Recorrente

Preciso de vento. Não me interessam coordenadas, nem o que houver, ou haverá, para além de tão imenso e, sempre, o insondável, do horizonte. De manhã, aponta para a aurora, à tarde, para o poente e, à noite, apaixona-te, escolhe, das que vês, uma estrêla, só uma, mas uma que não seja cadente. O mar, há muito que não me assusta. É pena, devia merecer-me o mêdo. Só não percebo porque preciso, assim, tanto e de tanto vento. O leme? Leva-lo tu, eu quero a prôa, com ela afundar-me numa onda, a mais destruidora, a mais aterradora, quero ser arrastado, vês? nem me agarro ao casco, não tenho mêdo, mas eu queria, mesmo, sentir muito, mas muito mais mêdo. Que tormento. Porquê Eu? Não entendo, porque os levou a corrente e, a mim, soprou, assim, o vento. Já nem é um pesadêlo, tão só uma pergunta, Porquê Eu, Agora, ou Ainda, e só Eu, Aqui? Sinto-me febril, sinto-me demente, neste momento, sinto-me doente. Preciso de vêr, preciso de ser, preciso de muito, mas muito e mais vento.


Ermida, Peninha, Domingo, Meio-Dia.

Tuesday, May 29, 2007

Duetos

É preciso coragem para se tocar em dueto. Violino, acompanhado ao piano. Se a entrega, a sensibilidade ou a virtuosidade forem menores, o resultado é balofo, medonho e, até, desastroso, É preciso coragem. Não há nem a o cabo nem a rede de segurança proporcionado pela grande orquestra. Ali, dois músicos ou dão tudo o que têm de si, e excedem-se, ou o resultado é confrangedor. Quando assim acontecia, costumava-se, em tempos não muito idos, agradecer-lhes o insulto com ovos podres e tomates de validade há muito expirada. Hoje, educadamente aplaude-se, friamente, por mera cortesia. Neste último sábado, tive o prazer de assistir a momentos de excepção. Os de um dueto, de duendes em que a sensibilidade, o virtuosismo e a entrega se combinaram em momentos de verdadeiro êxtase e espanto. De suspender a respiração, agudos de brisas enebriadas que, num momento, se transformam em ventanias de tormentas, logo tudo se enfurecendo, rugindo e gritando sons que só os homens conhecem, crueldades e horrores perpetuados, a dôr e o sofrimento. Mozart, Brahms e Prokofiev. Para não mencionar os “encore”. Esses, ainda mal identificados.

Não sou, nem de perto, um musicólogo fervoroso. Não sou, sequer, ou de todo, um musicólogo. Aliás, nem faço ideia do que isso seja. Fiz um pouco de catequese, quero dizer, tive umas aulitas de piano quando era miúdo. Fui curioso, mais tarde estudei umas coisitas da teoria musical, para perceber porque alguns soam sempre ao mesmo e outros parecem uma estrada aberta, de infindáveis diálogos, estranhas dissonâncias de portas escancaradas, desafiando-nos à descoberta e à troca de interioridades, as nossas, as dos outros, com linguagens desconhecidas e viagens inesperadas. Nunca fui virtuoso ou erudito de coisa nenhuma, não o sou na escrita, no desporto, na pesca, na vela, no piano ou na raiva com que esgrimi o som mais distorcido da minha eléctrica guitarra. Uma barata Ibanez, comprada na Custódio Cardoso, castanha, com a forma duma Gibson SG. Como a desse louco, que deu pelo nome de Frank Zapa. Na música, sempre procurei muitas coisas. O divertimento, não o foi. Mas muito me diverti. Catarse? Talvez. E daí, não sei, a catarse é algo que se esgota muito rapidamente, e a música não pára de me compreender. Em ambientes, sons, ritmos, virtuosidades e, acima de tudo, a entrega da vida, sensibilidades. Não procuro a arte. Quando ela me encontra, por vezes, surpreendo-me. Outras vezes, não. Na “minha” música, não há muito disso, a arte da música. É mais algo, o caminhar na vida. Porque, na música, nunca me perdi. Sempre me reencontrei. Comigo e com os outros, a falar por mim, de mim, descobrindo-me onde eu não sabia que estava. Umas vezes perdido, outras escondido. De procuras inconstantes, num percurso amalgamado de labirintos e saídas. E sempre descobrindo os outros. Assustei-me? Sim, muitas vezes, e sempre sorrindo, agradecido. E quanta, a raiva. Mais esse, demasiado eterno. O tormento, constante, com que se carrega e amargura, a vida. Sorrio. “Não sou o único, A olhar o céu”. Nunca tive paz, nunca me senti em paz, a não ser por alguns e, sempre breves, instantes. Quando me revelo, em tormento. À música, à escrita, ou, simplesmente e, quantas as vezes, em silêncio. Mas, esta, a que tanto procuro, a Paz, só a doçura, só amando, só a terna entrega, num beijo, só ela me alivia, desse tormento. O que ouvi de Brahms e Prokofiev sempre estiveram cá dentro. A gritarem-me, também em tormento, do tormento. Gostosamente sofridas, as doçuras de Mozart. Sorrindo, pela angustiada ânsia de olhares, terna entrega de almas, naquele beijo, sem momento, sem tempo. DeVidas. DeMúsicas. DeDuetos. DeDuendes.

Sunday, May 27, 2007

Ontem

Ontem, tive um dia especial. Acompanhei o meu afilhado à primeira comunhão. Fui cumprimentado pelos meus filhos, que me olharam com aprovação. Cumprimentámo-nos, eu e a sua mãe, com o devido respeito e, também, alguma emoção. Os meus compadres e amigos cumprimentaram-me efusivamente, deixando tranparecer a comoção causada pela celebração. Assisti a um concerto de duetos que me surpreendeu e, por muitas vezes, até me tirou a respiração. Com a benção do brilho no olhar da minha filha, acompanhei e tive ao meu lado uma mulher, serena, adulta, sorridente e linda que, pura e simplesmente, o é, e estava um Espanto! É por tudo isto que me tenho na conta de pessoa e homem importante. É por tudo isto que as decisões e opções que tomei, tomo e tomarei na vida, mesmo aquelas que me vieram a causar dôr e sofrimento, foram e serão as que sempre considerei como importantes. Nisto, não me arrependo de nada e, nas mesmas circunstâncias, voltaria a fazer o mesmo mas, se pudesse, melhorando tudo com o que agora sei, nuns casos com as mesmas pessoas mas, noutros, talvez, com, e por outras mais importantes. Ou talvez não, talvez preferisse tê-as conhecido um nadinha mais tarde, se a vida mo deixasse. Só que, por muitas opções que tomemos, há coisas em que a vida nunca deixará que sejamos nós a escolher.

Friday, May 25, 2007

Gostava

... que acordassem com este meu sorriso, embevecido, feliz, por gostar de quem gosto, de ser quem sou, ter o que tenho, sonhar com o que amo, amar, e nada mais esperar da vida, do que a vida, vivida, com paixão, desgôsto, alegria ou solidão, mas vivida, com sofreguidão. Gostava, que acordassem, vivendo, desejando, não mais um dia, mas toda, longa ou curta, às vezes adorada, outra vezes temida, mas sempre, a vida.
Um beijo, um abraço, no que o aceitem e não o receiem, conforme o queiram, ou não.

Tuesday, May 22, 2007

Importante

Ou já o perceberam, ou um dia o perceberão.
No Amôr, o importante não é sermos amados, por quem e a quem muito o queremos, mas, tão só, amarmos muito, quem muito amamos, e sem esperamos, por eles, algum dia, sermos amados.

Monday, May 21, 2007

Himalaia

Quando subimos, à mais alta montanha, ao pico, ao Evereste do coração, quando estamos quase lá a chegar e, de repente nos largam a mão, tudo o resto se torna pequeno, mundano, ridículo, leviano, desprezivel, mesquinho, sujo de podridão. Olhamos, então, para o que, ainda e mais alto nos resta, o espaço, vazio, inalcançável, escuro, intrasponível, frio, um deserto de luzes no meio da vastidão, onde só encontramos, perdidos, a morte e a solidão. Mas, quando subimos à mais alta montanha e damos as mãos, sorrimos, olhamos, o êxtase, a beleza, o gosto, o sorriso, o rosto, o segrêdo, o amõr, o sabôr, a vida, o coração.

Sunday, May 20, 2007

Amôr sobre um B.I.

Nunca me senti, o quis sentir, nem ser "Paidrasto" de coisa alguma. Estes filhinhos a chamarem-me de "tio", era e ainda hoje o é, como ser socado no estômago, é um punhal que se crava, à frente e atrás, dum lado e do outro, onde nos fica a alma, ou se sente, às vezes, o pulsar dum punho cerrado onde temos o coração. Ouvi-la, a Eles, essa palavra era, pela lógica possível e associativa, irmanar-me ao verme mais asqueroso que se esconde no esgoto do que mais nojento o pior inferno tem. Mais grave, ainda, era a partilha, com esses verme, do meu primeiro nome. Porque mais não se pode amar, neste mais do que amor, de Pai, este sorriso, eterno, de eternamente embevecido, abracinhos e abracinhos, aconchegadados, aconchegadinhos, tão suavemente apertadinhos, de coração e coraçõeszinhos, festinhas, mais festinhas, tudo cheio de muitos, e tantos, mas tantos carinhos. E, no fim, de cada abracinho, esta angústia aflita até ao próximo olhar, até ao próximo abraçar de carinho. Como é doce a vida, quando estes queridinhos se lançam loucos, abrindo os abraçinhos, rasgando os olhos num sorriso, nos saltam gritando, loucos e entoando esse hino de alegria, essa palavra que nos derruba, por ser tão linda e, tão só, se resuminso às letrinhas "Pai!". Como queria que me chamassem "Pai!", sem recearem o roubo ou afastamento, nem as represálias e repreensões, os ciúmes ou mesquinhas invejas, sem os verbais maus-tratos de que seria alvo a Mãe, e sentissem, nestes afectos, o afecto de, apenas terem mais outro, por ser outro, que muito os ama, ardoroso Pai.

Naquele dia, sorri. queimei o BI no cinzeiro da minha repulsa, multou-me a polícia por morada incorrecta, mais essa grande falta, a de identidade incerta. Ainda e nessa tarde, deram-me mais um mês de vida, desejaram-me felicidades e disseram-me como se fazia, para trocar anos de vida por uma indemnização, por Judas recomendada. Sorri, ao ver a vida envolta num furacão. Depois, disse à Mãe, que chatice, vê lá que perdi o BI. Mais tardem fui ao registo, informei, roguei, extraviaram-me o BI e, porque me perdi, já agora, como posso mudar o nome deste vosso cidadão? Tudo escrevi no que me apontaram, de dificuldades, burocracias malditas, requerimentos repletos de palavras intransponíveis. Retorqui, expliquei tudo, de como me doía o "ti-ti", que me queria casar, casar todos os dias e se, em casando, o apelido se pode alterar, porque não, agora, também mudar o resto do meu nome, à medida da minha vida? Indagou-me, trocista. "Se vai mudar de nome, por curiosidade, como o queria?". Expliquei-lhe que, primeiro, acrescentaria o que sou e, se possível, conforme o requeria, retirar do topo o mais antigo para, agora, o reduzir ao que como o gostaria, que os mais novinhos, com toda a convicção e sem qualquer restrição, o chamassem em gritaria. "Como?", um pouco confusa, a senhora tentou entender-me no que lhe dizia, "Deixe-me ver se o percebo. Então, você, quer mudar o nome para Pai M(...)l ". Anuí com a cabeça e encolhi os ombros. Vi-lhe um sorriso lindo, tão bondoso, naquele rosto, outrora, tão fechado. "Fazemos assim. Para já, por causa da apreensão e pelo divórcio, renova o seu BI, ficando como está. Quando reunir a família, venha falar comigo, para vermos o que se pode fazer e como ficará". Agradeci, com um sorriso e um, muito esperançoso, obrigado. Há dias na vida em que tudo se Dá, tudo se derruba porque quem ama, se Dá, se Dá sempre, sem outro fim ou retribuição.

Hoje, na pedra do meu Pai, chorei pela minha perda, pedindo perdão por ter sucumbido ao desespero da vida e não ter cuidado de quem tanto amo, a quem confiei a minha vida, a essa luz e dádiva divina que me prometeu amôr, protecção para avida, disposta a esperar o tempo necessário para sermos uma família e a estar, sempre, ao meu lado, nos momentos mais difíceis. Perdoa-me por ter esquecido a tua sabedoria, corrido atrás dum vazio de medos e expectativas. Hoje, abracei o meu Pai, agradecendo por, na vida, me terem ficado e eu as amar, outras duas e maravilhosas criancinhas. E continuar a amar a Mãe, mesmo que me magoe e me diga Não. Obrigado, meu Pai, pelo teu perdão e o teu abraço, a este teu filho, tão precisado.

Friday, May 18, 2007

Náufrago

Maninha, estou aqui, como to prometi, faz algum tempo, aí. Quando não aguentar, vou chamar, vou gritar por ti. Contigo, meu amôr, a promessa não será quebrada. Diz-me, por favor, que não sofres com a minha mágoa. Não te encontro em lado nenhum e, agora, sofro eu, porque me preocupas tu. Diz-me que existes, logo te conto a minha viagem, de como a noite estava escura, a vaga me levou e nadei até á praia. O furacão, esse, ainda não acabou, mas outro dia passou. Amanhã, talvez encontre água. Tenho saudades duma lasanha, de contigo ir à praia, de dois dedos de conversa sobre tudo e sobre nada.

Procuro-te

Conheço-te e temo. Respeito-te. Conforto-me no teu olhar, onde só vejo o carinho e a côr do mar. Na tua companhia caridosa, consigo o milagre, o de escondêr a minha dôr. Não to disse, mas queria tanto o teu colo, o teu afago no meu cabelo, ouvindo o som dum longínquo encantamento. "When I need you". Dói-me, tanto, que tenha ficado por dançar. No Dia da Aparição, foi-me a dança prometida, mas logo esquecida. E Preciso, muito, do teu cuidado. Sabes? Sinto-me tão pobre, de tudo. Por troca, só tenho o ar que expiro, neste pedido desesperado. Leva-me, toma-me no teu colo, embala-me no teu carinho, sussura-me coisas lindas, das que fazem acreditar. Adormece-me e protege-me, enquanto estiver adormecido. Acalma-me nos pesadêlos mas, por favôr, não deixes de me afagar. E olha-me, sempre e assim, como se fosse mais um menino, daqueles de embalar.

Queda da Luz

Percebo, o teu refúgio nos óculos de sol. Mas, sabes, mesmo ao luar, estava lá o teu o olhar. Com tudo. Pois, os teus olhos, transparentes, também o são atrás dessas lentes. Queres e encenas uma frieza premeditada, para dar razão ao que não tem razão, e persegues ferozmente um caminho traçado para te calares no coração. Óculos de Sol. Sorrio, com pena. Sempre que nos abraçamos, vemos e tocamos, algo mais forte, do que eu e tu, ferozmente nos abana, nos arde e reclama. Não tem explicação. Não te preciso de dizer como isto se chama. Pois, essa coisa que arde mais do que uma chama. Foi assim, no sítio Queda da Luz, no Dia da Aparição ... e quando deixámos um Legado de ressureição .... Percebo, só te escondendo e longe de mim, consegues ser dona de ti. Percebo. É algo que muito queres até à exaustão, porque foi no desespero que procuraste a tua solução. É pena, essa frieza encenada e chamares-me de maldição. Mas, não percebo, se o querias, se o queres e me queres tão morto e enterrado, não deverias à parede ter-me encostado, no sítio da Queda da Luz. Podes soterrá-lo com betão ou alcatrão, podes correr e fugir, lançar-te nos braços e tapar-te desesperadametne com todos corpos deste mundo mas, acredita, já o fiz e desisti. Podias têr-mo pedido. Não interessa, eu faço-o, por ti. Sacrifício? Sim, ofereço-me, Dou-me. É mais um. Talvez seja o último, ou talvez não, por Eles, pequenos, também tão meus, sabes quem são. Pelo que lhes amo, por eles Dou-me, na promessa que te fiz, de aqui estar até ao fim. Caso te sobre uma réstea de coração, por favor, poupa, da tua ânsia, disso a que, friamente, até chamaste de decisão, aqueles, estes que me ficaram, aqui, no peito, tão dentro do coração. Agora, liberta-me do teu pesadêlo. Por paradoxo, mesmo sofrendo, sou menos infeliz. Gostava, ainda, de te esclarecer que, quando te pedi perdão, fi-lo por me deixar morrer e me faltarem as forças para te pedir a mão. Não pelo que choraste olhando, apenas, para o teu umbigo das mal-querenças, incertezas, dúvidas ou faltas de dedicação. Vá, não temas. Mata-me, de vez, e perder-me-às de ti, como to pedi. Mostra-me o pior do teu ódio, deixa-te de comiserações, vá, roga-me pragas de morte, fazendo de mim, no mínimo, um indiferente feliz. Quanto ao resto, sempre soube o que lá havia, quando discutimos condomínios e me barraste o caminho do acesso à tua morada. Curioso, na altura falaste de desarrumação. Depois, veio a confirmação. Hoje, chamas-lhe complicação. Que pena. Agora, nem isso interessa, porque sei que trabalhaste, desenhaste um sofrido e elaborado argumento, de provas, datas, factos e, como convém, sempre com a relevante omissão. Esforço louvável, sossegando a inconsciência da tua razão. Até quando? Sabes, eu não te merecia essa preocupação. Agradeço-ta à mesma, não poderia querer melhor prova de como me tens na estima e em elevada consideração. Ainda bem. Obrigado. Não te incomodes, eu respondo, Por Ti: Por Nada. Vês, Amôr? Deixo-te ir, daqui. Deixa-me ir, também, tu, meu Grande Coração.

Wednesday, May 16, 2007

Legado

Olho-te, em ternura, imensa e inexplicável, derrubando tudo, diques e muralhas, arrombando até portas muito antes invioláveis, e jorra, qual enxurrada, desaguando, agarrando, carinhosamente, a minha na tua mão. Sorrio-te. Palavras? Sorrio-te. Silêncio? Nem por isso. Quando o amôr ruge, a boca cala, o olhar grita, ri, asfixia, que sufoco, que aflição. Ah ... Paixão. Os que eram dois, foram. Agora, ficaram num.
Tomo-te, devagarinho, de carinho, nos meus braços. O tempo? Há muito fechei os olhos, sorrindo no teu rosto, no meu peito aninhado, perdido nesse afago, o que te aconchegou, e segurou, neste meu abraço. E beijo-te, o cabelo, um a um. Cuidadosamente, descubro nos meus dedos o delicado da tua face. É tão lindo, o teu cabelo, brincando, suavemente, entre os dedos do meu afago. Meu Deus, porque me és tão linda ...? Que injusto ...!

E quando te foge uma lágrima, na felicidade ou pela dôr, maior os cuidados, em que te seguro e consolo, bem ao meu jeito, bem junto do meu peito. Depois, sorvo em mais beijos, em cada uma o seu beijo, as pepitas que me vêm, tão preciosas e dolorosas, do fundo do amôr, que me dá o teu olhar. Ah, mas agora, quando nos virmos ou encontrarmos, o amar é silêncio, por segredo do momento, deste amor sempre terno, e não sei se eterno, mas sempre guardado, aqui e aí, num sôfrego olhar. Olha-me, sorri-me, como eu. Nos teus lábios lerei duas palavras. Duvido que alguém as reconheça. Eu murmuro mais uma, no total lerás três. É este o nosso legado. Nele, eu Amo-te e Adoro-te. Para Sempre.

Monday, May 14, 2007

Dar

Resumo: 13 de Maio de 2007


Primeiro, um grande encontrão. Paraste ali a minha asfixia, puseste-me a respirar. Pegaste no mais ruim daqui, nem percebo o que aproveitaste, engrandeceste-o e deste, deste, deste e mais deste, tanto. Lutaste contra todos os demónios, que não só os teus, sempre a Dar. Ao pé de ti, sou tão pequeno. E tu, és mesmo, mas mesmo muito Grande. Na minha agonia, pegaste na coragem, derrubaste muros, tiraste-me o coração, apertaste-o com força nas tuas mãos, socaste-o, abriste-o e não o largaste até ele jorrar. Nunca antes ele o fizera, assim. És Grande. Sorrio-te, és tão Grande. Como gosto de ti. Este Gostar está muito acima do Amar. De repente, mostraste-mo. É agarrar no que vem e se tem, multiplicá-lo por infinito e Dar, Dar e Dar. No amôr não há receber, só o Agarrar, no que vem. E, depois, Dar. E Dou, e quero Dar. Já nem tenho que Agarrar, de tanto me encheste do teu Dar. Sorrio-te, sorrio-me e, a sorrir, sei pelo que vale a pena lutar: por Dar. Não só o que não se Deu, como o que ficou por Dar. Até já. Ainda há muito por Dar.

Iniciado: Magoito, algures em Maio de 2007. Terminado: Lisboa, 13 de Maio de 2007.

Friday, May 11, 2007

Adôr

Olho-te, ...


... Adoro-te. Já não o consigo, calar-te, com o que te sinto, aqui. Amo-te, Adoro-te. Amar é muito pouco, no que te adoro, a ti. Sofro? Não, Morro, mas Adoro-te. Viver ou morrer é melhor, quando se pode morrer, assim. Abraço-te, Adoro-te. Choro? E depois? Desde que te adore tanto e ainda mais, até chegar ao fim. E Adoro-te, porque já não é Amôr, mas Adôr[o-te], isto, o que te tenho aqui. Adoro-te, assim, tanto, que até podes deitar fora, todo Adôr que esteja, a mais, para ti. Olho-te, Amo-te, Adoro-te. Beijo-te, Abraço-te e Adoro-te, e Beijo-te, mas beijo-te tanto, que a Deus um obrigado, por este Adôr tão forte, porque na dôr ou na morte, quando chegar o fim, vou sorrir, meu Amôr, com este Adôr, por ti. Amo-te e Adoro-te. Obrigado, por te Adorar assim.

Thursday, May 10, 2007

Mereces ...

... muito mais do que estas palavras. Pelo que respresentas e no que te amo, até quando, impensadamente, me magoas. Queria-te igualzinha à tua mãe, loirinha, achinezada, para beijar as duas em cada beijo que te dava. Quando nasceste, percebi que eras a minha menina, a tão desejada, mas não como te sonhara. Da tua mãe, só os olhos havia. Fiquei apaixonadíssimo pelas duas e ri-me pela fome que mostraste com o seio da loirinha. Pois, ela loirinha e tu, moreninha. Eras tão morena e chinezinha, parecias uma bruxinha, não mais te larguei, passaste a ser a minha linda, tão "linda bruxinha". Não tinhas nome, para além de "filhinha", em casa só me houviam "e a menina?". Hoje, até penso, será que é morena porque a mãe a desejou misturadinha? ... batoteira. Foi crescendo, primeiro pareceu-se com a avó materna, que andava toda babada. Depois, foi a cara da mãe mas, hoje, não lhe reconheço parecenças com mais ninguém. Agora, é só ela, a minha linda bruxinha com olho de amêndoa e bochechinha descaída. Nasceste há 13 anos, feitos hoje. Já andas com a mania de que não queres ser gorda. Cá para mim, anda mouro na costa. Se alguém te partir o coração, diz-me quem é que eu lhe parto a cara. O que sofreres, também o sofrerei, mas não te garanto que as tuas alegrias, tão só tuas, também as viverei. Porque algumas, eu já sei que as sofrerei. Um beijo do pai, que te ama tanto. Amo-te, amo-te, amo-te.

Wednesday, May 09, 2007

... Parabéns também para si, tia Carmo ... tia marafada ...

É claro que também tenho o direito a ter tias, ou não sabiam? Pois esta minha tia é terrivelmente impressionadissamente impressionante (conseguiram ler isto duma vez? ... possa ...). Vai nos 91 anos e não tem um único problema de ossos. É seca como uma dessas, já poucas, jovens jeitosas de 20 anos, anda tão direita que até parece ter engolido um cabide. E o andar ... oi, olhem aí, é "andar", mas com as perninhas, não é um apartamento, tá? Já se tavam a fazer ao cravanço ou a um aluguer mais em conta para as férias? Não percebem? Já o irão ... Pois, tem um andar ágil, assustadoramente ágil, até salta por cima das poças e deixa-me sem fôlego para a acompanhar na subida e descida de escadas. Ir às compras (em particular ao mercado) com ela, é um pesadelo estafante. Na praia, põe-nos a apanhar lapas durante horas, para um delicioso arroz à hora do jantar. E eu que julgava gostar muito de andar ...

Esta minha tiazinha é ... ... ... Algarvia, ... sua marafada! ... e quem não apanhou lapas, à hora do jantar tem uma peguntazinha, ali em frente a toda a gente: "Tão boas, não tão (nome do interlocutor/a), gostas? Mas não gostas de apanhá-las, pois não?" ... glup ... engasguei-me e acho que as lapas não me estão a cair bem ... Perdi o fio á meada ... ah, pois, isto a propósito das Mulheres Algarvias ... jeitosas, mas são tão jeitosas, são mesmo jeitosas, pá! ... uups, adiante, adiante, ó marafadas ... deixa-me ver, as de Coimbra também são de palitar os dentes no fim ... para tirar os os coisos pretos ... lá me perdi ... adiante ... as marafadas Mulheres Algarvias é que mandam em casa, e só se condescendem um pouco em ternuras quando o homem se revolta de vez em quando ... (ui, o que eu fui dizer, ui, ui, este ano não posso pôr o pézinho na minha amada Carrapateira, na minha amante Praia dos Mil Homens, nem beijar as pedras da calçada do Rogil ... ai, meu lindo Algarve ... ).

Apesar deste "defeito da mandonice" ... ou "particularidade cultural" (assim fica melhor, não é?), esta minha tia tocou-me fundo, ao explicar-se porque estava sempre hávida de uma pescaria nas mais recônditas falésias ou no meio dum mar sem terra á vista.

Amou e casou com um rapaz da Madeira, que lhe deu a volta ao juízo. Por artes e manhas, dizem que daquelas com bruxas á mistura e tudo, no fim, quem o pôs todo apanhado, foi ela. Também já me disseram que a rapariga era, então, uma febra e pêras ... compreendido. Claro, lá vieram as promessas de amor eterno, total dedicação à esposa amada e esse chorrilho de parvoeiras impensadas da prache com que se convencem as raparigas (hã? ... pá, já escrevi, não posso apagar ... tá bem, tá bem, mais depressa para disfarçar ...) a ficar ao nosso lado. ... a malta também chama, a isto, qualquer coisa do género "a canção do bandido" ... continuemos. No início do casamento, foram geograficamente separados por razões profissionais, mas lá se juntavam naqueles momentos em que, acabando-se os outros afazeres, podiam dedicar-se aos afectivos. Viveram tempos muito difíceis mas, quando um fraquejava, o outro dava-lhe a mão e, juntos, caminhavam. Quando ambos fraquejavam, paravam, abraçavam-se, retomavam o fôlego e, aos poucos, sempre aos poucos, renovavam a vida. Na altura, não haviam auto-estradas, o que permite aferir da afeição entre estes amantes. Ou então ... da mesma maneira que um homem não é de pau, uma mulher, também, não é de ferro ... e por aí adiante. Nunca lhes ouvi queixarem-se da solidão que essa situação lhes causou, ou o menor empenho na união que traçaram. Estiveream assim anos.
Finalmente, a vida permitiu-lhes "ajuntarem-se" em Faro. Mas, como cedo a minha tia descobriu, o malandro do marido tornara-se, entretanto, por aquela vida de quase solteiro, num terrivel viciado da pesca, coisa que não trazia da sua terra natal, antes o ganhara em terras algarvias, para não andar na bebida e acalmar a falta da sua amada. Com o que sempre se desculpava.
Por esta altura, à moça pôs-se o seguinte dilema: ou se divorciava e procurava outro, ou ficava abandonada. Depois de reflecttir seriamente sobre o assunto, optou por uma terceira via: para estar mais tempo com o marido, e se ele tinha aquele gosto tão grande, passaria ela a acompanhá-lo naquilo de que ele tanto gostava, a estarem os dois muito mais tempo juntos. É claro que, coisa rara para aquela altura, se ambos queriam almoçar e ter a casa arranjada, tinham que ambos vir mais cedo das pescarias para tratarem de si e das lides. Mas como vício é vício, coisa que se pega nas calmas e belas paisagens a cheiros do mar, passou o meu tio a ter que dissuadi-la de tanta pescaria, até porque já estava na altura de terem um filho e o raio da mulher não assentava.

Pois e ... conclusões? Que cada um tire a sua. Talvez que o amor para a vida, o genuíno, o que não se apregoa apenas da boca para fora e pelo qual estamos dispostos a ir até ao fim, não se deixa assustar pelas distâncias, pelos afastamanetos, nem impôe prazos. Acompanha-nos, sempre, no coração, porque nos preenche. Que é imune a situações materiais precárias e que, quando se está comprometido com o amor e em se fazer a vida a dois, nem as maiores angústias, dores ou doenças nos afastam. Não que nos torne a vida mais fácil mas, simplesmente, não se deixa assustar por ela.
Tive um amor assim que durou 15 anos. Em relação ao que vejo acontecer hoje, em termos relativos, até acho que durou uma vida. Consigo perceber que eu e a minha ex, mãe dos meus filhos, até conseguimos algo que muito poucos o conseguem com os actuais ritmos da vida. Não obstante as vicissitudes passadas e futuras do nosso relacionamento, depois de outra experiência recente, dou-lhe, agora, mais valor. Agradeço-lhe a coragem e uma capacidade de amar que nunca mais reencontrei. Pelo contrário, há cada vez mais e por aí, muita sordidez, tanta, e muita a desonestidade. Em que o "eu" vem primeiro que o "nós". Em que se ama e desama ao sabor dos objectivos pessoais e do facilitismo da vida, prevalecendo o desejo do gozo, a comodidade dos horários efemeramente compatíveis, a da proximidade dos lugares e a facilidade momentânea dos encontros. Em que se confunde companhia com amor. Em que se abandona o barco quando sobram as dificuldades e o futuro não se apresenta risonho. Em resumo, em que o amor leva o mesmo fim das coisas que, num momento se usam e, a seguir, se deitam fora. Fiquem bem.

Tuesday, May 08, 2007

Parabéns, atrasados ...

..., a uma moça com um temperamento de sargento, pelos seus vetustos "X" anos feitos no dia 25 de Abril. Hum ... pois, se calhar o temperamento não é o dum sargento, mas o dum capitão, dos de Abril. Patentes à parte, vamos ao que interessa. Ah, pois, e os olhos, os olhos desta moça ... há quem diga que os tem azuis mas, cá para mim, são verdes, verdinhos, verdinhos, verdinhos, naquele tom verde das esmeraldas. Fiquemos por aqui quanto a .... "particularidades físicias" e vamos ao que interessa:

Parabéns, olho verdinho ...


O que procuras, sempre o esteve, aí,
por vezes alheada, pela tua vontade,
quando nos olhas, vês-te, vemos-te,
percebemos, quando estás, aqui,
sabes do que falamos, pois
nas coisas da vida, há sempre dois
que se opôem, se juntam e se compôem,
e se é verdade que o há, a tristeza,
queremos-te muito, no que interessa,
esse calor que sempre nos atravessa,
este amor, que não precisa
de conversa, não tem forma, ou norma
perversa, pois
neste dia, para nós, de felicidade,
este amor chama-se, tu sabes,
adivinha, vá, partilha,
sim, a chama, chama-se,
isso, amizade.


Toma lá um bêjo ... nos bêços ... da boca ... daqueles de tirar o fôlego, ó rapariga!

Endereço sem destinatário

Promete

Se puderes, guarda-me no teu coração.
A quem to perguntar, nunca mais me viste, ou ouviste falar de mim.
Aos meus filhos, pede-lhes o seu perdão. Há muito que os perdoei no meu coração.
O Sol está a nascer, para me levar, tenho que me queimar, tenho que apagar tudo o que ficou, aqui. Aos dias que te apontei, põe, no sítio combinado, mais três rosas de côr carmim.
Se não voltar, era só isto o que queria, o que fizesses, por mim.
Guarda-me, enquanto durmo. Guarda-me sempre, para não me perder, também, de ti.
Tenho quer ir.
Promete, que fazes o que te peço, sem lágrimas, nem dôr, por este fim, sem fim. Promete-me, que nunca me abandonas, mesmo quando eu fugir, de mim.
Promete-me, promete-me, promete-me, por favor, que não me abandonas, enquanto morro cá dentro, sofrendo neste inferno, porque o faço, pelo amor, mas muito, que to tenho, a ti. Promete-mo como eu to prometi, e perdoa-me por só o conseguir dizê-lo, assim.

Publicação prevista para o início de Abril 2007. Não foi entregue por se desconhecer a morada do destinatário. Hoje, não existe destinatário. Fica aí.

Tuesday, April 10, 2007

... quem por último chega ...

Último sábado, à noite. "Vou ali. Sou capaz de chegar tarde". "Não há azar. Se eu só chegar depois das 6, mando-te um SMS, não fiques preocupado".

Fonte: conversas de pai e filho. Adivinhem quem é quem.

Sunday, April 01, 2007

Vamos fazer um Muro

Um muro que separa tudo. Escolhemos-lhe a altura, é simples. Você, fica aí, e eu, quedo-me acoli.

Não interessa o material, desde que tape tudo.
Ah, já agora, convém que seja insonorizado, é mais eficaz. Pois ... não sei ... mas está bem. Pode ter alguma transparência. Pelos contornos, sabemos quem somos, como estamos.

O muro, como se pretende, espartilha e esconde. Paciência, pois, se protege ... que fique. Este muro já não cai, daqui já não sai. Também não interessa. Se cair, levanta-se outro . Mas ... não, afinal, acho que é melhor eliminarmos a transparência. Sabe, que diabo, um muro, é um muro. Não sei bem como o quero, mas ... não, não pode ser transparente, deculpe lá, mas não pode. Cada um que fique no seu lado. Pronto, assim é que é. Um muro tem que o ser de distâncias ... se quiser, envie-me um SMS.

Ah, façamos de conta que é um muro muito alto e muito lindo. Afinal, é um muro construído em parceria, em sociedade.
Vamos pintá-lo com as fugas coloridas da eterna felicidade. Claro, que sejam muitas as felicidades. Não só as vicendas, como as vindouras.

Ó que euforia, mas que alegria. Ó que correria. Sejamos felizes, sejamos muito felizes, felicidade para todos, a rodos.

Mas, se calhar, não só é mais rápido, como ainda mais barato, cobrir o muro de cartazes. Vamos pedi-los em qualquer clube de vídeo. Rasgam-se e substituem-se, à cadência dos novos filmes.
Olhem que não existe renovação mais barata para vida.

Agora sim, temos o modelo afinado. Muito alegremente, iremos decorando, com toda a felicidade, os mais belos muros de novas vidas. Mais do que isso, serão o pilar duma nova, longa e terna amizade. Claro, sempre em parceria, sempre em sociedade. Mas só com muros, só com muros ...

Olhe, desculpe lá, mas, para as ilhas Maltesas, também se vai de combóio? Ah ... pois, só a nado ... ah, sim, ou de barco ... pois ... de autocarro, também não dá ... pois ...

As minhas Paredes

As minhas paredes, tão brancas, tão vazias, foram feitas de esperança, e, às vezes, de agonia. Projectam os sorrisos, as lágrimas que teimam em fugir-me, pelas celas do pensamento.
Afagam-me em ternuras, condoem-se com amarguras.

Vejo-te, na infância, tão quente e colorida, tão iluminada pelo Sol.
Tu, és eu.

Estas paredes, tão brancas, são as minhas amigas nos dias de lua. Silenciosamente, nuas. Amargamente e só, tuas.

Vi-te, gelado, abracei-te, beijei-te, chorei-te. Dessa vez, já não me sentiste. Não houve dores. Só a dôr.

Visitas-me, com o choro da lua. O sol, esse, chora como uma núvem.

Balbuciei um sim, que eras tu. Vi-me, no que era eu, um eu de nadas. Acariciei-te. Só eu e tu. Vejo-te, todos os dias, assim, eu e tu.

Então, peço-te, intercede por mim, que não seja anunciada, te traga na serenidade do sonho, e um lindo sorriso, nos meus lábios. Contigo, nas minhas paredes, levo-me. Com tudo, e sem nada.

Friday, March 23, 2007

E nesta data de 23 de Março,

... a História repete-se, implacável. Demasiado. A História, essa, já me cansa. A morte e a vida voltam a assumir o seu destino, sem sonhos, sem as vãs esperanças. Até essas se foram. Ah, esta História, questionando a existência do se ser, até ao limite. O que será bom, foi bom. O que não será, não o é, por ser, depois, demasiado pouco. Fica o Nada, o vazio do agora. Esperemos. Porque o quero. Quero, quero, quero e quero! Quero muito que seja assim. A bem do amor pela vida. Sem dor ou mágoa, mas isso, só existe no Nada. É por isso que quero tanto este querer. Quanto ao ser, só sei do Nada. Vocês sabem. Há quem lhe chame ... a Sra. Dona e Absoluta Solidão. Um beijo a quem me ama. A quem não me ama, ou não me tem na sua ternura, essa forma tão linda, senão a mais linda, do amor, por favor, devolvam-mo. Sabem, é que já tenho tão poucos ...

Monday, August 28, 2006

Interno

Não tenho paciência. Não tenho paciência para pressões, ameaças ou amuos. Para desconfianças, exigêngias de entrega e banalidades. Nem para acusações gratuitas, quanto ao que e quando me apetece. Enfim, para tudo aquilo que me cansa ainda mais. Se é para isso que me querem ver, então, deixem-me em paz. Já agora, e no amor, não me confronto coam as lindas frases dum livro ou dum filme, nem julgo a minha vida pelo melhor ou o pior do personagem. Sou demasiado real para isso. Se nelas procurasse inspiração ou julgamento, tudo acabaria antes de começar. Nem tudo tem que ser classificado de bom ou mau, fácil ou difícil. A felicidade também se encontra na paz de espírito alcançada, quando e só se "está", não necessariamente por se "ter de fazer". O afastamento não me dói. Contigo, nunca estou só. Só que, não te suporto,mesmo, certos queixumes.

Rosas

3 corações em dor, 3 rosas côr de carmim. No meio de muitas margaridas brancas, alguma hera, a protecção em celofane. Um número, o 68, numa placa de metal soldada a um ferro espetado na terra revolvida. Sorri, mas não me apeteceu brincar com o 69. A vista é linda, convida-nos a ficar. E fiquei. Não pensei em nada, ou talvez tenha pensado em tudo. Não me senti nem bem, nem mal, mas doeu-me, quando saí.

Monday, August 21, 2006

21 de Agosto

Naqueles dias, senti que muito de mim se esvaziou. Senti-me pobre, horrivelmente pobre, mas da alma. Julgava que já sabia muito da amargura que a solidão nos pode trazer. Afinal, enganei-me. Ensinaste-me que ela pode ter outra forma, e como é horrível. Deixaste-me uma a solidão na alma que ninguém, a não ser tu, preenchia. Depois, senti que te respirava, que te encarnava. Quanto mais te recordo, mais me sinto a ser tu, e eu, simultâneamente. Como se estivesse a assumir-te, aos poucos, no que eras e foste. Respiro-te e penso-te, como se estivesses cá dentro. Mas o teu lugar no meu peito, continua só e vazio. Um beijo, meu Pai.

Sunday, July 23, 2006

21 de Julho de 2006

Perdoa-me. Perdoa-me por não ter acudido à súplica do teu olhar. Perdoa-me, porque eu não me perdoarei, nunca. Perdoa-me por julgar que ainda tinha tempo para estar contigo, quando me rogavas para te levar aonde sabias que querias ir, e não acudi à tua súplica. Perdoa-me, por não ter estado contigo hoje de manhã, por não ter estado contigo ontem à noite. Perdoa-me, porque eu, sabes, não me perdoarei, nunca. Como nunca esquecerei o teu olhar de ontem, quando me suplicaste para te levar, como o condenado à morte, que suplica pela vida, pelo último desejo irrecusável da vida. Meu Deus, os teus olhos diziam-me tudo, e eu não quis ver nada. Lutaste tanto, aguentaste mais um dia e, depois, ainda outro. Deste-me todo o tempo de que precisava, para arrumar a minha vida e dedicar-me, com todo o meu amor de filho, que te tenho e que sempre te quis dar, neste derradeiro momento da despedida. Perdoa-me, quando os teus olhos suplicantes me rogavam "fica comigo mais este bocado, porque pode ser o último", e abandonei-te, na derradeira fase da tua luta. Perdoa-me, porque sem me perdoares, eu não posso perdoar-me, nunca. Havia coisas que te queria dizer, daquelas que só se dizem na despedida, daquelas coisas que valem o amor pela vida. Pedir-te perdão, por todas as tristezas que te causei, por não ter sido um bom filho, porque não acho que o fui e nem mo sinto, por não ter te dado uma melhor velhice, a que merecias. E não estive e nem tive contigo, esse momento, esse derradeiro momento, o de te pedir perdão pela minha vida. Agora, não sei como to dizer, Pai. Os teus olhinhos, de terror, de súplica, Pai, os teus olhinhos, o último momento que guardo de ti, meu amor, Pai da minha vida, não sei como vou viver com eles, até ao fim dos meus dias. Nesse altura, quando nos encontrarmos, aí, onde estiveres, pedir-te-ei perdão, sempre, todos os dias, se aí houverem dias.
E perdoa-me, Pai, perdoa-me pelo que podia ter sido e não fui, por tudo o que devia ter-te dado, e não dei, pelo que podia ter-te dado, mas descuidei, ou recusei. Quero abraçar-te, beijar-te, meu Pai, meu amor, mas, agora, apenas me sobra o teu cadáver.
Perdoa-me, para sempre, a mim, o teu filho, por te ter falhado num derradeiro momento, sem despedida. Perdoa-me, meu Pai.

Thursday, June 08, 2006

Não te vás, ainda ...

Não sou muito de SMS’s e outras coisas que tais. Não, o problema não está em mim, mas no teclado. Para mais, detesto codificações simplificadoras das palavras que, por vezes, são erroneamente interpretadas. Olhem, não interessa, não é sobre isto que quero “falar”.
Mas vem a propósito das estatísticas divulgadas sobre os milhões destas mensagens que se trocaram neste país.
Nesse dia, já tinha enviado a minha. Não foi por SMS, foi uma prece. “Por favor, não o deixes abandonar-nos, faz com que fique connosco por muito, muito mais tempo, lúcido e sem dores e sem o desespero de quem sente que o fim está próximo”. Já toma morfina e receamos que, muito em breve, já não se conseguirá levantar.
No dia em que veio do hospital, sentou-se toda a tarde. Vi-lhe um olhar triste, profundo, e assustado. Percebi que se preparava para o que se avizinha.
Ontem, conversou comigo. “Era isto o que te queria dizer. Não tenho medo de morrer, porque não morro, o espírito não morre. O que morre é o corpo, mas esse é uma matéria inerte. A morte liberta-me, liberta-me o espírito do corpo, que me faz sofrer. Só tenho medo do sofrimento, das dores, como no outro dia em que fui ao hospital. Não tens que acreditar, pensa o que quiseres. Não existem verdades ou inverdades, existem escolhas, eu escolhi o espírito, o pensamento. Não tenho medo morrer. Só queria ser internado, como no outro dia. Senti-me bem, acompanhado, sem dores, senti-me pronto. Não percebo porque me mandaram para casa. Eu sei que o fim está próximo, as dores só vão piorar, depois aumentam a dose das drogas contra as dores, pára o coração, e eu liberto-me”. Quando foi para o hospital, informaram-me de que a administração de morfina poderia matá-lo, pelo coração. Achei estúpido. “Se o mata, não lha dêm, ou se lha dão, façam-no em quantidades e de forma a que não o matem. Caso contrário, não autorizo". Depois, telefona-me a mana, toda aborrecida por não dar aos médicos a liberdade para actuarem. É da opinião de que ele “já sofreu e está a sofrer muito”, e quem seria eu para decidir o contrário. “Não contes comigo para eutanásias piedosas”, retorqui. Segui-se uma discussão sobre o meu egoísmo e insensibilidade. Entretanto, chegou a ambulância para o levar e achei por bem desligar o telefone. Nesse dia, não lhe atendi mais nenhum telefonema. Foi internado, tomou morfina, mas não morreu.
Cada semana conta, agora, como se fosse mais um ano. Cada dia, como se fosse mais um mês. Cada hora, um dia, cada inspiração, uma hora. Não te vás, nem agora, nem nunca.

Tuesday, April 25, 2006

... de ser lembrado!

Gostava. Ai gostava, gostava. Mas não assim.

Quando me ligam, nunca o fazem para saber como estou, ou se quero ir tomar um café com eles. Enfim, não se lembram de mim, pelo prazer de estar comigo.
Pois não. "Pai, preciso de ir acoli, a mãe diz que não pode, e tu, podes levar-me?". Ou, "Pai, preciso de falar contigo". Lá me vem a esperança ... "Então, falemos ... houve algum problema?". "Não, não ... é que precisava de 15 euros. Podes trazer-mos?".

E é assim. Mas não ficamos por aqui. Como por exemplo, em "Olá Pai, como estás?", ai ..., é uma vózinha de menina. "Eu tou bem meu amor, e tu?". "Sabes, a D convidou-me para ir para a casa dela em S. Pedro ... mas não é do Estoril, acho que é ali para a Ericeira ...". Aqui, o meu silêncio começou a ficar ofegante, " ... mas como calha no teu fim-de-semana, gostava de saber se posso ir ...". Respiro fundo, muito, mesmo. Sai-me do coração: "Mas eu também não quero ficar sem a minha filhinha. Temos um problema, não é?", "Pois é ... temos um problema ...", reconheceu ela. Proponho-lhe um "Fazemos o seguinte, vamos pensar os dois, está bem?". "Pois ... temos de pensar ...".
Há "lembranças" que doem mais. Espero que chova e muito no próximo fim-de-semana. Já se vê quem não é capaz de dizer "não".

Wednesday, April 12, 2006

O Amor, a Creatividade ... ou lá o que isso fôr.

Sonhar com o que não existe e matutar como o poderíamos alcançar, é um espaço a que me reservei, algo que solitariamente apenas a mim pertence, muito cá dentro, no meu íntimo. Chamo-lhe "a minha fonte da re-criação da vida".
Simplesmente, gosto de sonhar. E vocês nem sabem o que eu gostaria de inventar. Por vezes, dou comigo a pensar em coisas que poderiam mudar o mundo. Depois, descubro num qualquer programa de televisão, que alguém está a trabalhar no assunto.
Nos tachos, gosto de experimentar coisas saudáveis, que não me levem uma manhã na cozinha, nem recorram a refeições pré-cozinhadas (essas, também, uma bela invenção). Não sendo um amante de peixe, por vezes engano o resultado final, a meu contento. Gostaria saber fazer um bom biryani de camarão, e outros pratos desse imenso mundo, que é a Índia. É claro que, depois, alterá-los-ia. Isto, para não falar de alguns truques da cozinha italiana. Dedico, também, algum do meu pensamento à forma de eliminar algumas componentes menos saudáveis em receitas alentejanas que, para mim, será uma das cozinhas tradicionais portuguesas mais genuínas. O melhor atum de cebolada que já comi, na vida, era e foi o cozinhado por um tio meu, do Algarve. Mas essa excelente pessoa, ao contrário do que se poderá pensar, não era algarvio, mas madeirense. Ao tradicional manjar da sua terra natal, adicionou ideias suas e outas "experimentações" algarvias. O resultado sempre foi divinal.
Na pesca, sempre fui criticado por "estar sempre a inventar", sem grandes sucessos, na forma como construía e construo os meus aparelhos ("baixadas", para os entendidos). Gosto de procurar e experimentar "aquilo que pode fazer a diferença" em relação ao que existe e que acho ... "insuficiente". Facto curioso, todos os meus companheiros de pesca aparecem, sempre, com uns novos "truques" para enganar o peixe. Segredos iniciáticos que com eles conservam, para sempre. Ao que o sonho nos leva, até para enganar o peixe.

Já na faculdade, num teste de matemática, inventei uma demonstração em três passos que, na aula e nos compêndios, era feita em cerca de 5 linhas. Nesse teste, numa escala de 1 a 20, tive 5, ou seja, a cotação da pergunta a que me dediquei. Amei aquele desafio.

Um ensino que não seja capaz de desafiar as mentes e a inventividade de cada um, em cada parágrafo, em cada vírgula, em cada acento, é algo que nos mata a felicidade e a auto-estima.
Lembro-me de, com os filhotes ainda pequenos, eles se preocuparem em desenhar as maçãs muito vermelhinhas. E eu desenhava-as azuis. Expliquei-lhes que, por não haverem maçãs azuis, como eu as queria e tinha no meu pensamento, só no desenho conseguia encontrá-las.
Mas a professora queria as maçãs vermelhinhas, numa árvore desenhada como as que encontramos na "realidade". Enfim, parâmetros necessários para a capacidade de representar a realidade, coisas que se medem nas nossas crianças.
Pois, crianças que precisam do seu tempo e espaço, para descobrirem um sonho, onde ponham e de onde retirem a sua auto-estima, o seu orgulho, ignorando, numa bofetada de luva branca, o escárnio ou os juízos pré-concebidos e acumulados pelos seus professores. Tempo e espaço para gozarem o ar da praia, do verão, da primavera.
Tenho um filho que outros consideram "difícil", mas em cujas angústias e insatisfações me revejo no dia a dia, e até na minha vida. Não sinto culpa, mas compreensão, com aquele amor quente e benevolente, que se sente por um filho. Porque o sofrimento dele, é o meu.
Desejava ser, para ele, um melhor exemplo de homem e pessoa, ultrapassando todas as minhas limitações, as do passado e, de preferência, as do presente. Resta-me inventar, sonhar, dedicar-lhe o meu pensamento para lhe mostrar que existem muitos sonhos por perseguir, e não apenas os pesadelos que o angustiam. Que, por vezes, há um sonho que se torna tão claro e nos indica um caminho, a nossa genuína invenção da vida, que está para além do que nos é impingido pela televisão, enquanto modelo de felicidade, e do padrão cultural da esperteza saloia. Se queres muda de vida, mas não vivas contrafeito. Eu e tua mãe não estamos a atirar a toalha ao tapete, apenas a saltar para o ring e abanar-te com ela, para que recuperes o fôlego para o próximo passo.
Para ti, meu filho, o meu abraço apertado, com aquele beijo, que umas vezes aceitas e, outras, não.

Monday, April 03, 2006

Em família!

Ser pai, é sê-lo, pai, e mãe. A filhota chegou-me a casa rouca, acordou com febre. Sem pânico, benuron e sms para a mãe. Uuups, asneirei com o xarope, teve vómitos, mas a mãe pôs-me no bom caminho. Acompanhei a febre, os remédios foram dados à hora, refeições a aproveitar os momentos de melhor disposição, começaram as melhoras e fui recebendo um beijinho ou um sorriso agradecido. Ela, se quisesse, podia ir embora, mas continua por aqui, sem tocar no assunto. Ainda bem que a mãe não telefona. Também lhe deve custar, mas sabe que tem de investir nestes momentos para ganhar o seu próprio espaço individual, para respirar. Se fosse ela, aproveitava para ir ver um filmaço, de preferência, em boa companhia. Ser pai e filha de pai, exige a sua prática, de amores e amuos. Ora bem, para o jantar, estava a pensar em cozinhar ... um grelhadito com uma saladita.

Monday, March 27, 2006

... ou acaba já aqui.

A voz fofinha, calma. Começa pela introdução: "Pai, estive a a ler o catálogo da Staples. Eu sei que os meus anos só são em Maio, mas agora têm preços baixos por causa da Páscoa". Está certo, mas falta o resto. "E o que escolheste?". Vem a resposta: "Eles têm um i-Pod de que gosto muito". Faz sentido. "E quanto custa?". "Pai, custa 320 euros". "Tens que concordar que é muito caro e que o pai, nesta situação, não pode pagar isso". "Pai, eu sei que tu podes, e não me venhas dizer que não tens dinheiro porque, senão, a conversa acaba já aqui". "Já te expliquei porque o pai não pode". "Então, a conversa acaba aqui". E acabou mesmo. Que pena, porque ela merece a maior prenda que se possa dar. Engraçado, a calma com que conversou, sem nunca levantar a voz, sempre calma, do princípio até ao fim. A quem terá telefonado a seguir?

Friday, March 24, 2006

Provocações e Esquadrões

Eu? Quero manter tudo como está, como no dia em que, quando cheguei a casa, já não os vi. Cada bocado, cada peça, recorda-os. Como se estivessem comigo, sempre, sem o estarem. Ela? Acha que algo tem de mudar. "Pai, vou telefonar ao Esquadrão G para te redecorarem a casa. São eles que pagam, não são?".

Não reproduzirei, aqui, a minha resposta mas ... imediatamente, dei a conhecer à filhota as intenções demoníacas que, naquele momento, me assaltaram, consubstanciadas em promessas de crime sanguinário sobre tais intrusos, o que, por certo, me valeria a pena de prisão perpétua nesta vida e em muitas outras vindouras.

Ela? Riu-se, perdidamente, com o meu desaforo. Ele há com cada piada ...

23 de Março

Esta é uma data cuja memória me provoca um vómito convulso, o asco, inimizades profundas, desperta em mim o desejo de práticas da magia negra, de exercer os piores bruxedos sobre algumas gentes, transformando-as em pó de sapo, a espezinhar sem dó nem piedade, eternamente.

No entanto, este ano, as preocupações presentes e e ansidedade posta no futuro relegaram a data para um segundo plano. Mais ainda, existem novas presenças, cada vez mais importantes na minha vida, no meu dia a dia. Sai uma coisa, entra outra. What's next?

Já agora, "Abracadabra-raistapartanoinferno-sapovirarás-pum-pótuserás!". Vou ali ao caldeirão e já venho. Alguém é servido? He he he he!

Tuesday, March 21, 2006

Sandezinhas intermédias ...

Ele, "Pai, amanhã (segunda-feira) posso ir almoçar contigo?". Zoing, zoing, doing, doing, soaram as minhas campainhas de alarme."Espera lá, amanhã não tens aulas de tarde?". "Ah, pois ...". Proponho um "Fica para terça, pode ser?". "Tá combinado", diz-me. Hoje, à uma da tarde, ligou-me, "olha, vens-me buscar às duas e meia ...?". Ó pá, olha que estou com fome. Vai uma sandezinha, ó pessoal?

Não há nada ...?

Sou madrugador. Mais contra do que por vontade própria. Enfim, coisas de insónias, colectivos tristemente partilhados com os que levam da vida. E olhem que há muitos, porque me encontro com eles. Tem algumas vantagens engraçadas. Devo ser dos primeiros a ver a primeira repetição diária do CSI, o sol a nascer, e a visitar a senhora da padaria com o meu "bom dia" mal murmurado. Ah, e não apanho com as filas nas caixas do supermercado. Depois, espero que eles comecem a acordar, para perceber que "directivas" irá ter o dia. Claro, estou a falar dos fins-de-semana. Quando mo é permitido, faço uma pausa "sofáziana".
Por volta das 11 da manhã, estando eu numa dessas pausas, surge-me uma fantasma acabada de sair do seu quartinho, em directo para uma reclamação e, num tom melódico-choramingoso, "... pai ... não há nada que comer nesta casa ....". Mau, esta gajinha teve pesadelos, ou será o mau feitio matinal herdado de quem eu cá sei? Pois se acabou de acordar e de sair do quarto, como é que me pode dizer que não há "comida" em casa ...? "... então, os teus cereais "sveltesse" estão na despensa e há leite ..."."Pai, mas eu já não gosto disso ...?". "... mas tu, há 15 dias, ainda gostavas ...". "Eu sei, mas agora já não gosto tanto ... que comida é que há?". " ... tenho pão, fiambre ... aquele queijinho de barrar ...". "E o pão é de hoje?". "... sim, acabei de o comprar ...". "Ah ... tá bem ... ", "Mas, espera lá. Afinal, o que comes, agora, de manhã?". "Aqueles iogurtes especiais ...". E foi tomar o pequeno almoço. Depois, perguntou-me se não haviam bolachinhas. " ... só aquelas para depois do almoço ...", pensei. No entanto, "Não me lembro de as ter comprado ...", esclareci. Caramba, é que não há nada para comer ... nesta casa!

Ah Yá, Tá-se Bem ...

Sete da tarde, a caminho do meu pai, ou seja, do AVÔ, neste dia do pai.
Ele, o gajão, "Hoje vamos sair e fazer qualquer coisa?"
???? ... ???? ... "Como, assim?". "Hoje é dia do Pai ...". " ... ... então, mas agora vamos ao meu pai ... ". "Sim, mas depois ...". " ... depois? Então, depois é tarde e vocês têm que ir para casa porque amanhã é dia de escola ...". "E não fazemos nada para o dia do Pai?". " Hum ... a que hora acordaste?". "Pois ....". " ... para mais, tu estás doente, eu estou doente, o carro está doente ...". "Yá, tens razão, e nós ontem também fizémos uma sessão de filmes juntos ... tá-se bem ...".
Ai tá-se, tá-se ...!

Negócios da Fava Rica com cebolas à mistura

Dia do Pai de 2006. O pequeno cartaz, formato A4, de produção artesanal, é-me entregue em mão. "É para ti!", diz-me a "chinoca".




Dia do Pai



Têm-se Pai Alugado



Por Um Dia

- Cabelo Grisalho ( ... ah, isso é bom para o negócio? ...)
- Alto (???)
- Solteirão (... bom, não é bem assim, não é bem assim ...)
- Em forma (... até que nem ando muito mal ...)
- Dois Magníficos Filhos ( ... estarão a falar de mim?)
- E Um Grande Coração (... malditas cebolas, estão cada vez mais ácidas ...)

É o Que Procuras???
Desculpa, Mas este é Meu !!!

E Ninguém Mo Tira !

Feliz Dia do Pai (texto da legenda por baixo do desenho, com uma carinha e um bracito a acenar)


ADORO-TE


Fim de cartaz. ... aonde é que íamos? Ah, pois, as cebolas ... são uma chatice ... são, mesmo, uma chatice, nestas alturas ...

Friday, March 10, 2006

Ped ... o quê?

11 anitos que quase, quase, já estão a entrar nos 12. Pô! Tá ficar latagona e eu, velho. Não que seja alta, mas tem força, bolas ...! Quando a abraça, levanta a avó do chão e sacode-a toda para trás, para a frente e para os lados. “Ó ..., cuidado, não partas a minha mãe, pá!”. A avó, cheia de parkinson, arteroses, osteoporose e outras maleitas, manda-me calar e pede mais. Tá certo.

Aos fins de semana, tem uns ataques desesperantes de letargia. Televisão, mais televisão e ... pois, de repente, tem acessos de energia, exige cócegas. Prevendo o sofrimento e dispêndio energético que me espera, esquivo-me. “Agora não posso, estou a fazer o almoço. Vai mas é tomar a banhoca, porque já é muito tarde”. Fico a saber que, sem cócegas, não há banho. Caramba, isto de ser pai há uns tempinhos, já me dá outra perspectiva da coisa. “Problema teu, com esse pivete a sovaco ...”. Sim, eu sei que toquei num ponto muuuito sensível. Mas, desta vez, a recusa mantém-se firme e hirta. Rio-me para dentro, nem insisto.

Depois da paparoca e do filmaço dêvêdiano, estando já eu no meu ripanso, truca, caiu-me em cima, com os joelhos no meu peito. “Ai, ai, ai! Tás-me a magoar! Tás-me a magoar! Cuidado!”. Pois, desde pequenina que o pai é o colchão preferido. Estão abertas as hostilidades. Agarro-lhe as pernas com todas as minhas forças e ... e sai uma de cócegas, desde a planta dos pés até à articulação dos joelhos. Entretanto, tenho que lhe amparar o tronco, porque já está a cair para o chão de tanto se sacudir. Chiça! Tá pesada. Pede tréguas. O caraças é que vais ter tréguas. Berraria de meia noite. Como ela já está a dar um pouco para o arroxeado, paro para uma pausa e tento retomar o fôlego. Mastigo em seco, para me recompor da cotovelada nos queixais (ena, até vi estrelas). De repente e sem aviso, levanto-lhe o braço, aplicando a tortura nas axilas. No meio do berreiro sai um ... “PEDÓÓÓÓFIIIILOOOOO”. Eh. Ped ... o quê? Esta é nova. Há que esclarecer, e já, o assunto. “Quem, eu?”. “Sim, TU!”. “Porquê?”. “Porque estás a torturar uma criança. PEDÓÓÓÓFIIIILOOOOO!”. “Ó pá, olha que, daqui a bocado, os vizinhos chamam a polícia. E tu já não és criança, já és mais uma adolescente”. “Não interessa, és um pedófilo de adolescentes!”. Pois, está bem. Que se lixe a polícia. Toma lá mais umas cócegas.
Ah, eram para aí umas 16:30 quando “Pai, já fiz a digestão?”. Fiz umas contas de cabeça, “ ... onde é que essa digestão já vai ...”. E foi tomar banho, para irmos aos avós. Grrrrrr ... quero o meu almocinho de volta, porque este já se foi ...!

Monday, October 24, 2005

Olha ...! Malhou!

Ela, "... e caíu, fui com ele ao hospital à noite, por causa dum joelho que está muito magoado ...". Eu, "Porque não me disseste? Ia lá ter ...", "Não ias adiantar nada ... ", "Mas estava lá ...!". Contou-me, ainda, algo sobre radiografias, o ortopedista ou ir á ortopedia, condicionado á evolução, no curto prazo, do estado do joelho. Por esta altura já não ouvia grande coisa, pensava noutras e, ela, também estava nervosa e pouco ávontade em se alargar nas explicações. Não compreendia esta mãe. Afinal, sempre fui uma pessoa com um certo sangue frio nas horas de aflição. Depois? Depois, sim, saía do transe e aterrava com o mundo às costas, descarregado num balde de lágrimas, a sós, para os miúdos não perceberem.

No fim do ano passado, o filhão veio ter comigo. Tinha feito as contas para a carta da mota, a mim calhava-me "x", queria saber se concordava. A contragosto, " .... sssss ... ssss ... ssss ... ssss ....". Bolas, eu bem soprava, mas não saía. Depois, a língua lá foi tomando forma, passou por um "sz ... ssssszzzzz ..." e, finalmente "sssiiii ... ssssiiiii ... sssssim". Custou. Não pela carta, já há muito queria que ele a tivesse obtido, mas pelo custo. Era preferível. Como o bandido já andava a brincar com as motoretas dos amigos, ao menos que soubesse o que andava a fazer.

Depois de juntar a massa, proporcionou-se ao filhote um bom negócio para a aquisição da mota, antes da carta tirada. Disse-lhe, "Porreiro, mas para motas e cartas, acabaram-se as contribuições". Ah, pois, era suposto ele ter desenrascado algum a trabalhar no Verão ...
No dia em que lhe passaram a motita para as mãos, deixou uma amiguinha de eleição dar uma voltinha. Como a pequena nunca tinha pegado numa coisa destas, ainda com o volante todo virado para a esquerda, vai de acelerar e espetou-se contra um carro estacionado. Cabo dos trabalhos, custos a repartir, no carro e na mota, que até nem sofreu grande estrago. Pobre mãe.

Veio-me guardar a máquina na garagem lá de casa, o que achei muito bem. Olhos que não vêm, coração que não sente. Com a garagem sempre fechada e ele sem o comando do portão, não lhe tocou. O que deveria acontecer, até ter dinheiro para a pôr no "Sr. António das Motas", a arranjar.

No outro fim de semana, comigo, lá o deixei dar uma voltinha ao quarteirão. Não gostei do que vi. Estava mais preocupado em ver se a mota alcançava os 70 à hora. Curvas? Todas na contra-mão. Meti-me á pendura, foi uma hora de lição. Piscas a assinalar toda e qualquer mudança de direcção, curvas na perpendicular, velocidade reduzida e adequada á estrada em que seguia, e nunca passar, nesta fase, dos 30 à hora. Paragens nos stops, travão, pé no chão, olhar sempre para todos os lados e só arrancar quando for seguro. A mota é sempre o mais frágil. No fim, mais sermão, revisão da matéria dada e toca de guardar a máquina porque é hora da matemática.

Dois dias depois, quer levar a mota para casa da mãe, ao que parece com o seu conhecimento, planeando, na tarde seguinte, uma incursão ao tal Sr. António mecânico. "E a mãe sabe?", que sim. Deixou-a na rua, durante a noite, em frente à porta do prédio onde mora, o que me inquietou. Larápios para estas coisas abundam. Dois dias depois, foi o telefonema da mãe, com que começou esta história. Adiou a ida ao mecânico, foi dar uma volta com os amigos "motard", teve que fazer uma travagem súbita e caíu, com o peso da "bicha" em cima do joelho que, agora, já está muito melhor.

A carta? Mesmo para cilindradas até 50 cm 3, tirar a carta tornou-se algo de surrealista. Para espanto meu, com a alteração legislativa recente, os encartados para ligeiros já não estão automaticamente habilitados a conduzir uma motoreta. Também têm de tirar uma a carta diferente para a ditas.

Tal como os miúdos, todos temos de nos auto-propôr a exame, estudando em casa, quer o código, quer a condução prática. Pois, como é que os não encartados podem praticar na rua e no trânsito, se não têm carta e, por esse motivo, seguro? Para o exame, têm de levar a mota. Mas como, se não têm carta e o seguro apenas é concedido ao proprietário encartado? Ah, mas para o exame, isto não se fica por aqui. Há que levar carro com condutor, para transportar o examinador. Um dia destes, será necessário fornecer a estrada, os sinais de trânsito, e por aí adiante. As motas? Continuam a vender-se. E "nós", eu, ele e a mãe, em que ficamos? Não volta a pegar na "bicha" sózinho, enquanto não tiver a carta. Como é que aprende? À volta do quarteirão com o "velho" no lugar do pendura. E pelo manual, o código. Chega de invenções e ponto final. Calha bem, ainda tiro, também eu, a carta desta coisa. Vamos a ver se o miúdo ma empresta. Ou preferem apostar?

Thursday, August 11, 2005

A dos óculos …

Quando a mãe foi internada e fomos viver para casa dos meus sogros, passei a levavá-los à escola do SAD. Ele ficava na secção da primária, ela no jardim de infância.

Depois do leitinho, era a muda da fralda, e uns olhinhos desafiadores a pedirem aquelas dentadinhas na barriguita para as gargalhadas matinais. Sim, rituais de Pai e Filha. Ah, meu Deus, e aquele cheirinho de bébé misturado com a água de colónia da Ausónia. Tantos beijinhos e conversas insondáveis nós tínhamos nesses momentos. A avó materna fazia questão de aperaltar a minha mais do que tudo, e de pôr na ordem este Pai destravado, que tendia sempre a atrasar-se nestes cuidados.

Por algum motivo de que não me recordo, já evitávamos o uso do alfinete de ama com a correntinha de plástico. Provavelmente por questões de segurança. Por isso, convinha ter sempre umas chuchinhas de reserva no saco da roupa e das fraldas. É que a sujeitinha gostava de falar, equanto apontava para tudo o que lhe passava á frente e balbuciava os seus comentários em código “bébês”.

Quantos aninhos teria ela? Talvez dois, ou nem isso. Só me lembro que ainda não andava, mas já gatinhava. E da colecção de chuchas que fomos juntando, por necessidade e por impulso, sempre que víamos uma mais engraçada.
Nessa manhã, escolhi a dos óculos. Esclareço, a pega da chucha tinha a forma de uns óculos. Comprei-a, na minha incursão semanal á secção de puericultura do hipermercado. Claro, em dado momento, a menina esticou o braçinho, sempre com aquele dedinho apontado para o alvo da sua exclamação, proferiu a correspondente sentença e … chucha para o chão. Como habitualmente, explicou-me que queria outra. Pois bem, aqui está ela, que esta vai para o meu bolso das chuchas sujas.

Já no trabalho, apercebi-me de um volume diferente no casaco. Lá estava ela. Sorri-lhe, recordando eternecidamente o momento em que a a deixou cair, os sons balbuciados, e pensei, “… já tens tantas…”. Guardei-a comigo, no tabuleiro dos lápis e das canetas.

Nove anos depois, ainda sorrio quando a avisto. Ahhhh ...! Que vontade tenho de chuchar um bocadinho. Como hoje. Que saudades do meu ultimo bébé.

Voltando uns anos atrás, já com a menina mais crescidinha, num dos meus regressos solitários a casa, sentado num combóio, assaltou-me o mesmo sentimento, o de uma saudade enorme da minha bébé, de ter uma bébé, a memória do seu cheiro, enroscada em mim, abraçando-me com aqueles bracitos rechonchudos e ternos. Nesse dia, enquanto preparávamos os jantares, confidenciei à Mãe o sucedido. Depois de um breve silêncio, disse-me, calmamente, “Pois … agora, só se for adoptada”. Apesar de já não podermos gerar outro filho, as saudades não me eram exclusivas.

Thursday, July 28, 2005

Trocas

Um CD para oferecer no aniversário duma amiguinha.
“Pai, já falei com a mãe, ela diz que sim se tu e ela pagarem a meias”. E quanto é que é? “Dá 12 euros a cada um”. Cinco contos por um disco? ... Ainda se queixam da pirataria. "Tábem!". Fomos à Fnac.

O tal CD estava mesmo á vista. Aqui para nós, o conteúdo não vale um terço do preço mas, enfim, assunto resolvido, e fomos descobrir outras novidades de real interesse. Aahhhhh, aquela colecção dos Led Zeppelin ... Uiiiiii, tanta coisa boa dos Lynyrd Skynyrd ... contem-te, galego, que a vida não anda para desmandos. “Filhinha, não queres oferecer um disquinho ao Pai?” … pois, ainda não será desta.

Fui obrigado a ver e conhecer as novidades que haviam no separador da Brittney Spears. Desavisadamente, lembrei-me, “ó jeitosa, sabias que o marido dela vai filmar o parto para depois vender o vídeo?”. Bem, o que lhe fui dizer … Lá veio a metralha de perguntas, “Como é que sabes?”. “Li numa resvista que estava no consultório, numa dessas para mulheres e miúdas”.
Quis à força saber o título da revista, para o que me foi dando sugestões mas, eu ia lá fixá-la? Já me chegara a seca da espera. Aliás, tinha sido uma tormenta. Nunca me sentara em cadeiras mais desconfortáveis, nem no café mais humilde. Claro, às tantas, já a pilha de revistas estava lida.
Ah, pois, o parto da Brittney. Tive de convencer a filhota para acabar com o interrogatório. “Porque não vais à net?”. Murmurou qualquer coisa, tinha a ver com o “inglês”. Adiante, que já fizémos a compra e regalámos os olhos.

Ora bem. No dia seguinte, descobriu que a aniversariante já tinha o dito CD. Haveria que trocá-lo. No domingo, depois do almoço (o meu, porque, para eles, ainda era o “pequeno almoço”), “Ó menina, vamos lá trocar o CD, depois não temos tempo”. Espreguiçou-se no sofá, toda gatinha, não lhe apetecia, queria ver televisão, se eu não podia ir sózinho … "Eu, sózinho? Olha, olha! A amiga não é tua, não é a prenda que tu escolheste? E eu não estou, já, a oferecer-me para choffeur? E, mesmo assim, querias que fosse sózinho? Granda lata … Olha, ou vamos agora ou, então, combinas com a Mámi”. Tal era a preguiça. Ficou de resolver o asunto com a Mãe.

Certo, telefonou-me logo na segunda-feira, com aquela vozinha aflitíssima, num tom baixíssimo e choramingoso, qual Madalena arrependida, “a Mãe diz que não tem carro, disse que eu tinha de combinar contigo, podes ir, Pai, podes?”. "Hum … então, e agora? Hã? Eu bem te disse … (cá o marujo, de voz grossa, a render o peixe e a fazer-se caro) … Bom … deixa lá ver … só se for hoje à noite". “Que bom, pai, que bom! E a que horas?”. “Hum … só lá para as nove”. Combinado.

Por acaso, até a fui buscar uma hora antes. Fizemos a troca mas, desta vez, por um cheque-disco. Gato escaldado ... Propus-lhe, então, irmos dar uma “olhada” à Sport Zone e, embora contrariada, concordou em acompanhar-me. Mostrou-me uma toalha de praia, “Gostava tanto de levar esta à festa de anos” que, neste caso, vai meter piscina o dia todo. “Não gostas, Pai?” “Filha, é lindíssima! Mas, quanto custa? Ena, estes tipos abusam, é caríssima. Se calhar, há igual na feira e muito mais barata”. “Não me ofereces Pai?”. “Amor, agora não posso. Além disso, o pai esqueceu-se do cartão multibanco no carro”, o que era verdade. Nem insistiu mas, bolas, ficou mesmo triste. Fomos ver os biquinis, experimentou um, de que desistiu, “por ser demasiado cavado aqui (apontando as nádegas), para a minha idade”, e passámos em revista o resto da loja. Coisa curiosa, apesar de não haver qualquer problema em poder gastar do seu dinheiro num biquini, o mesmo não acontecia em relação à toalha. Já no carro, para regressarmos, voltou a mergulhar naquele silêncio de tristeza e desolação que, desta vez, me doeu a sério. Bolas, Pai, que se lixe, é por ela, paciência. “Amor, vamos lá ver a toalha”. Foi indescritível o seu ar de felicidade e eu senti-me, nessa noite, o Pai mais feliz do mundo. E o menos sensato. Claro, fomos dar mais voltas, para “ver coisas”. Ui, tão tarde, vá lá, tá na hora. Quase às onze, deixei uma menina de felicidade à porta da Mãe.

Em conversa posterior, a Mãe confidenciou-me não ter a nossa filha sido autorizada a gastar do seu dinheiro “naquela” toalha, por já ter duas novinhas em folha. No entanto, não se opunha nem criticava a oferta, bem pelo contrário. De qualquer modo, não perdíamos nada em nos informarmos sempre que surgissem este tipo de situações. Não que o acontecido o tipifique a cem por cento mas, para que não ocorram daquelas em que, “se um pai não dá, vou pedir ao outro”, seria conveniente estarmos mais “a par”.

Concluindo, vale sempre a pena voltar à loja, para trocar algo. Às vezes, troca-se muito mais.

Tuesday, July 19, 2005

Janelas

Sexta à noite, apanha-me em casa de amigos, bem longe da minha. Vai sair e estar com os dele, mas proibido de dormir sózinho na casa da Mãe. Os dois zangaram-se e, de certeza, que a razão está com ela.
Não a quer acompanhar nem à irmã, na habitual deslocação do fim-de-semana. Pretende dormir no meu sítio. “Já disseste à mãe?”, “Já”. Fico intrigado. E se ele está a querer castigar a mãe, por causa da repreensão, a fugir a alguma imposição ou regra, quiçá se a algum castigo, aproveitando a separação e a existência de duas casas?

Se é verdade que cada um colhe o que semeia, é o nosso filho que está em causa, e não quero nem desautorizar a mãe, nem ser cúmplice das fugas dele às suas responsabilidades e actos inconsequentes. “Não estás sempre a querer que eu esteja mais tempo contigo, na tua casa?”. Pois queria, mas não em fugas. Seja, vou-te buscar quando me telefonares, e levo-te a minha casa. Depois, regresso para onde estou e ... não, hoje não podemos fazer um programa nosso, porque já assumi outros compromissos. Ademais, eu e os meus amigos não te podemos levar para onde planeamos ir. Já agora, não te preocupes se eu voltar muito tarde, também é o meu dia de saída. Sabes, o Pai está a reconstruir a vida.

À meia noite telefona-me, saio de onde estou, faço muitos quilómetros, apanho-o onde se reunira com o grupo, passamos por onde mora, de onde traz um saco de viagem e roupa para uma semana. “Vens só para o fim-de-semana, ou por mais tempo?”. Não sabe, logo se vê. Pois, mas eu estou a ver. Fica a dormir e regresso, desconfortável.

No dia seguinte, ajustamos vidas. Ao princípio da tarde, levo-o à praia, onde se encontra com os amigalhaços, eu visito os padrinhos dele, convidam-nos para jantar por lá, aceito, e assim fizémos. Mais à noite, lá vai o filhão para a reunião habitual do grupo.

Aproveito a sua ausência para confidenciar aos meus amigos presentes as preocupações que me assolam. A sua primeira reacção foi a de me julgarem e condenarem. Já o esperava, não era a primeria vez. Retorno ao meu passado recente e discuto todo o percurso acesamente. À paulada verbal, vamos abrindo caminho, trocamos razões e emoções. Finalmente, entendem-me e entendo-os. Custou mas, agora sim, ouço e sinto que sou ouvido. E gosto do que ouço, gosto dos apoios e das críticas constructivas.

Claro, tenho que encontrar uma forma de abordar a Mãe. E outras coisas, que ponho em prática. Dado o já tardio da hora, telefono, “Filho, vou-te buscar”. Ainda não se quer vir embora, pede mais meia hora. Tem paciência, não vais a pé até onde moro. Zanga-se, explode verbalmente e eu, também, zango-me. O padrinho oferece-se para o levar a casa, e aceito. Entretanto, devem ter tido uma conversa muito emotiva. Chegam-me a casa com os olhos lacrimejados, o filho abraça-me e pede desculpas. Abraço-o com muita força e, depois, faço o mesmo ao padrinho. Obrigado, “irmão”.

Domingo, ele dorme, eu vou à praia com amigos e, de lá, envio um SMS à mãe, dando conta da minha apreensão. Nesse dia, não tenho resposta.

À tarde, é avez dele, dou-lhe boleia até ao seu pessoal de praia. Para meu espanto, arruma o saco da roupa, e pede-me para passarmos, antes, pela casa da mãe, onde deixa as suas coisas. Converso com ele, clarificando que todo o castigo ou restrição estabelecidos na casa da mãe serão, também, cumpridos na minha. Lá me disse que não estava de castigo, mas não lhe perguntei porque tinha trazido tanta roupa.

Na segunda-feira, qual não foi o meu espanto quando recebo um e-mail da mãe, desculpando-se por não me ter respondido ao SMS enviado, solicitando, pela primeira vez desde a separação, ou seja, há mais de um ano, que lhe telefonasse.

Algo apreensivo, ligo, sinto-lhe um tom quase amistoso que, momentâneamente, me desarma. Confirma-me a proibição de o filho dormir sózinho na sua casa, e de ter sido sua a sugestão de ele ficar comigo. E percebo-lhe razões. Se acontecesse alguma coisa ao filho, ninguém estaria em casa para lhe dar pela falta e procurá-lo.

Estabelecemos linhas de actuação para “desmandos” e “fugas” que, potencialmente, venham a ocorrer, prontifica-se para que sejam retomadas as visitas, com base nas novas regras. Falamos da saúde deles e estabelecemos um plano para a marcação de consultas médicas. Agora, abrimos uma janela para educarmos os filhos. Que cada vez utilizamos mais, para trocarmos impressões e eles sentirem que estamos juntos nisto. Que não há segredos, mas sintonia.

Monday, July 04, 2005

Ao relento

Na sexta passada, “Então, jovem, essa semanhinha na praia?”. Fora excelente, praia, piscina, amigos e conhecidos. À noite, jogatina. Tinha sido bom. “Óptimo, então vamos ao cinema, amanhã”. Que não. “Então?”. “Vou com os meus amigos passar o fim de semana à praia tal, e ainda tenho que fazer o saco”. “Vais com quem”? Fez-me o rol. “Dormes aonde”? “Eu e o G, na praia". ... "Hã?", sim ouvira-o bem. "Não gosto da ideia, anda por aí gente da treta a passear nas praias á noite, e há, também, a polícia. A tua mãe sabe?". Que sim. Bolas. Recomendei-lhe que dormisse num parque de campismo, ficava mais sossegado. Mas não, iria ser, mesmo, na praia. Da primeira vez que o fiz teria uns dezanove anos. Ele, por agora, vai nos dezasseis. E eram tempos mais "seguros".

Já no sábado, "Bem, bem, já viste a ventania? Vais rapar um frio do diabo. Se fosse a ti, ia para o parque de campismo". Não, na praia seria.

Domingo, uma e meia da madrugada. Acordo, num susto, ao toque do meu telemóvel. Um número que não pertence à minha agenda. O coração bate-me forte, “Estou? Quem fala?”. Segundos de silêncio, uma voz gaiata, simpática, cheia de lata, “Olá, é o Pai do M? Sou a C, estou aqui com o nosso grupo de amigos, era para falar com o M, porque o telefone dele está desligado”. Ahhhh … errr ... é uma das namoradas ... “… ele foi dormir à Praia X, também com os amigos, e só volta no domingo”. “Ah, obrigado”.
Milhafrinho, vê se também dás o telefone da mãmã, tá? O pai está só, mas não anda em ... em "más vidas". Ora.

Durante o dia, liguei-lhe, mas tinha o aparelho desligado. Já estava preocupado. Falo com a irmã. "Boas, bêjos. Não consigo contactar o mano, sabes se a mãe já falou com ele?". "Sim, Pai, a mãe já falou com ele", na sua vózinha de impaciente condescendente, sabem, como quem atura um chato. "Mas como? Eu só apanho o telemóvel desligado ...". Num tom trocista, de professorinha, meio reprovador, explicou-me, quase soletrando, "Pois, mas a mãe também tem o número dos outros amigos e já falou com ele". Aí estava uma boa ideia da mãezolas.

Segunda, três da tarde. Uma chamada de outro número desconhecido. Deve ser o gajinho, com o telefone de um amigo, pensei. E era. "Olá Pai, tudo fixe?". "Sim, pá, tou fixe. Como foi a noite, muito frio?". "Yá, mesmo muito". "O que te aconteceu ao telemóvel?". "Não tem carga, a bateria está a dar o berro". Pediu-me para o ir buscar. Ah, claro, ainda estavam na tal praia, para lá de Sintra. "Só lá para as nove da noite é que consigo chegar aí". Não podia ser, era muito tarde e já devia ter chegado a casa no domingo, ou a mãe zangava-se. "Mas, não ias e vinhas no carro de alguém?". "Sim, no carro do Zé, mas ele teve de ir à faculdade e saíu mais cedo...". Percebido, devias ter vindo com ele ontem, mas quiseste ficar mais um bocado. "Bom a que horas é o autocarro?". "Às sete". "Apanha esse". Apanharia se, entretanto , o pobre do Zé não os trouxesse. Tenho que conhecer este Zé. Anda no Técnico, é filho de "paizolas" divorciados, tem um carrito e anda sempre a desenrascar os putos. Quando se juntam no inverno, vai tudo para casa do Zé. Quando fala dele, o filhão fá-lo como de um modelo, de independência e vida, da que gostaria de ter para si. Deve ser boa alma.

Terça, hora do almoço. "Então, como vieste?". " "Com o Zé. Ligo-te depois, porque vou levar o cão à rua". Pouco depois, "E aí, dormiram duas noitinhas na praia, hã?", "Achas mesmo? Com aquele frio? Na segunda noite gastámos 80 euros e fomos dormir para o hotel. Dividimos por três. No parque de campismo tinha custado 3 euros". "Eu não te disse?". "Mas era preciso tenda". "Eu tenho uma para te emprestar. Nas férias fazemos umas coisas dessas". "Yá Pai, gostava de acampar". "Vamos combinar isso". Desabafou um lamento. A mãe estava zangada, não pela noite a mais, mas "como cão é meu, eu é que o tenho de levar à rua". Ui, não queria estar na tua pele. Sei bem o que são as zangas da mãe. Dias de amuo e cara de pau, por vezes sem perceber porquê. Faz-nos sentir mal, só de estarmos ao pé. Até que me fartava da ansiedade e, também, me chateava. Um dia, acordava bem disposta, sorria. E eu também. Mas ela está a virar o bico ao prego contigo, filhote. Antigamente não era assim. Muito bem, já se vai fartando de algumas coisas.

Este moço começou a dormir ao relento mais cedo. Embora desaprovando, não posso deixar de sorrir. O que virá a seguir? É que, como muitos de nós, um dia fui à praia da Costa da Caparica. À noitinha, telefonei para casa, dizendo que ia "mais tarde", e se não aparecesse, para não se preocuparem, porque estava em casa de amigos. De facto, não estava em casa de ninguém, mas no Algarve, com um "grupo" de amigos. Na praia. Cujo nome até desconhecia.

Monday, June 27, 2005

Percepções

Combináramos. Sábado, bolo de aniversário com a família do lado do Pai.
Já nesse dia, de manhã, encontrámo-nos. Achei-o circunspecto, de olhar distante, enquanto me escutava. Interrompi o discurso e atirei-lhe um “diz lá o que se passa, hã?”. “Nada, Pai, nada …”. Como se eu não te conhecesse. “Vá, conta aí, o que há?”, “É que … os meus amigos, hoje, vão ver a Mafalda Veiga a Barcarena, mas tudo bem, tenho a festa …”, “A que horas é?”, “… às nove e meia”, “É apertado, não vai dar”, “… Pai, eu sei, mas não faz mal …”. “Venho-te buscar ás sete. Avisas a mana?”. “Sim, sim …”.

Já depois da hora, apareceu-me a criação. Maus pensamentos, os meus, “… é hoje que os rapto …!”. Beijos e abraços. Como sempre, é demolidor e frontal, “Às nove, vou ver a Mafalda Veiga …”. Discordei, discordei, e discodei, que não fora isso o combinado, tratava-se da comemoração do seu aniversário com a minha família, que vinham porque gostavam muito e queriam estar com ele, que a hora marcada fora as oito e meia e, por isso, a ida ao concerto não poderia ter lugar. Depois de muito argumentarmos, perguntou, “E se eu for ás dez?”. … pois, porque não? Concordei. Iam passar a semana seguinte, algures e de férias, com a Mãe, querendo ele estar, ainda esta noite, com o namorico. Quem sou eu … .

Relembro-me, durante a nossa troca de argumentos, dum desabafo “… tenho que fazer a mesma coisa contigo e com a Mãe, e eu não tenho culpa de vocês se terem separado”. Eu sei que, nem eu, nem a Mãe, lhe tomamos, assim, muito tempo. Optei por lhe recordar que não decidi ou combinei nada, sem o prévio acordo dele. Mas reconheço que, embora não aplicável ao dia de hoje, a minha saudade por ele e o vazio que sinto com este afastamento, poderá conduzir-me a manifestações de possessividade e “paizites”, absurdas e desadequadas para a sua idade. Sim, eu sei que não queria e nunca quis qualquer separação, principalmente a dos filhos. Mas ela está aqui e, infelizmente, sou eu quem tem de se adaptar.

Às dez e um quarto, levei-o ao seu grupo de amigos. Segundo me contou, o espectáculo foi bom.
Hoje, sinto-lhes outra vez a falta. Após cada novo encontro fica, cada vez mais, o sentimento de uma nova separação. É disto que pouca gente se apercebe, na vida de um pai afastado.

Friday, June 24, 2005

Obrigado, por existires.

“Olá, Amor grande”.
Um abraço longo. “Parabéns, filho. Obrigado por existires”.
Fez questão em dizê-lo, “Obrigado, Pai. Parabéns para ti, também, por me aturares estes dezasseis anos”.

Recordo-me, com esta idade, cheio de ideais, sonhos e juízos apriorísticos que o meu pai, pacientemente, foi rebatendo e confrontando.

Não me lembro do que fizémos nos ano passado. Tinham passado três meses desde a “fuga das galinhas” (quando saíram de casa, sem aviso). Sei que, no fim de semana seguinte, organizámos um bolo de anos, com a minha família.

Este ano, eu estava doente, depois de ter passado um dia cheio de dores de estômago. Maldita úlcera. Ele, pouco melhor do que eu, após um jantar com o grupo de amigos, que se estendeu para além da meia-noite, por forma a celebrarem o seu aniversário no dia certo.

Saí da cama, tinha que ser, era a minha oportunidade, uma vez que a Mãe também organizara um jantar de aniversário na casa dos avós maternos. A respeitar. De resto, a regulação do poder paternal estipula que assim seja. "Sem prejuízo de outra coisa que venha a ser combinado entre os pais", claro.

O problema foi contactá-lo, porque dormira em casa de um amigo. Ah, mas conseguimos ir à fala e, dali a meia hora, encontrámo-nos.

Muita a conversa por pôr em dia. Muita calma e maturidade, por parte dele.
Pai, este gajo está a ficar homem, pá! Falámos num primeiro planeamento das férias que, este ano, terão lugar na “zona de residência”, com algumas incursões de média distância. Dos namoricos, que mudam de mês a mês, das expectativas de admissão ao trabalho de verão e … da minha vida. Ora bolas. “Namoradas?”, respirei fundo, “… sabes, não são bem namoradas, são amigas, de quem gosto muito, com quem costumo e gosto de sair, de me encontrar. Nesses momentos, não sinto a solidão. São pessoas muito importantes na minha vida. É claro que também tenho amigos”. “Isso é muito bom, Pai”. O que fará ele, quando me vir com uma "amiga"?. Adiante.
Finalmente, acordámos num bolo com a minha família, para este sábado. "Fala à tua irmã e combina com a mãe o passeio do cão, para que durmam lá em casa". Anuiu.

Findo o almoço, visita aos avós paternos. Lá lhes explicou que passara de ano lectivo, o que muito os alegrou. Prendinhas para o netinho, espanto por já estar da altura do Pai, “e nunca mais paras de crescer, rapaz”.

Já a levá-lo a casa, pigarreei, aconselhei-o a ter sempre na carteira um “anti-conceptivo”. Aqui para nós, estes moços e moças, ás vezes, perdem o estribo, principalmente naqueles dias em que se armam em adultos e provam um copinho a mais. É claro que não quer. Ora, nenhuma novidade, a desta recusa. Mas sei que ouviu e vai pensar no assunto. Quem sai aos seus ...
Despedidas? Outro abraço de gente. "Amo-te muito, fica bem". Foi assim. Um dia, talvez me despeça com um "até já", ou "até logo". Já lhe pergungei, "Quando é que arranjas uma namorada que more ao pé de mim?". Riu-se, "Yá! Dava-me jeito ir lá a casa". Pois bem.

Thursday, June 16, 2005

Dia Dez

Ao fim-de-semana, só os tolos ou os recém-chegados ao bairro, se atrevem a visitar a praia nas suas horas mais concorridas.

Ao fim-de-semana, a praia pertence, todinha, aos "estrangeiros" embarcados no Cais do Sodré.

Sobram as extremidades, mais afastadas dos túneis de acesso, com pequenos bares discretos e ajuntamentos para o surf ou o bodyboard. E ninguém quer palmilhar mais outro quilómetro sobre a areia, por vezes escaldante, depois dos dois que percorreu desde a estação de comboio até ao areal.

Avistado dali, o centro da praia, onde muito dificilmente caberia uma toalha, é um tumulto constante de sons e gentes em movimento. Como um caldeirão.

No outro dia, só houve uma novidade. A polícia, que não vestia á paisana.
Provavelmente, tratar-se-iam de filmagens para mais uma novela indigesta.

No "meu" bar, de aspecto pobre mas gostoso, deixei-me hipnotizar pelo mar, com o olhar posto num vazio de pensamentos, embalado na eterna redescoberta do jazz. Aos poucos, fui abrindo uma porta aos rostos que se desenhavam no fumegar do primeiro café. Os rostos da minha vida. Inconformado, paguei e pirei-me. Por hoje, chega.

Fim do dia, visita arejadora ao café do bairro. Oiço o nome da "minha" praia, a televisão mostra multidões de banhistas misturados com polícia, referem-se bandos e assaltos. E não percebo nada, porque eu estive lá, escutando-me na paz com que Deus me abraçou. Tivesse havido uma catástrofe e morrido pessoas, de pouco me aperceberia. Não passou, tudo, de mais um telejornal, com a habitual contradição de versões. As imagens são estáticas e confusas. Vêm-se gentes e agentes. Esta notícia foi mal contada e será rapidamente esquecida. Ainda bem que o Filhão foi passar o fim-de-semana fora.

Monday, May 30, 2005

Reencontro

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Depois do ultimo percalço, retomei o diálogo. Dando o tempo necessário para as coisas acalmarem, arrefecerem. Deixei-lhe uma mensagem. Que gostaria de estar com ele. Com o meu “amo-te”, sentido, no fim. Sou assim, quando amo, digo “amo-te!”, sem qualquer hesitação. Chamo-lhe “meu amor”, ou “amor”, quando o vejo. Abraço-o. Mesmo que, depois, nos zanguemos. À despedida, não me interessa o calor havido durante qualquer discussão, vem-me do coração, do sangue, “Amo-te muito, filho. Fica bem”. Já me vai devolvendo as palavras. “Eu também, Pai”.

Finalmente, acertámos na agenda. Jantávamos e íamos ao cinema. Depois, o cinema já não o seria, porque havia uma reunião com os amigos. Estive para anular o jantar, mas optei por não o fazer. Há lugar para o Pai e para os amigos. Ainda bem. No regresso, chegou atrasado ao encontro com eles. Confidenciou, “... sabem que fui jantar contigo e que nos podíamos demorar ...”. Como quem diz, "hoje, vão ter que esperar".

As coisas estiveram quase a dar para o torto. Primeiro, porque, mais uma vez, o que eu tinha vestido não era do seu agrado. Território marcado, “Podes dizer como gostarias de me ver vestido, mas não determinas como ou o que visto”. Ameaça de recusa e quase um regresso imediato a casa. Lá desistiu das suas exigências estéticas. Depois, queixou-se de ter eu arguido, em Tribunal, algo que nunca o poderia ser. De um ridículo e falsidade execráveis. Zanguei-me. Liguei à mãe, para que me confirmasse, na presença dele, de nunca ter eu arguido o favorecimento da relação maternal com a irmã (??), nem de o filho abusar das saídas à noite. O que andarão a falar em casa sobre o que se passa em tribunal, a um filho adolescente de 16 anos? Estranho este “mal entendido”. A ter existido, fica designado por manipulação. Suspeito que utilizam o que não se diz, para suprir problemas de autoridade maternal.

Finalmente, estávamos livres de tensões para jantar. Se gostei? Muito. O raio da matemática é que não vai ao sítio. Não gosta da matéria, diz-me. Reconhece que tem dificuldades, porque não estudou desde o princípio. Eu sei, na altura chamei-te a atenção para o acrescido nível de dificuldade desse 10º ano. Fui duro. Os obstáculos ultrapassam-se com inteligência. E que teria de optar, no que aos “gostos” respeita: “Ou gostas de passar o resto da vida a arrumar carros, ou a fazer algo de mais ambicioso, que te permita concretizar os teus sonhos e o projecto de vida”. Pois, em linha com a sua ambição.

Trocámos sonhos, realidades e angústias. O assunto da mota está a aquecer. "Que não sirva, nunca, para desobdeceres à tua Mãe. Quando não tiveres autorização para saires, por muito injustiçado que te sintas, cumpres com o que ela determinar". Vai trabalhar no verão, com crianças. Ganhar umas massas. Excelente. Ficámos de ir beber um “copo”, ao som de música ao vivo.

Queria um jantar a quatro, no dia do seu aniversário, já no próximo 23. Percebi que estava dividido, entre estar comigo, ou com a mãe. Preferia não se levantar da cama, nesse dia, para não favorecer nenhum de nós. Fiz-lhe ver que a reunião dos quatro não seria uma boa ideia, relembrando-o de que a Mãe não me fala, não me cumprimenta, e que se recusará a qualquer tipo de jantar a quatro. No que me toca, enquanto ela não alterar esse comportamento, não existe espaço para qualquer tipo de reencontro, a dois ou quatro, a não ser em ocasiões excepcionais ditadas por motivos de força maior. Ora, eu quero que, no teu dia de aniversário, te levantes feliz. Ou seja, se não puderes jantar comigo, chega-me poder dar-te um grande abraço e um beijo de aniversário. Vamos a isso. Próximo encontro? Algures no fim de semana, em regime de “navegação á vista”. Ou seja, com flexibilidade. “Amor, gostei de jantar contigo. Amo-te muito. Fica bem”. “Tu também, Pai”.

Regressei a casa com saudades dele, mais Pai. Obrigado, Filho.

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Friday, May 20, 2005

Almoço com Deus

Propôs-me um amigo, Confessionário de seu nome, um momento de reflexão, num almoço com Deus.


Imagina que Deus marcou um encontro contigo num determinado restaurante perto da tua casa. Imagina-te sentado/a ao Seu lado, a dialogar com Ele. E agora pergunto eu:

1 - Qual era a ementa que Lhe sugerias e porquê?

Serve-te do resto da minha vida, que é o que de mais precioso tenho, a seguir aos meus filhos. Sobra pouco, mas sei que esse pouco ficará em paz contigo.

2 - Que motivo teria Deus para querer almoçar contigo?

Ajudar-me na minha missão de homem, companheiro, filho, irmão, pai e amigo.

3 - Fazia-te perguntas acerca da Igreja. Que Lhe contavas?

Que a que conheço não não é aquela em que acredito, a da humildade, da tolerãncia, da solidariedade e modernidade.

4 - Dava-ta a possibilidade de te concretizar um desejo. Que pedias?

Que esteja sempre com os que mais Dele precisam.

5 - No final da refeição, pedia-te uma recordação. Que lhe oferecias?

A imagem dos meus filhos. São o que há de melhor no meu amor pela vida.

6 - Por fim, oferecias-Lhe um café com ou sem açúcar? Porquê?

Sem açúcar, simples e amargo, mas gostosamente vivo, como a minha alma.

7 - Quem pagava a conta?

Eu, agradecido.

8 - Quem vais sugerir (3 pessoas) para almoçar com Ele? E porquê?

Deixo que seja Ele a escolher, entre os que me vierem ler. Sirvam-se.

Monday, May 16, 2005

Água fria, água quente, saudades.

Tinha aulas de manhã e de tarde, no dia de aniversário. Não poderíamos almoçar juntos e o jantar estava reservado à mãe. Já tínhamos combinado, “… vamos lanchar e falar de sábado”. Certo. Nunca mais chegava a hora, fui a correr, “Já cá estou, podes descer?”. “Para quê?”. Bolas, que balde de água fria. “Olha, porque fazes anos e quero dar-te o meu beijo, um abraço, e para lancharmos. Não foi o que combinámos?”. “Mas eu não quero lanchar …”.

Perante a minha insistência, lá desceu. Raça da garota. Também não quis entrar no café, para conversarmos sentados. Preferia ficar ali, á entrada. Lá aceitou o meu beijo e, um pouco envergonhada, o meu abraço (sei a quem sais, ai sei, sei …!).

Conversámos 10 minutos, fiquei a saber que já tinha ido lanchar com a mãe, “… um lanche surpresa …”. Pois, “… mas a mãe teve-te, logo de manhã, para te dar um primeiro beijo de parabéns, vai-te ter durante toda a noite, todo o dia, todos os dias, e o nosso lanche já estava combimado …”. “… desculpa, Pai”. Bolas, apeteceu-me … chorar, gritar, correr ... . Respirei fundo, tratámos do bolo, da prendinha que ela queria, ficámos de ir jantar no sábado e, se desse, irmos ao cinema com o irmão. Fim do tempo que me fora concedido, porque queria subir.

No sábado, fui buscá-la. E como vinha bem disposta. “O Miguel diz que não vem jantar, pede para o vires buscar mais tarde para o bolo”. “Filhão, como é? … tá bem, quando regressarmos, dou-te um toque”. Quinze minutos depois, era ele, “Pai, não me venhas buscar, porque vou ver o jogo com uns amigos. Já apaguei as velas dela na terça-feira”. “Fico com pena ... mas, se é assim que tu queres … fico, mesmo, com muita pena …”. Nem me dei ao trabalho de lhe explicar que o bolo era, também, uma reunião da outra parte da família, também dele. Enfim, outro balducho de água fria. Ela, como sempre, "... pai, não ligues ...", sentindo como me doía ...

O jantar, a dois, correu muito bem. Adoro esta filha, tão solta, tão espontânea, tão sincera, tão … querida, quando está a sós comigo. Ao pé da mãe, transfigura-se. Por certo, existem traumas e medos. Preciso de ajuda nisto mas, com a tutela entregue á mãe, não tenho como abordar o assunto, a três, eu, a filha e um psicólogo.

Escolhemos a prenda, os DVD’s, fomos buscar o bolo, organizámos os dois a mesa, lá me andou ela a “arrumar” a casa. Avisei-a de que a toalha era a da “Barbie” porque, das que haviam, era a menos infantil … claro, deu-me na tola.

Passou a noite toda a chamar pelo Pai, ora para vê-la a fazer a roda da ginástica, ora para a ajudar a mudar o canal de televisão, ora para aquilo, ora … para tudo e mais alguma coisa, e eu que já não sabia o que era isso de me chamarem Pai. Pedi-lhe, “liga á tua mãe, para dormires aqui …”. Que sim, podia. Atirou-se para o meu colo, a pedir cócegas … pois seja, aqui vão elas … como já estás tão grande e pesada … quis que lhe pegasse, de pé, que a agarrasse, enquanto se fazia de morta … ora bem … e jogámos á espada com duas palhinhas.


Adormecemos os dois, a ver “filmes de adolescentes” (“Pai, não sei porquê, eu agora gosto destes …”). De manhã, de mansinho, dei-lhe uns beijinhos para se levantar … o costume, “Pai, é só mais um bocadinho …”. Bolas, eu também não quero que saias daqui. Parece que me adivinhava o pensamento, fazia tudo para atrasar a partida … e o que me custou deixá-la. Preciso de mais programas a dois, como este, só ela e eu, quero viajar contigo, descobrir coisas giras, só eu e tu, ouviste, ó miúda? Pelo menos, enquanto o teu coração não for de mais ninguém ... é que não estou, ainda, nada preparado para isso ... e talvez só daqui a 2 meses te veja, ou esteja contigo, outra vez ...

Tuesday, May 10, 2005

11, da menina

...

Alegria que morre, afunda-se numa tristeza profunda.

Pela segunda vez, não a abracei, não a beijei, como só se abraça e ama a quem se quer mais do que a própria vida, a quem se dá essa ternura infinita, este calor que arde tanto e que mata quando não é dado a outra vida.

Meu Deus, como te amo tanto, meu amor eterno, minha filha.

E recordo-te, de como nos ligámos mesmo antes de nasceres, e os silêncios se falaram de forma inaudível, de ser acusado por só ter os olhos em ti, de não te tratar pelo nome e andar sempre a falar da “menina” para aqui, e para ali.


Um dia, morri, e senti que tu, também nesse dia, morreste de mim. Fomos ao cinema, ambos tremiamos. Eu, pela perda da tua mãe. Meu Deus, como gemia em sofrimento. Tu, não me deste a mão. Percebi que te separaras e cortaste o cordão umbilical que nos ligara. Nesse memento, pela segunda vez, morri. Morro sempre que te vejo, por já não sentir a tua entrega no meu peito. Mas, às vezes, quando estamos sós e te sentas ao meu colo, sinto que somos, de novo, um só.

Meu amor, minha filha, sofro e choro de alegria, neste teu dia de aniversário. Em segredo, no meu isolado degredo, vejo-te ao longe e adoro-te. Serás sempre a minha adorável menina.

Obrigado, Deus, pelos seus 11 anos de vida.

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Wednesday, May 04, 2005

1970

Dias zero, memórias sem nexo, regresso indesejado ao Zambeze. Tete.
Os “Fiat G-91” razam a água por baixo do tabuleiro de uma ponte em construção. A travessia ainda se faz por batelão.
Morte. É do que me lembro melhor, naquele ano em que a infância se deslocou para outro mundo de confusão. Contei 10, os caixões do primeiro cortejo fúnebre que passou por volta do meio dia. Os “Unimog” e os caixões. Emboscadas e minas. À tardinha, haveriam mais. Pois, Pátria.
A cidadezinha de onde antes saía e entrava em secretas incursões, era, agora, a imagem dessa Pátria, sitiada por minas, emboscadas, de colunas militares escoltadas por aviões.
Morte, morte e morte.
E a indiferença, nos engenheiros de passagem para o Songo. Anos loucos, de morte e vida. Mais a indiferença num dia a dia de morte, a que todos fugiam. Enquanto fossem os outros a morrer, a cumprir o seu dever, estávamos bem.
Mais helicópteros “Allouette”, saídos em missão, mais os que iam na outra direcção, pintados com uma cruz. Todos sabíamos da carga, dos corpos ensanguentados, e das visitas da morte que aterravam no hospital. Encolhiam-se ombros. Que azar o meu, sempre que tinha de lá ir. Só via sangue, sangue, e o grito da morte. Morte e sangue. É do que me lembro, agora. À noite, eram as patrulhaas. E os malditos T-6, que me sobrevoavam a casa. Últimamente, até o Kaúlza nos fazia mais visitas. Os cortejos fúnebres continuavam. Um de manhã, outro á tardinha. Eram outras visitas.
Um dia embarcámos num 737. Estávamos em 71. Base aérea do Moatize, zona mineira do carvão. Na metade da frente, macas e desgraçados em gemidos. Era assim que se vivia, lado a lado com a morte de quem, por desgraça, foi empurrado para aquela guerra sem fim á vista ou, se calhar, para fazer dela uma tragédia de má recordação. Que se lixe. Era assim, a vida. Uns viviam, outros morriam, ambos desconhecidos, para sempre.

Monday, May 02, 2005

"…. E como vamos lá dar?" - coisas de blog-nic’s

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Sim, aqueles não eram, mesmo nada, os nossos terrrenos.

Claro, A EP estava como peixe na água, mas os seus afazeres profissionais impunham qu’a malta restante da organização do “blog-nic”, se desenrascasse sem ela. Aliás, a ideia do excelente sítio foi da "chefa".

Ora, em comum, tinhamos a 2ª circular … a SAR pensou no Largo da Luz como o ponto de encontro (ainda não percebi como lho ocorreu, mas a ideia revelou-se excelente) e eu relembrei-me dum tal autocarro 7-B, para o Paço do Lumiar … passando pelo antigo LNETI, pela “base aérea” (ainda não percebo porque lhe chamam assim – afinal, um quartel ou um conjunto de serviços da Força Aérea não fazem uma “base aérea”) … Pois seja. “E sabes o caminho?” … hum hum, confirmei, pensando que o caminho ainda lá estaria, só que muito mudado – afinal, há 17 anos que não passava por ali. E qual seria o problema? Aventura, “man”, aventura … "Ok, às 10:30 no Largo, tá combinado. Quando chegar, telefono". Esta hora convém-me. Faço as minhas piscininhas logo de manhã, coisa higiénica para a alma e … comezainas? Não haverá problema, compram-se umas sandwiches, umas “sem alcool”, água e … está feito … se for preciso mais, sempre estaremos no meio da civilização …

Sábado de “manhocas”, truca, às nove e meia já ia a caminho, … vamos lá prá CRIL e … bolas, na junção com o IC 19, ao lado do Pina Manique, a desgraçada da fila … está sempre lá, mas assim tão comprida … pois, foram uns acidentezecos … “SAR, como vai isso? Olha que há fila e blá blá blá”, “Ainda cá estamos, à espera da EP ...”. Sim, porque as etiquetas e a lista actualizada dos blogues e pessoas, foram produzidas pela chefa organizacional. A serem entregues ao resto do pessoal, por transbordo, algures em terras de S. Majestade.

Em chegado ao tal da Luz, bendita BP. Sandochas, cervejolas, água, café, multibanco, casa de banho … sim senhora, isto sim, é “serviço” … e lá chegou o séquito real, a rainha, a sua cunhadita e respectivas ninhadas. Siga! … bom, lá me fui lembrado do caminho e ultrapassando a confusão causada pelas novas urbanizações …


Já cá estamos. Logo, na recepção, explicámos ao que íamos e … “têm credencial?”. Não, a autorização foi dada, telefónicamente, pelo Sr. Arquitecto Tal. A funcionária achou por bem contactar os serviços internos competentes. Surge-nos a Sra. responsável pelas iniciativas de “animação”. Quase em pânico pois, explica-nos, já estar o espaço que nos foi destinado, afecto à animação teatral deste fim de semana. Pelo que “não poderia haver pic-nic”. “Isso está fora de causa”, retorquimos, referindo aguardarmos cerca de 50 pessoas, entre adultos e crianças. A nossa SAR frisou, também, que as falhas de comunicação interna entre os serviços do Museu não poderiam ser-nos imputadas. “E que tal se fossemos procurar outro espaço adequado?”. Assim o propusemos, e o fizemos. Definimos o novo "território" e ficou tudo acordado. Começou aqui o meu calvário, com a primeira subida da escadaria. Face a tão dura prova, propus uma metodologia de emergência - para mim, claro - no que se refere à recepção dos nosso pic-niqueiros. Reuniam-se pequenos grupos e, com um intervalo mais ou menos alargado (acabou por ser de cerca de 20 minutos), conduziamos as pessoas ao nosso espaço. Ora, já estava a ver a minha vidinha a andar para trás, com tanta subida de escadaria. Graças ao Poderoso, as pessoas vieram mais pró tarducho, em grupos de dois ou três, esperando que a moçanhada acordasse e saísse dos carros … tudo correu bem. Ao fim do dia, lembrei-me de 8 subidas. Eu sei que a memória já me falha mas, mesmo assim, não foi nada mau.

Ah, da próxima vez, avisaremos os competentes serviços para que o apicultor não se ponha a mexer nas abelhas, principalmente em dias de vento. Qual tribo de ciganos, deslocámo-nos 30 metros mais para baixo e … o problema passou. A partir daí, foi "socialização" (conversa e brincadeira com a miudagem - ó SAR, olha que a tua princezinha gasta muito as pernas cá do pessoal … ela é a descer … ela é a subir … ela é a querer meter-se por baixo daquele cavalo enorme … “xixa” …! Deves um jantar ao “moi” e ao marido da Claudia … assim, um cabrito assado no forno com umas batinhas). Ah, Tadinha da varã “kida” da Ana, mas que recuperou bem da picadela na mão (foi bom o conforto do pai do blogue ... quando alguém se acusar, ponho aqui o nome do dito). Bom, não se esqueçam, pic-nic é pic-nic e, desta vez, não tivemos as presença nem das moscas, nem dos mosquitos …

Ficou-me, também, a vontade de ter ficado um pouco mais com cada "blogue", prá gente conversar, pá, conversar ... e rir, pá! Os próximos organizadores poderão pensar nuns joguitos pró pessoal ... e cada um levar uma anedota valente pra contar ...

… E o folar estava excelente … sobrou … e adivinhem quem aceitou as sobras, que eram mais do que o que foi comido … ulálá … ("many thanks", papás babados do "sapinho gordo").

Monday, April 18, 2005

Em viagem ...

Gosta de dizer o que pensa, o muito mau, o viperinamente mau, ou o bom, nos dois minutos que medeiam a origem e o destino de qualquer viagem tripulada. Ou seja, no carro. Por vezes, antes da despedida, lá ficamos meia hora. Chorrilho de acusações, que oiço pacientemente e, no fim, agradeço. É importante saber o que, de bom ou de mau, lhe vai na alma. E ter muita, mas muita, paciência.

Desta vez, embarquei-o para um cineminha. O segundo econtro da semana. Ataca o "adolescente". Será em Cascais e não no Carrefour, porque "EU" estava mal vestido. Roupa de "velho", com um "pullover" "gay". "Não acho", retorqui. Tinha vergonha de que os amigos o vissem comigo. Tretas, pensei, tu tens é vergonha de que te vejam, mais essa aversão em reencontrar conhecidos da escola ao domingo. "Passamos por tua casa e vou vestir-te". Não podia ser, faltavam 15 minutos para o filme, numa viagem de 10 e fila na bilheteira. Ameaçou-me de que não via o filme. Queres que te leve para casa? Não. Dois segundos depois, "Vira aí para a casa (onde eu moro), para escolhermos outra roupa". Não dá, repeti. Na viagem, pedi-lhe para me actualizar o calendário dos novos testes. Recusou-se. Não gostei. Em chegados, pretendeu que vestisse um blusão impermeável, deveras quente para ambientes que já o são. Recusei, e despacha-te porque não temos tempo. Recusou-se, ficou junto do carro. Abalei, comprei o bilhete . Vi o filme (excelente) e, à saída, telefonei-lhe. Há uma hora que estava junto ao carro, a apanhar frio, porque já não havia nada mais para ver no centro. Podias ter ido ver televisão, numa das mesas junto aos restaurantes. Manifestei-lhe o meu agrado pelo filme, e de como lamentei a sua recusa. Entre dentes, mencionou o preço de 300 euros para um "i-pod". Que roubo, disse eu, que não, disse ele, vale o que pedem.
Já defronte à porta onde vive, uma ameaça: "Ou vendes a casa dentro de duas semanas, ou farei com que sejas obrigado a vendê-la num mês, de maneira a que fiques com nada". Não me importo, respondi e sorri. Bateu com a porta do carro, foi-se embora. Pois é, Filho, gosto muito de ti, por isso, não me magoas. Estás a precisar de um pouco mais de "estrutura", para essa birras e vontadinhas que queres impor com explosões. Cá estou eu. Já vi que terminou o teu estado de graça pascal. É pena, o meu, ainda por cá anda. Vou esperar, para to dizer, que amo-te sempre muito, e que são muitos os momentos em que tenho orgulho de ti. Por isso, o que me pedires e quando mo pedires, fá-lo num desses momentos. Um beijo, Filhão.

Friday, April 15, 2005

"Q'astões Literárgicas"

... entalado!

Gelou-se-me o sanguinho todo (que, senão o sabem, até é bem "quentucho"), todinho, quando li o "convite" da
Anninhas^. E agora? Vá de tomar uma banhoca quente, pra voltar ao real.

A minha relação com a livralhada é de ... amor e ódio. Topam? Tipo, ver um Mercedes de último modelo, a brilhar no "stand", e "É pá, c'a carripana tão gira vai ali, deixa-me lá ver o preço ... Ah, afinal, até nem tem grande piada, mesmo nenhuma ...!".

Depois, "a bem dezer", tenho dificuldade em entrar num livro "clássico". Bom, quando a capa é gira, até fico a olhar pr'ós bonecos, a pensar se "aquilo" terá alguma coisa a ver, com o que está dentro. E, se tem, já não vale apena ler, seja láo que for, porque a minha "sensibilidade" telepática já descortinou tudo.

Passada esta prova, Segue-se o "endosso", dum gajo qualquer, dizendo coisas porreiras do autor (sempre um pensador maravilhoso, o que até é bom, pró ego da gente ...), mais a sessão de "beijos e abraços", dirigidos a nomes q'a malta já conhece de longa data, e há muito que nos tratamos por "tu cá, tu lá". Pra não falar do, normalmente, acrescento da atenção tipo televisiva, "quero amandar um beijo prá minha mãe Alzira, aqui da televisão. E, pró mê pai Manel, que já faleceu, um abraço e que Deus o tenha". É comovente, fica bem. Mas não convence, aqui, o crente. Agora, fico mesmo chateado, qu'ando os gajos não dizem nem o nome do pai, nem o da mãe. "Aos meus Pais"? Qu'é isso? Tamos a brincar, ou quê? Pá, esqueceste-te do nome da mãezinha e do paizinho, ou tás com vergonha do nome deles, hã? Ó menos, podias adizer "Pá, pó casalito de velhotes porreiritos qu'a pariu aqui o melga das letras, e c'agora está aqui feito num mangas porreiro da vida, Pá!"... Assim, sim!

Finalmente, a "Introdução". ... ... Êêê lááá! .... E fico desconfiado. Já o sou, por natureza. Mas, caio sempre na esparrela. Vou ver, outra vez, a capa do livro, não vá alguém ter-se enganado, ou na compra, ou na oferta que me fez. Há que ter calma e muito cuidado. Nunca se sabe a verdadeira "natureza", por trás de tão subtil proposta ... Ainda não percebi bem, aquela dos meus colegas de escola terminal (como chamo a essas coisas universitárias), ao me oferecerem as obras completas da Playboy, neste, e último, Natal. Embrulhilho lindo (bolas, ó pessoal, eu até pensei que fossem umas garrafitas desse vinho ...), por dentro, um caixotinho de cartão, daqueles de escritório, onde vêm as folhas para impressoras e fotocopiadoras. Com uma colecção de revistinhas, por sinal bem valiosas (sim, números mais antigos, com elevada "cotação" no mercado) e cheias de coisas "porreiras". Lá esteve aquilo, ali, na árvore de Natal, ao pé da Sagrada Família, até que chegou o Santo dia. E eu, todo porreiro, por ter mais uma prendinha, vou de dizer ao resto da famelga ... "Ó pessoal, olha o qu'a m'a deu o Pai Natal! Possa, qu'é grand'e p'asada". A moçanhada nem esperou pela autorização, os avós debruçados, cheios de curiosidade, e eu, paciente, mais atrás, á espera do resultado. Estranhei o silêncio inicial, o abanar de cabeça reprovador da avózeca, o sorriso do avô, a risadinha do Filhote, a Filhota e a Sobrinhota a olharem uma para a outra e, depois, para mim, com o desprezo estampado no rosto. Pois, ó amigalhaços, obrigadinho, tá? Obrigadinho!

E onde é que íamos nesta história? Ah, pois, nisso da "Intr*#$#&%$", quero dizer, "Intr§@*++*\*?" ... isto, hoje, está difícil, mas percebem, "óraite"?
Bom, estando parcialmente acalmados os receios iniciais, após consulta do "índece", fecho um olho e começo a ler a dita com o outro. Sou poupado, nesta coisa dos olhinhos ... sempre desconfiado. Quando chego ao fim, tenho uma sensação de já não me lembrar, muito bem, do início "introdutório". Malandrice à parte, até rima com "supositório". Maldita desconfiança. Olhem, que se dane. Já tá na hora de apagar a luz. Amanhã, logo se vê, ou apago a luz e tento dormir qualquer coisita, ou apago a luz e ... fico a pensar no que o raio do livro me estava a querer dizer ... não vale a pena, fica prá manhã, hoje tenho a cabeça cheia de dois olhitos de esmeralda, que m' andam pr' áqui á' tazanar o juízo ... acho que prefiro este "livrito" ... ai, ai ... ó ... ó srs. olhitos, por aí não, tá muita escuro ...



"É pá, responde lá ao ráio das "Q'astões", pá! "

... "num" é preciso gritares. Prontes, antão tá bem ...



*Não podendo sair do Fahrenheit 451, que livro quererias ser?

... Far' o quê? Pá ... isto, assim, até parece aquela adivinha q'o pessoal da escola contava, "se não fosses funileiro, o que gostavas de ser?". Lá está um gajo, outra vez, desconfiado. Pá, a bem dizer ... não sei, não. Uma vez gramei duas horas da filme c'um nome parecido, pá. Acho que foi na esplanada da "nova" cinemateca. Quando cheguei ao fim, aqui o "assento" já não s' alevantava, porque tinha feito uma osmose com a tábua do apoio. Fora isso, aquela obra d'arte era chata à brava, acho qu'era dum "franciú" qu'a dava pelo nome de "Trufas", qu' até são umas batatas enfezadas e muita caras. Acho q' aquilo, quando foi filmado, eu tinha pr' aí 8 anos, e andava a caçar pássaros ali prós lados de Cahora Bassa. Por isso, até achei piada à lembrança da pardalada abundante, amais outra bicharada engraçada que por lá havia. Pá, mas quem foi o gajo c'a copiou o filme pró livro? Hã? Isso é roubo e aldrabice!

... hã, queres o livro prá resposta?

Bom, então, será aquele que comprei na feira de antiguidades de Oeiras (até está bem, prá idade do filme) .... ah, aqui está ...

Anónimo."Memórias Indigestas". [Colecção inacabada de contos]. Edição do Autor. [Sem data visível ou estimável].

Pois, de acordo com o alfarrabista, esta valiosa e rara obra, contém desgraças e tristezas sem fim, escritas por um, também, desgraçado, que passava as noites com dor de barriga e, vai daí, levava um caderninho pró assento, apontando suas agonias. Tenho sempre esta obra de maravilhosa arte à minha cabeceira.


*
Já alguma vez ficaste apanhadinho(a) por um personagem de ficção?

Pá, tão loucos, qu'abuso de confiança é esse, hã? ... Devassar os sonhos íntimos dum "gaijo"? Tábém. Olhem, se querem molho, aqui vai.

Sim, já me apaixonei por gente dessa. Primeiro, quando tinha 6 anitos, foi a Branca de Neve. Aos 7, foi a Bela Adormecida, aos 11, a Mulher do Superhomem, aos 15, a Brigite Bardot, aos 20, a Bo Dereck, aos 30, a Sharon Stone, aos 40, a Clauda Schiffer, aos 45, a Claudia Schifer (que querem? Com a idade, um gajo começa a fidelizar-se à marca) e ... ah, tenho que parar aqui, é? ... atão tábém ... a bem dezer, andam pr' áqui uns olhitos virtuais de esmeralda, a atazanar-me o juízo ...



*Qual foi o último livro que compraste?


Os que ofereci no Natal, e um de receitas de massas italianas, que ofereci a mim.

*Qual o último livro que leste?

Estou sempre a ler o: Martin Simons."Model Aircraft Aerodynamics". Fourth Edition.[2002? ... talvez.]
Que querem, gosto de voar ...


*Que livros estás a ler?

Para além daquele, o das massas italianas.

*Cinco livros que levarias para uma ilha

Pá, isso já não se usa. Levava o portátil, um alimentador de células foto-voltaicas eléctricas, com acesso à neti por satélite, o cartão de crédito e ... CD´s com as obras completas da minha adolescência (Stefan Zweig, o pinga amor do Balzac -bem melhor c'ó Prozac, coisas do Eça, Júlio Diniz, Hemingway, Alves Redol e muitos, muitos outros sonhadores de todos os tempos). De vez em quando, encomendava umas novidades nessas lojas virtuais, com entrega por pára-quedas, sobre a ilha.

*Três pessoas a quem vais passar este testemunho e porquê?

Pá, não sei se posso dizer, os gajos são malucos e ... lá se ia a minha credibilidade de "Papá bem comportadinho". Quanto ao porquê, olhem, porque gostava de me rir um bocado, lá naquela ilha taralhoca.

Thursday, April 14, 2005

Aos 16 dias

No dia 16 de Abril, de mil novecentos e oitenta e mesmo muitos, casámo-nos, na Igreja de Oeiras.

Não fazia questão de que o fosse pela Igreja, nem de que não o fosse. Sendo esse o desejo da Mãe, adoptei essa vontade e desejei-o, também. Deixem-me dizer-vos que, nunca, na vida, me arrependerei.

Aliás, gostava, um dia, de me casar outra vez, assim. Em o querendo, quem me amar. Mas, como em tudo, há actos que a Igreja nos concede, apenas, uma vez na vida. Uma, por força das circunstâncias. Outras, por sua e estricta vontade.

Dou, por isso, graças a Deus, por nos conceder a possibilidade de nos casarmos outra vez, mesmo sem a benção da Santa Igreja. Mas sempre, sempre, com a benção de Deus.


E, numa cerimónia por Deus abençoada, assumi, perante Ele e ela, o compromisso do “para o melhor e para o pior, até que a morte nos separe”.
Que tenciono cumprir. Porque sou crente.
Apesar desse amor jazer morto e em câmara ardente, deu frutos muito vivos e muito amados. Obrigado, Deus, por estes frutos abençoados.

Da cerimónia, lembro-me do côro afinado, e de como foi bonito, o soar do orgão. Coisas de ninharia, enquanto contive as lágrimas, pelo tempo que pude. Olhei para a Mãe, que estava como eu. Virámo-nos para o Padre, e ele, eternecidamente, sorriu. Fixámo-nos no altar, e, em silêncio, de mãos dadas, bem apertadas, deixámos as lágrimas fluir. Mais ninguém o viu. Só o sorriso do nosso Padre, que nunca mais se apagou. Nem da minha memória. Obrigado, Padre, e ainda bem que continuas connosco.

Sim, o beijo final, teve um outro significado.

Tuesday, April 12, 2005

Há dias

Em que o amor nasce connosco, e nos acorda. Fica, assim, num zum zum, à nossa volta, todo um dia santo. Ui … então nas noites de lua marafada … é um santo dia! Noutros, abala. E nem à noite nos fala. Pois, se nem dormiu em casa ...! E não pensem que vale a pena chamá-lo. Foi-se, vadio, num alvoroço de perdição, o dos gatos com cio. Mas …! Mas, outras vezes, cai-nos em cima, de repente, perdido, provindo de um dos muitos, muitos, os Céus que nos olham. Como um gato escorraçado, tonto das alturas, que se abate, já doce e cansado, de tontices reprodutivas, mesmo em cheio, no nosso colo. Sim, um homem não tem um regaço! … um regato, ainda vá. E isto, de gatos e gatas, tem muito que se lhe diga. Adiante! Adiante porque, para introdução, já basta.

E não é que a pequenina veio dizendo que ME precisa de um FAVOR? Olhei para o Céu, procurando a janela por onde me atiraram a gatinha. A chata daquela introdução, foi só para perceberem isto. Pois …

Claro! … amor grande! Bêjos, bêjos, bêjos! E do que se trata? Sendo coisa tão rara, este pedido de colaboração, há que prolongar o assunto, a questão, fazer o trabalhinho de campo, investigação, divisão por mil, em pedacinhos de sílabas e suspiros, tudo muito bem respiradinho. Vá de encher a barriguinha com coisas da filhinha, lá fui ouvindo, “Visita ao Oceanário”. Ah, está conforme, já sabia, pela reunião dos pais de turma, será por um percurso mais reservado, vedado aos normais visitantes diurnos. “Comprar uma mochila” !?… outra? “Sim, uma mais pequenina, da Eastpack”. Para levares o quê, Filhinha linda? - já perceberam, esta menina não me liga pêva, mas, sempre que puxa os cordelinhos, adivinhem quem faz de marioneta. “Só para levar poucas coisinhas, um caderno, a caneta, a carteira, o telemóvel. A dos livros é muito grande”. Lá isso, deve ser. Ai, ai, esta vozinha … Hã! Hã! Limpa a garganta! Bom … E quanto custa? - ah, Pai materialista, nunca sonhas com a poesia, não? “Custa 25 ou 27 euros”. Hã, aonde? “Pai, pra ti não há, tu não és menina, não te fica bem”. Eh! Mas eu não perguntei nada … Adiante, adiante, que o pensamento foi censurado. E as massarocas, como é? – pois, lá se foi o resto da poesia. Mas um Pai tem que se precaver no Multibanco. “Olha, Pai, já tenho 60 euros”. Xiiii, tanto? “E tenho mais trinta euros na carteira que ficou no Algarve”. Olha, não emprestas uns trocos ao Pai? “Coitado …!”. Eh. Hei-de morrer na sarjeta e a gajinha cheia de cheta. Bom, lá combinámos, lá nos encontrámos. Qué que vamos pestiscar, ó … coisinha nhinhinhinhica? “Paíííí, fala ben-em, olha que ôô-vem …”. Grrrrr! Quando eras pequenina, fazias um sorrisão lindo, sempre que te oferecia estas boquinhas, asssim … estás a ver? ”Paííí! Estão a vê-êr …” Grrrr! Que desaprovador! Tanta inocência perdida … “E já lanchei. Tenho que voltar à hora do jantar, senão a mãe zanga-se”. O respeitinho é muito bom. A que hora é o jantar? “Que horas são?” Não tens relógio? “Não trouxe””. Fiquemos por aí. Percebido, já sei quem é o Cuco da noite. Se houver atrasos, cá estão os costados.
Estás a precisar de cortar o cabelo … “Vou cortar no fim do mês, às escadinhas, e fazer franjinha como a Britney Spears”. Sobressalto, o meu. Cada vez te pareces mais com a Mãe. Assim, com esse plano estético, ainda mais o ficas. Paciência, há fardos que se carregam, até ao fim da vida. “Olha Pai, o relógio que a avó me vai oferecer pelos anos!”. Então? Não era o DVD da Britney? “Não porque o relógio já custa 40 euros”. “Tu podias-me oferecer os outro 4 (DVD’s) que me faltam”. Pois, são só pr’ áí oitenta euros. Bom, por onde começamos? Ah, sim, Sport Zone. Desgostou da mercadoria, a que estava à vista, das outras marcas. As da Eastpack deviam estar escondidas. Procurámos e … nada. Nada na zona das mochilas, bem se vê. A rapariga estava amargurada. Péra lá, vamos perguntar à menina. Cois’ e tal, que estavam ali, mais à frente, por baixo das escadas. Que raiva! E, azar dos azares. A miudagem gosta toda da mesma coisa. Azul escuro? Em nenhures. “Pai, vamos à Ericeira”. Aonde? Esses malandros são careiros … ai não? Já vais ver…! O preço, até era o mesmo. “Vês Pai, não te disse?”. Pois, a idade, já não é um posto – cai na real, milhafre, cai na real …! Mas, em azul escuro, também nada de nada. Vá de regressar à origem. Vasculhou, vasculhou, punha ao ombro, foi-se ver ao espelho, ora de lado, ora de frente. Eu, carregado com a mercadoria, sempre atrás. Tipo “Preto da Casa Africana”. O diabo da rapariga não se decidia. Estava mais para o desistir do que para o investir. Leia-se, comprar. Achei por bem intervir. Não quero qu’a minha piquena saia daqui a chorar. Olha, porque não levas aquela mais escura, que até é parecida? Mas não, não dava bem com a “toilette” azul escuro. “Pai, se fosses tu, qual é que levavas?”. Ena, tá a puxar-me prá guerra. Concentra-te, ou isto sai-te caro. Gosto muito da azul clara. Fica-te muito bem e é mais alegre. É certo que se suja mais. Mas é mais bonita. É mesmo linda. Concordou. Respira fundo, mancebo, hoje foste aceite em coisas de menina. Ia durando pouco, o alívio. Ela voltou a pôr a mochila no expositor. Antes que tivesse tempo de me assustar, tirou outra, da mesma côr, de onde estava mais escondida. “Foi menos mexida”. Explicou. Ena, a minha gajinha está mais ensinada.
Caixa com eles, porque a hora já vai adiantada. “Espera aí um bocadinho”, deixando-me pendurado à boca da caixa. Zona de bonés. Trouxe-me uns quantos, perguntando-me de qual mais gostava. Do cinzento claro, ficas menos escura. Mais uma sessão de experimentação. Ficou-se por um cinzento claro azulado. De facto, era o que lhe ficava melhor. E quando já julgava estar tudo acabado, lá vem outro “Espera mais um bocadinho”. Desta vez, foi rápido. Uma carteirinha para pôr as “massas”. Feita a conta, apreciei a minha filhota a pagar na caixa. Concentração de bancária. Ó pa ele, quem me vai tirar, hoje, este sorriso? “Pai, ofereces-me um bloco de capa rija?". Certo, supermercado com eles, paga-se e toca a andar. Rais partam as horas. Quero lá saber! Amôrzinha, o pai vai ali comer qualquer coisita porque não tem jantar feito. Acompanhas-me? E assim foi. Conversas de excitação. Britney pr’ áli, mais Britney pr’áqui, pois, mas essas calças abaixo do umbigo, rés vés ao que a gente sabe, mesmo ali, a um centímetro de onde muito começa e acaba, gosto de vê-las nas “mais velhinhas”. Sim, para “essas” calças, talvez seja melhor a compreensão Maternal. E vamos embora qu’ainda sou preso. Ah, finalmente chegámos à parte mais interessante. “Muito obrigado Pai por teres vindo comigo”. Não estava á espera. A mais os bêjos, daqueles qu’ ê gosto muito. Lá foi, toda contente. E eu? Como é que saio daqui, assim derretido? Hã?


Terça-Feira, 5 de Abril de 2005

Monday, March 28, 2005

Efeméride

23, de Março, contados. “Pai, não queres ir ao cinema? Mas tens de me vir buscar ao CNG”. Ouvi vozes, mulheres, pareceram-me familiares. “Oi, isso é na Parede? E ver o quê?”. “O ring dois”. Mais vozes. “Quem está aí?”, “Estou na casa da C”, “Quem está a falar?”, “É a outra C”. Chegado ao CNG, “Olha, já cheguei, estou aqui, do lado esquerdo”. “Agora, sobes a rampa do Plus e esperas por mim”. Ah, não era bem no CNG. Voltas e mais voltas, lá estava ele, com uma mocinha, no jardim. “Então, quem era?”. Pois, a C. “E quem mais lá estava?”. “As Cês, a P e eu”. Três para um, pensei. Arrisquei, “Isso não está um bocado … desigual?”, “Não, tá-se bem”. Hum, tenho de conversar com este bandido, três gajas e um gajo, pode dar para o torto. Há que ter calma, por elas e, por ele. Na ida, perguntou-me se EU queria, MESMO, ir ver o ring dois, ou se preferia outro filme. “EU? Eu vejo o que tu vires”. “Tenho medo”. “E então, isso é sim, ou não?”. “Sim, mas tenho medo”. "Também eu, mas vejo". Dia negro, filme negro, pensei. Vou acabá-lo com o Filhão. Ironias. Fui jantar, quis estar bem disposto e, ele, acompanhou-me, “Comi na casa da C, a mãe dela deixou-nos muitas tartes e bolos. Estou cheio”. E falámos. Falou muito, dele. Fiquei a saber dos amigos, das amigas, da reunião de pais havida, “Bolas, porque não me avisaste?”, “Pai, pus o papel no frigorífico para a Mãe ver e, esqueci-me”. Queixou-se da injustiça com que foi tratado. De facto, a média dos testes apontariam para notas muito mais altas do que as que teve. Mau, e o que te disse a Mãe, depois da reunião? “Que os professores se queixam, ainda, do comportamento”. “Bolas, Filho, passaste noites a estudar para te darem cabo das notas pelo comportamento?”. Pois, este meu Filhão sempre apresentou histórias cheias de omissões. Fomos dar uma volta, faltavam quase duas horas. “Viste pai, viste?”, “O quê?”, “Não olhes”. Disfarçadamente, tirou e pôs, de novo, a carteira no bolso, puxando as calças mais para baixo, boxers bem à vista, camisola levantada, está louco, pensei. De repente, gritinhos excitados, “está a mostrar, está a mostar”, diziam as duas, apontando-lhe o dedo. “Não te disse, Pai, não te disse?”. Agora percebo, porque é que queres boxers áquele preço. Filme negro, jantar desperdiçado no medo. Saltávamos os dois, a cada susto. A rapariga, ao meu lado, saltava para o colo do namorado. Achei a ideia interessante. Isto, de ver filmes de terror, com uma namorada. Esquece, deve ser das más influências, más influências. Vendo bem, tenho que rever a minha "política", no que respeita às boxers. No fim, ao deixá-lo em casa, avisou-me de que não se iria deitar cedo. Pelo medo. Eu, também não pus o carro na garagem. Já me bastava a difícil digestão. Deitado, preocupei-me com as companhias do meu Filho. Mais crescidos, filhos de pais divorciados, com carro e mesadas chorudas. Dá que pensar.

Wednesday, March 23, 2005

Um

Ano. Nove e meia, noite, "Pai, ó paiiii .....", ouvi-o, um lamento, suspirado, com o paiii a morrer, decrescendo, devagarinho, quase choro, "O que se passa, Filho?", "Ó paiiii ....", "... promete-me, pai", "O que se passa, porque estás assim, o que aconteceu?", "Pai, promete-me que não fazes nenuma asneira, quando chegares a casa ...", "Claro que não filho, mas porquê?", "Pai, só te peço para não fazeres nenuma asneira ...", "Ó filho, olha, não te preocupes, estou a chegar, falamos do que te preocupa, tá?", "Tá, paiii ...". Ando mais depressa, o que terá acontecido, logo hoje, que deixei o carro à Mãe, malditos autocarros, nunca acertam com o combóio. Porta na chave, silêncio, penso, jantam na Avó da Mãe, estranho, Tommy ... Tommy?, o cão, devia estar na porta, maluco, à minha espera, ladrado, com o brinquedo, mas não está, acendo luzes, quarto dela, parece tudo bem, não, mais vazio, a televisão, armários, vazios, armários corredor, vazios, Dela, no nosso quarto, vazios, mais, Dela, não há a arca, corro para o dele, sem computador, sem a televisão, sem almofada na cama, sem a roupa onde a guardava, na sala, não há aparelhagem, faqueiro, o serviço VA, menos copos, corro para o nosso quarto, a fotografia dele, quando nasceu, em cima da mãe, não há, sótão, secretária vazia, sem computador, impressora, ou scanner, corro, telefono, "M, M, onde estão, diz-me, onde estão?", "....", "Filho, onde estão?", "... noutra casa", "mas aonde, qual casa?", "... numa que a Mãe alugou", "onde fica, onde está?", "... Pai, não posso dizer, a Mãe diz que te enviou um e-mail e a advogada dela mandou um fax à tua", "Filho, saí às sete e não recebi nenhum e-mail, a minha advogada também não me telefonou", "Pai, não posso dizer", telefono à mãe, não me atende, a Filha também não, advogada, Dra., aconteceu, recebeu, o que faço, sim, não recebeu, eu também não, polícia, participação, corri, fui, participei, que não fazem nada, é coisa de casais, para tribunais, está bem, insisto, quero participação, está bem, nada fazem, mais, volto, peço testemunhas, testemunham, o vazio, deles, na casa, chaves do areeiro, mudem o canhão, meia noite, Filhos, vida, casa, roubo! Morro. Um ano, depois, desapareceram, hoje, como se fosse ontem. Adeus, Filhos ...!

Tuesday, March 22, 2005

Jogos

Entraram e fitaram-me. De alto, a baixo, olhar desconfiado, olhares cruzados. Avaliaram-me. Pequerruchos, ainda, eram colegas do Filhão, quando entrou para o quinto ano, combinações e convites, primeira visita ao nosso palácio. Eu, anfitreão, "Então, pessoal, quem são vocêzes?". Apertos de mão, nomes de identificação, fui percebendo "Rafa, Guilherme, Diogo ...". No ir e vir à casa de banho, paravam, fitavam-me, avaliavam-me, com desconfiança, seguiam. Brincaram, falaram, a pequerrucha não se fez rogada, introduziu-se no quarto, mostrou a sua graça, gargalhadas, gargalhadas, ele queixava-se, "Ó Pai, tira daqui a Menina", vá, sai daí, filha, mas ela voltava, abriu o livro da asneirada, atirava-se para cima deles, os outros riam, "He, he, he, a tua irmã é maluca". Devia estar, devia, tanta excitação injustificada nesta visita ao irmão. Até parece que não sabia o que eram rapazes. Às tantas, livraram-se dela, depois da jogatina, Playstation, já ve vê, foram às bicicletas, foi o cão, foram e vieram, até que, depois de muita conversa, veio o Rafa, mais os restantes, assim, de chofre, "Foi o Sr. que jogou basquete, com o Michael Jordan?". Silêncio, pesado, recupero o fôlego, olho para o Filhão, que me suplicava com os olhos uma resposta afirmativa. Tentei ajudá-lo, dentro do possível, "Ehhhhh, ahhhhh, isso ... isso ... êêê ... contei-lhe eu e, se calhar, ele não percebeu bem. Foi assim, onde eu jogava, apareceu o Michael Jordan, era verão, ele estava de férias e treinou connosco. Quando jogámos, fiz parte da equipa dele, mas foi em treino, com o meu clube, em Portugal, não foi na equipa verdadeira dele, os Chicago Bulls". "Ahhhh, bem me parecia", dizia o Rafa, enquanto os outros me fitavam e sorriam, trocistas. "Como nunca o vi nos jogos da NBA, pela televisão ...", outra vez, o Rafa. Este gajo, este gajo, já ... é muito espertalhão, comentei, cá para os meus botões. Ao jantar, inquérito cerrado, que raio de mentira ele inventara, para quê, aquela confusão? Como se eu, também, já não o soubesse. Lá me explicou, coisas de garotos, "o meu pai já fez isto", "e o meu já fez mais aquilo", "mas o meu ainda fez mais aquilo do que aquilo", por aí adiante. Ele, lembrou-se de inventar um Pai, jogador profissional, no campeonato norte-americano de basquetebol. Acabou o jantar com um semblante de preocupação, pelo gozo de que seria alvo quando o resto do grupo soubesse. Criticou-me, porque eu, deveria ter dito que sim, afinal, todos mentiram. "Ó filho, da próxima vez, que inventares alguma coisa, ao menos conta-me". Na segunda feira seguinte, ao jantar, lá lhe arranquei o que se passara na escola, depois da minha desmistificação. O Rafa, porta voz e líder, disse ao resto do grupo que o Filhão não mentira mas, fora enganado, pelo Pai, numa história mal contada, de um jogo de basquete com o Michael Jordan. Desgraçados duma figa, murmurei. Já dizia o meu pai, quem se mete com gatos, sai arranhado, quem se mete com putos, sai borrado.

Sunday, March 20, 2005

DiaP

, de Pai. Ontem. Recebi dois Filhos bem dispostos, um marcador de páginas para livros, e um desenho com dois poemas. Ela, concebeu-o, ele, escreveu-o. Aproveitei-me. Mais abraços e beijos de agradecimento. Muitos. Eles sabem a importância que dou a estas coisas. Falámos do filme que iríamos ver, acordámos na rapariga de um milhão de dólares. Almoço? na Pizza Hut. Entretanto, ordenaram-me que fechasse mais o impermeável, porque não se veste uma t-shirt amarela com calças azuis. “Eh, … desde quando?”, “Desde que eu te digo”, “Mas eu gosto muito do amarelo em dias mais quentes ….”, “Não se usa amarelo com o azul …”. Cada vez me espanto mais com estas mudanças de gosto dos Filhotes. Pois seja, mas olhem que, quando formos almoçar, vou tirar o impermeável. “Sentado, não se vê”. Conversámos, sobre tudo e sobre a Pizza Hut. Expliquei à filhota que, quando o mano era pequenino, nós fazíamos férias em Setembro e, até mesmo, em Outubro. Nessa altura, íamos, muitas vezes, à Pizza Hut de Albufeira. E que sim, já então se podiam encomendar pizzas para casa. O que fazíamos, quando a fila de espera era grande. E que não, não tinham rapazes de mota para as entregar. Do filme, tive pena do fim. Trocámos impressões sobre o assunto, eu sou contra aquela opção, e contra a insensatez de se querer ganhar no jogo da vida, custe o que custar, de forma suicida. Dei-me como exemplo, mais ao meu joelho, prematuramente acabado. O Filhote discordou, seria uma questão de sorte. À noite, depois do jantar, pediram-me para alugarem DVD’s. Foram, quase, sesssões contínuas. Mas, antes, fomos ver os “meus” Avós, que eu também tenho Pai e Mãe. Já em casa, durante o segundo filme, estive por várias vezes a “virar-me para o outro lado”, mas eles não me deixavam. Dei por a filhota acordar-me às três e meia da manhã, pedindo-me para a acompanhar ao seu quarto. Foi a primeira vez, desde que me “desapareceu” de casa, há quase um ano, que dormiu no seu quarto. Depois, não consegui pregar olho. Fiquei-me, saboreando o respirar deles, olhando-os, ora a um, ora a outro. Às onze tocou o telemóvel dele. Era a Mãe, que se despachassem, porque iam almoçar a casa da outra Avó. Fui atrasando a saída, “acordem, mas devagarinho, ou ficam mal dispostos”. Assim fizeram, levantaram-se às onze e meia, cantarolando, vestiram-se, “Porque não tomam banho?”, “Não trouxemos roupa lavada”. Deixei-os na Mãe e, ao contrário do que gostaria, não fiquei saciado. Que dôr, tão profunda, que se acumula, em cada separação. Não fiquei bem, nem quis fazer mais nada, durante o resto do dia. Declinei o convite de amigos, porque queria pensar neles, em mim e na na minha vida de Pai. Algures, na televisão, referiam que um Pai divorciado, em média, não estava com os filhos mais do que 4 dias por mês. Eu, se incluir as férias, ao contabilizar as horas em que estou com os meus, concluí que 4 dias é formidável. Gostava muito de os ter comigo, pelo menos, dia sim, dia não. Mais uma vez, agarrei-me à lembrança que me foi oferecida neste dia de Pai. E àquele postalzinho com um desenho e dois poemas. Que, cuidadosamente, vou emoldurar. Obrigado, Filhos.

Domingo, 20 de Março de 2005

Friday, March 18, 2005

Play-back

Cassete novinha em folha. Tudo instalado para mais uma "première", último lançamento, já disponível no supermercado. Malvado do monstro, que ficou com a filha do lenhador, aprisionada no seu castelo. Entre os dois, a filha do outro e o monstro, uma paixão desenvolve-se. Os aldeões, temendo espíritos malignos, atacam o castelo e ferem-no de morte. Um beijo de amôr, da môça, quando o desgraçado já está moribundo, desfaz o feitiço e, o nosso monstro feio, transforma-se num belíssimo príncipe. De repente, entre a nossa "plateia", irrompe um choro sem fim. E Ele chora, chora, chora, ó Filho, o que foi, o que foi amôr, será que se assustou com o monstro? "Tenho pena do monstro .... Quero o monstro ...". "Então, mas ele agora é aquele prínicipe bonito e, por causa do amôr da filha do lhenhador, vai-se casar com ela ...". "Não quero o príncipe, quero o monstro, quero o monstro ...". Era a cassete da "Bela e o Monstro". Srs. da Disney, onde se apresentam as reclamações?

Páscoa

Agora, diz que é muito tempo. Antes de ontem, "Yá, isso era mesmo bom". Combinei tudo, com a prima E, marquei dias de férias e, alegremente, disse-lhes disse que iam passar uma semana ao Algarve. Ele, agora, vem-me com um "Não sei, é muito tempo, depois falamos". Óóóóó chefe, espera lá, do outro lado precisam, já, de uma resposta, para organizarem a vida deles. Têm que me dizer se sim, ou não. "Pai, não sei ...". Ah, mas eu sei. Antigamente, julgava que era aquela indecisão exasperante dele, quando comprávamos umas calças, sapatos, boxers, bicicleta, berlindes, tazos, etc. "Atão pá, qual é que queres?". "Pai, não sei", mas espera, "É Sim, ou Não? Ninguém te está a obrigar a comprares seja o que fôr". Isto, nas compras. Mas, quando mo diz, a propósito de um compromisso já assumido, significa que anda a combinar qualquer outra coisa com mais alguém e, só depois, caso essa tal combinação com "mais algúem" falhar, me dirá, "Então Pai, não me podes vir buscar?". Leva um não e, arma-se em vítima. Vinga-se, depois, nas visitas (que, de qualquer forma, já só existem no papel), desliga-me o telefone e, por aí adiante. É esta falta de honestidade que me põe fora do sério. Já lhe fiz saber quanta cobardia e ausência de caracer representava este jogo duplo, agravado por não assumir dos compromissos já assumidos, sem a corajem de olhar, nos olhos, nem apresentar desculpas, a quem ofendeu. É sacanice, bem entendido. Bom, prazo limite, hoje ao fim da tarde. Decide-te. Desta vez, bêjos. Eu vou! À minha vida! Sim, chateado, magoado, mas vou! Bom, vamos lá a ver se a tua irmã também não desiste. Se assim fôr, paciência. Pelo sim, pelo não, telefono à minha "Mãezolas", pode ser que queira ir dar uma volta e ver a irmã dela. Ao menos, terei alguém que me ature. Olha, vê o lado positivo, até sai mais barato e vou desassogar as minhas priminhas queridas! Prima E, desculpa lá, desencaminhar-te as meninas, mas a mocitude conhece melhor os cantinhos mais "fixes". Cantinhos de Faro. Yá, tá-se bem! Se calhar, ainda encontro a "outra" mulher da minha vida, se existir mais alguma, e até constituo outra família, digo adeus á antiga. Ná ... não acredito ... apesar de todos termos o direito à felicidade e a outra oportunidade.

P.S.
Como podem ver fiquei, especialmente, muito bem disposto. Ai mãe, agarra-me as mãos e ata-me os pés, senão dou cabo de alguém ...

Thursday, March 17, 2005

Estranhezas

"Beijão Pai, então, vamos?", "O quê?", "Como disseste, ontem", "Ah, ao cinema, mas isso era ontem, filho ... Olha, pronto, vamos hoje. Ao Constantin, certo?". "Sim, vamos a esse. Podes vir-me buscar á praia?". "É pá, a que horas?". "Às cinco?". "Ó filho, não dá, tinha que sair do trabalho às quatro, isso é impossível, só por uma grande urgência ... mas porque é que queres que te vá buscar á praia?". "Tou com um bocado de febre". "Então, porque vais à praia? Nem é aconselhável ...". "Também não me está a apetecer muito ir á praia, olha, não vou ...". "Fazemos assim: quando chegar ao pé de ti, telefono-te". "Yá Pai, tá-se bem, beijão!". Lá nos encontrámos, à porta da escola. Dirijo-me ao Oeiras Parque, e ele ..."Pai, onde vais?", "Ao cinema, não é?", "Não, não quero ir já, quero primeiro ir comer lá ao pe de ti ...", "Mas, assim, esgotam-se os bilhetes", "Pai, não quero! Não quero! Volta para trás!", respondeu, já agressivo. Vou aprendendo a conhecer-lhe esta agressividade, como associada a um problema qualquer, que lhe tenho, sempre, de adivinhar. "Pronto, tá bem, mas olha, é por causa da febre? Não te sentes bem?". "Sim, tenho medo de esperar muito tempo, até que o filme comece". Planos alterados. "Olha, e que tal, se fôssemos comer qualquer coisa, ali ao "espanhol, e alugássemos uns dvd's para vêr em casa?". "Yá, é isso, boa ideia". Telefona-lhe a mãe, zangada, por ele não ter passado por casa, para passear o cão. De tão zangada, que lhe ouvia a voz pelo telemóvel. "Mãezolas, já te tinha dito que ia sair com o pai, depois de sair, à tarde, da escola, e não podia ir passear o cão". Eu, fui-lhe dizendo, em voz baixa, "Vê lá se queres que volte para trás ...". Fez-me um gesto para seguir em frente. "Pois, mãe, tu também nunca ouves tudo, disse-te isso no elevador ...". Bérébébéu, Bérébébeu, "Ó mãe, se quiseres, depois falamos melhor". Comemos, conversámos, como foi o outro fim de semana, o que tens feito, "E tu, o que tens feito, para além de trabalhar?". Engoli em seco. "Olha, trabalhar é uma aventura diária, de onde nunca sabemos se saímos vimos ou mortos. É como nesse teu jogo do SOF (Soldier of Fortune)". E que, para além disso, tinha ido à piscina, visitado amigos, publicado mais fotos no site da família, ido jantar com os padrinhos da Carolina, enfim, uma mão cheia de nadas. "É pá, é verdade, continuo à espera que a prima E me diga qualquer coisa sobre a ida ao Algarve". "Yá, isso era mesmo bom". As notas dele estão a subir, recuperou as "negas" para positivas, excepto na Matemática. Alugámos os filmecos, pacotes de snacks para a sessão, saltos no sofá, porque aquilo era de "suspense", "Yá Pai, gostaste?", "Yá, foi fixe". Pelos intervalos, perguntava-lhe se não queria nada para a gripe. "Não, obrigado, em casa eu tomo". Em casa? Bom, isto não é uma pensão, mas tábém. No fim do segundo filme, apesar de, ainda, haver um terceiro, "Vá, Filhote, horas de casinha", "Sim, tens razão". Lá nos despedimos, em paz e beijos, "Não te esqueças, 19 de Março é o dia do Pai, vão almoçar comigo, que tal dormirem por lá?". "Pai, se pudermos, dormimos". Pôssa, mas que bocado tão gostozão.

Decisões

Definitivas, do gajinho que, estava a ficar grande e comprido. Quando vinha para a nossa cama, eu e a Mãe tinhamos que nos ajeitar, ou seja, dormir de lado, cada uma para o seu canto, à beirinha da cama, porque sua "Senhoria" se esparramava todo, atravessado, de lado a lado, ora com a cabeça encostada à mãe e as pernas em cima de mim, ou ao contrário. Ainda por cima, ressonava. Pois bem, conferência paternal, para analisar a situação. E foi assim. A meio daquela noite, lá veio ele, "escalando" o nosso leito nupcial. Desta vez, eu e a Mãe, deixámos-lhe apenas um bocadinho, no meio da cama, para ele se anichar. E fomos apertando, devagarinho, apesar de ele nos tentar empurrar. Sentou-se, então, o gajinho, chucha para fora, ouvindo-se ... "Chêa pa lá", bem entendido, "Chêga para lá". "Ó filho, não posso, tu estás muito grande, já és um menino muito grande, há menos espaço para caberes aqui". Voltou a deitar-se e, daí a pouco, sentou-se, "Quéo domi", "Vá lá, deita-te". Deitou-se. À terceira, de novo se sentou, esteve assim um bocado, escalou a descida da cama e, ala, para o quarto, o dele, onde o fomos encontrar, pela manhã, ainda a dormir, com aquela cara de anjinho. A coisa repetiu-se até que, raramente, ao nosso quarto voltou.

Quinta, 17 de Março de 2005

Wednesday, March 16, 2005

Simplicidades

Primeiro, ele, quando passou a dormir no seu próprio quarto, na caminha de grades. De noite, se acordava, chamáva-nos. Aos fins de semana, não havia melhor despertador madrugador. "Ó Mãããããeeeeeeee!" Tadita, ia eu buscá-lo, se acordava primeiro. Pois, para o nosso quarto, podia ser que adormecesse outra vez. Mas, uma noite, ninguém o ouviu. De repente, um BUM! A Mãe saltou da cama, eu, atrás dela. Ele, num choro grave, estridente, que lhe conhecíamos quando se aleijava a sério. Ao tentar sair sózinho, por cima da grade, catrapumba, até os fios da carpete lhe marcaram a testa. Primeira lição, com a altura da grade da cama, por onde saía, que foi, quase toda, rebaixada. Daí em diante, passou a sair sózinho, vinha ter connosco e nunca chocou numa parede, apesar da escuridão.

Depois, ela, quando passou a dormir no mesmo quarto, o dele. "Ó Pááááíiiiiiiiii, Ó Mãããããeeeeeeeeeeee". Lá repetia a ladainha até que o irmão, ensonado, zangado, "Ó Pai! Ó Mãe! Não ouvem a miúda?". Por causa de um copo de água. Depois, ela deitava-se ou, então, com aquela vózinha docinha, "ó Pai, posso ir para a tua caminha?. Pois, claro que sim. Ai, ai ...

Quarta, 16 de Março de 2005

Irmandades

Vou ter uma gatinha. Mas, calma, calma aí! É só emprestada, por uma semana. A manucha quer ir arejar, atirar-se, mais a família, por essa Europa fora e, fez-me a proposta. Como é que eu queria, ir viver para a casa da Zininha, ou ela para a minha? Eu, uma semana, fora da minha tumba? Lá se me iam os dentes de Drácula ... "Ó B, trazes, mas é, a gatinha". Agora, há que ver a história do caixote de areia e, combinar qualquer coisa com a Filhinha. As gatinhas dão muito, muito trabalho ... é precisa muita ajuda ... olá, se é ...

Quarta, 16 de Março de 2005

Senilidade

"Tenho aulas". Bem tento. Ela, zanga-se, mesmo. Ele, também. Diabos, eu bem os tento decorar. Antes de sair de casa, vou ao frigorífico, onde está tudo pendurado. Ora bem, que disciplinas vamos ter hoje? Hum ... hum ... Ele, aquilo, Ela, isto, "Ó Pai, eu tenho educação física, às quartas de manhã ...". Ah, então era por isso que o fixo tocava ... tocava ..., ainda se o cachorro atendesse a chamada ... Com Ele, ainda é mais complicado. Há, ali, aulas de apoio com que ainda não afinei .... Ontem, à tarde, aceitou-me a chamada, estava nas aulas e, sem falar, deixou o têlêlê ligado, para eu aprender, também, um bocado. Por SMS, enviei-lhe um beijo, outro abraço, e um P.S., esclarecendo que curti à brava aquela aula. Só não percebi do que era. Cheguei a pensar que estivesse no bar. Trovões e Raios! Aulas do Diabo! Bom, acalma-te, nem é preciso, lá me vem a vozinha parvinha de melado, "ó filhilhinha quiduchinha, como tá tu, hoje?", "tou bem pai, já não tenho nada, mesmo nada. Hoje, na ginástica, não fiquei cansada". "Quiduchinha, meu amôr, vamu comê uma torradinha quando chegares a casa?". "Pai, já combinei, depois das aulas vou a casa da Marga". Trovões e Raios! Esta aula não vem no horário!

Quarta, 16 de Março de 2005

Imaginação

A minha. Ou de como seria. Que o meu colega Vê vai ter gémeos. Ou melhor, vai ser pai de gémeos, entenda-se. Com os três que já existem, farão cinco. Estado de choque, quando soube da notícia. Nervoso miudinho, o dele, que os meninos (ah, pois, no total, serão cinco malteses) já estão para nascer. Contas à vida. Cinco cadeirinhas. Bagagem? "Logo se vê". Como quem não quer a coisa, ou não saber o que lhe dizer, atrevi-me, "e a menina?". Vê lá, Vê, não me batas, tá? Biberons? É prático, ele. Farão como com o último. Habituado a ele frio. Tenho arrepios, ao pensar no frio. "Não sei, não ..." retorqui. Pois, "mas o da mãe também não é quente", esclareceu. O pior, serão as papas. "Logo se vê, logo se vê. É tudo uma questão de organização", compenetra-se o Vê. Força, Vê, só não percebo esta minha imaginação, de como seria, mais dois, depois dos dois, os meus. Ah, percebo-te, Vê, só de imaginar, sinto o estômago frio, as mãos a suar.

Quarta, 16 de Março de 2005

Monday, March 14, 2005

Doente

Apanhou frio, este fim de semana. Hoje, de manhã, estava com febre. Faltou à escola. "Pai, já estou melhor", ah, filha, com essa vozinha, a este Pai ainda não enganas. Há duas semanas, também esteve de cama. Já começa a ser muita cama. Nunca lidei bem com o sofrimento dos filhos em doenças. Pai "maricas" que, ao segundo dia de febre, diz adeus a tudo e hospital com eles. Que é muito cedo. Que se lixe, não sou médico, sou temente. O SAP fechou às 19:00? E então, não há um hospital? Ai não é urgente? Uma criança é sempre urgente. Não, não quero médicos cá a casa. Se é preciso algum exame, é lá que o fazem. E quanto mais depressa se acabar com a febre, menos o risco das hemorragias, por causa da ausência do factor de Willibrandt. Hoje, a Filhota está doente. Gostava de poder estar á sua cabeceira, dar-lhe um beijinho, pôr-lhe os lábios na testa quente. Fazer-lhe festinhas, levar-lhe água, estar presente. Comprar-lhe um presente.

Dores

Ainda hoje me isolo, e choro, quando me lembro da morte do primeiro filhinho dos padrinhos do meu filho. Pois, os homens não choram, às vezes. Considero-me uma pessoa de Fé, mas a morte daquele menino fez-me sentir fundo a dôr dilacerante e a perda dum pai, daqueles pais, do seu desespero, que senti como meu. Hoje, têm mais três, todos de boa saúde, três terríveis gatos malteses. Mas nada me faz esquecer aquele rapaz com quase um aninho. Hoje, teria a idade do meu, apenas um bocadinho mais novo. Naquele dia, quando cheguei a casa, abracei muito o meu filho, e agradeci a Deus por mo ter permitido. Obrigado. Talvez seja por isso que, depois de muito zangado, às vezes, irado, lhe desculpo tudo, me preparo, outra vez, para o que der e vier, e até, mesmo, para o próximo insulto, que vou encarar calmo e duro.

Segunda, 14 de Março de 2005

Chegará?

O ZL e a E. Ela, tinha sido nossa (minha e da Mãe) colega de faculdade. Gosto deste “gajo”, o ZL. Fico a conversar com ele, durante horas. Conversas de serrar presunto, com gosto. Coisas de trabalho, das rasteiras e sacanices que a vida profissional nos prega. Ah, e rimo-nos dos politicos, dos ordenados de muitos milhares de euros, mais alcavalas e mais carro de empresa, nos tachos que alguns arranjam. Sempre com um humor que, de tão corrosivo, até avariámos o Metro, na última vez em que nos encontrámos. O que, também, foi motivo de galhofa, contra a qualidade dos serviços de transportes públicos a que temos de recorrer. Galhofa contagiada aos restantes “desgraçados” que, connosco, ficaram encurralados. E adoro conhecer-lhe as aventuras, quando vai de férias, mais a famelga, para esses destinos exóticos. Ele é vela, pesca, todo um mundo de coisas engraçadíssimas. Aliás, o ZL é engraçadíssimo. E os filhos, os dele, já vão alinhando em algumas das aventuras (destemidas … destemidas) deste pai bem disposto. Um dia, já eu tinha o Meu, e a planearmos ter a “Minha”. Ele, já tinha os dois, um e uma. Mas, havia uma dúvida de pai que me assaltava. Nesse dia, ao sairmos do combóio, ele deu-me uma boleia, foi buscar um à escola e, a pequenina, aos pais, gente amorosa. Afinal, ele tem a quem sair. Na viagem, perguntei-lhe, “ZL, como é, isso de ter dois, como é que o amôr chega para todos?”. Ele sorriu-se, com aquele sorriso lindo, calmo, de quem gosta da vida, que só a ele conheço. Disse-me, “Também pensei nisso. Cresce, chega para os dois e, às vezes, para mais”. Fiquei desconfiado. Depois, percebi.


Segunda, 14 de Fevereiro de 2005. Ontem foi dia 13 e, safei-me ou, pelo menos, não dei por me ter acontecido qualquer azar. Por enquanto … por enquanto. Até não sou supersticioso mas, por malditas coincidências, acontecem-me sempre desgraças no dia 13. Seja ele, ou não, uma sexta-feira.

Friday, March 11, 2005

Revoltas

Dezembro, falhei com a pensão. Dívidas até ao pescoço, que tiveram de ser parcialmente amortizadas. Janeiro, o filho disse-me, "Ó Pai, vê lá se podes ajudar com qualquer coisinha". Mais dívidas, lá foi mais qualquer coisa. Fevereiro, pus-me, ainda, mais de tanga, e paguei o atrasado. Dezembro, Janeiro e Fevereiro, até à "regularização" dos atrasados, os filhos procuraram-me, apaparicaram-se, ligaram-me, estiveram comigo. Esta semana, papinho cheio, nada. Foram ao almoço do aniversários do avô, mas não a casa dele para apagar as velas com o resto da minha família, por causa de "compromissos". O que me magoou. Tinham que "estudar". Mas foram (foi ele), nesse dia, à discoteca, e ela, a casa de colegas de escola, para um "trabalho", quando sabia de antemão com a antecedência necessária do compromisso já assumido comigo. E por aí adiante. "Gostava que viessem dormir a casa do Pai". Não disseram nada. Até ontem, nem me tinham ligado. A caminho de casa, congestionamento total do tráfego. Comecei a pensar na vida e a ficar zangado. Aliás, já o estava, depois de ruminar neste assunto todo o dia. E aí vai, ao primeiro. "Então pá? Teste na Segunda e na Terça, que me ligavas, e não disseste nada?". "Estou na explicação de Matemátca". Pois é, bandido, em 7 disciplinas, duas positivas, jogo de Soldier of Fortune até às 4 da manhã, coisa que nunca te admiti enquanto estiveste na minha casa. No sábado à noite, dia do aniversário do avô, já com dinheiro no bolso, discoteca até ás 3 da manhã. A beber "shots" e outras porras, que deveriam ser proibidas a putos de 15 anos. E disse a tua mãe, em tribunal, que eu não sabia cativar-te pelo amôr. Como é tão fácil cativar pela permissividade, deixando os conflictos para o Pai. "Depois ligo-te", disse-me ele. Ligaste-me até ao fim de ontem? Para quê? Tenho dinheiro, faço a vida que quero, porque tenho de te prestar contas dela? Agora vamos à Filhota. Só à décima me atendeu. "Beijos, vamos comer uma torradinha? "Ó Pai, não me apetece ...". "Então, passamos o dia juntos amanhã ...". "Não posso, vou a uma festa de anos e, depois, vou dormir a casa da Diana". "Bom, então levo-te eu à natação e, depois, almoçamos juntos". " ... não quero". Já estava a perder-lhe a paciência. "Olha, porque é que não dizes, logo, que não me queres vêr?". Silêncio. "E o que fizeste hoje de manhã?". "Estive no trabalho da mãe a fazer o PIT de Português". PIT, igual a Plano Individual de Trabalho. "O Pai já te tinha dito que te queria ajudar a fazer esse plano, porque é uma coisa muito gira ..". Silêncio. "E o que estás a fazer agora?". "Estou a estudar história, porque vou ter teste amanhã ...". "Então, e o que vais fazer, amanhã, depois da festa de anos?". "Vou estudar matemática ...". "E o pai não te tinha dito que queria estudar matemática contigo?". Silêncio. "Mas depois vou a casa da Diana, para dormir lá". "Olha filha, isto de ser pai não é alguém que a gente sabe que existe e que só vê de vez em quando para comer uma torradinha. É alguém com que, também, temos de viver, e ir dormir lá a casa. Para estudares matemática, não podes estar comigo, mas já não te incomoda teres de estudar matemática para ires dormir a casa da Diana, quando podias estudar e dormir na minha casa. Aos fins de semana é sempre assim. O Pai nunca existe nos teus planos. Gostava que pensásses no que andas a fazer, porque eu não gosto e nem gostei. Já que não queres que te leve à natação, ao menos, vê se me cumprimentas como deve ser, quando lá estiveres. O Pai, não é só Pai para pagar, e um tipo com que te encontras, contrariada, de vez em quando. Também é Pai para educar e para viver! Um beijo, e fica sabendo que estou zangado". Desliguei. O outro Gajo, também vai ouvi-las. A mãe sofre de uma patologia bipolar grave. Esteve internada e fez a introdução ao lítium, que tem de tomar até ao fim da vida. Toma prozac e seus sucedâneos, para não falar de outras coisas para dormir. E tenho os meus filhos entregues pelo Tribunal a uma coitadinha, mãe extremosa, boa profissional que, de vez em quando, tem recaídas. Hoje estou desbocado. E revoltado

P.S.
De manhãzinha (7:15) já tinha ido nadar. À tarde, depois do trabalho e falar com eles, para "desopilar", lá foram mais 1500 metros de piscinas com a cabeça a escaldar. No fim, ideias mais claras. O que me apetecia, mesmo, era bater à porta da casa em que vivem com a mãe, "sacá-los" a cada um preso por uma orelha, e perguntar "Então, como é que é?". Estou magoado. Se fizessem anos, amanhã, telefonava-lhes, diria "Feliz Aniversário, mas hoje não posso estar com vocês porque tenho outros compromissos, vou a casa de amigos, tenho de trabalhar e, à noite, vou à discoteca".

Sexta, 11 de Março de 2005. Que nunca nos aconteça como aos espanhóis, há um ano atrás.

The blog you were looking for was not found. Mas ...

NO MEU BLOG, AINDA PODEM PUBLICAR OS VOSSOS COMENTÁRIOS, APESAR DOS PROBLEMAS TÉCNICOS QUE AFECTAM OS OUTROS.

Odeio a indiferença daqueles que, ao nos disponibilizarem este contares de vidas, de repente, impedem-nos de manitestar os nossos sentimentos e de estarmos com os nossos amigos. Sabemos que muitos blogues são "incómodos", mordazes, até. Haverá, por aí, sabotagem da sua concorrência "Nacional"? Não sei que raio de coisa aconteceu. A verdade é que não consigo comentar em 99 por cento dos meus blogues amigos.

Wednesday, March 09, 2005

Naturezas

Começou por notar as diferenças para o irmão quando, de vez em quando, tomava banho com ela. E perguntava, perguntava, perguntava, tocava, mexia, perguntava. Já tinha reparado, também, que ele não se sentava para o chichizinho da praxe. Depois, começou a fazer questão de entrar na casa de banho, quando eu ou a Mãe íamos tomar o dito. E lá fazia as suas perguntinhas. E porque é que tens assim, e o mano não tem, e porquê, e porquê, e posso mexer?. “Agora não filha, está muito frio e o pai tem cócegas”. A mãe achou que, como ela o fez, lhe devia ter satisfeito a curiosidade. Eu não achei nem que sim, nem que não, apenas que iria ter cócegas. No resto, continuou a entrar sempre que lhe apeteceu. Eu, pouco àvontade, até já entrava no banho antes de a água ter aquecido. Ela observava. De vez em quando, espreitava por um buraquinho que espaçava na cortina da banheira. Não havia fuga possível. Depois, a curiosidade foi-se perdendo, e nunca houveram proibições. Também, no jardim infantil, quando iam à natação, tomavam banho juntos, eles e elas. Mais tarde, pôs-se a espreitar o irmão. Lembrei-me disso, pelo papel higiénico com que ele encheu a fechadura da porta da casa de banho. Qualquer dia, tal como aconteceu com a turma dele, lá serei chamado à escola, para uma reunião de pais, a propósito dos desenhos que vão circular pela sala de aula. Lembro-me de a directora da turma, de então, “informar” serem elas as instigadoras, as “piores”, no que respeita ao conteúdo dos bilhetinhos interceptados. “É com cada um …”, referia, baixando os olhos. Sinto calafrios, porque não me sinto preparado. Vejo-lhe uns peitinhos a crescer, muito acne na testa, e lá a vou avisando, “ÊêÊ … pois … assim … gostava … pois … muito … que me dissesses … assim … quando um dia tiveres … êÊê … o período …”. “Ó Pai, mas isso são coisas muito íntimas!”. “Ó Filha, eu sei, mas é importante que o Pai também saiba isso …”. E tenho mais calafrios. Nestas alturas, sinto-me desamparado, falta-me e invejo a omnipresença da Mãe, agora, a sua confidente inseparável.

Quarta, 9 de Março de 2005.

Sistemas

Reunião de Pais do 5º tal. Assunto? “Pai, é por causa da indisciplina da turma”. Alerta-te Pai, temos Código Vermelho, isto é sinal de perigo, de Guerra Nuclear.
“Mas tu, não te portas mal, pois não Filhinha?”. “Ó Pai, eu também já me portei mal …”. Ingenuidade de Pai.
Lá fui à procura da sala. Pois, “os meninos e as meninas”, após um período inicial, de “adaptação”, em que passam de uma única professora, para dez ou onze (acho que, em EVT e na Área de Projecto, há dois em cada uma, mais a informática …), encontram-se, de repente, numa escola repleta de espaço, em deslumbramentos de liberdade, aprendem a explorar as fraquezas dos professores mais novinhos. Junta-se-lhes o despertar da puberdade, baixa o aproveitamento, de forma generalizada. Pais que reproduzem as queixas dos filhos, como contadas em casa. “Não é uma turma indisciplinada, mas uma turma viva”, explica, pacientemente, a directora de turma. E ainda bem, concluímos todos. Numa das disciplinas, o professor, um dos mais atingidos pelo mau comportamento, incluíu ensinamentos, dentro do programa, mas fora do livro. Quem esteve atento e fez o trabalho pedido, ficou a conhecer a história da loba, do Rómulo e do Rémulo. Quem não esteve atento e se borrifou no assunto, não se safou. Os pais que, em casa, não fossem devidamente informados, ou pelos apontamentos das aulas, ou da existência de um trabalho a pesquisar, por parte dos respectivos filhotes, não os poderiam ajudar. Muitos não puderam. E queixaram-se desta injustiça pepretada aos seus “anjinhos”. Lá vieram outras queixas, dum professor que deitava, para o lixo, as canetas que caíam ao chão. Era assim que contavam em casa. Ocultando que a taxa da queda de canetas no chão, ultrapassava o limite do razoável. E os pais lá foram sendo chamados à atenção, para o facto de o o problema não residir na disciplina A, ou B, mas na descida das notas em todas as disciplinas. “Ó Pai, tive um Bom a História, e uma nega a Matemática”. “O quê ...?”. Achei que não ouvira bem. Teve Bom a tudo, excepto a Matemática. Na última, seguiu a tendência da turma. Que está muito forte a Inglês. Seja como fôr, “Vamos ter que estudar juntos essa Matemática, é preciso recuperar, meu Amor”. A directora lá explicava que, esta, era a única das novas turmas com o “problema”, que eram muito, muito faladores, durante as aulas. Por isso, vai-se tentar mais uma alteração na planta da sala, implementando-se, simultâneamente, a exclusão de alunos indisciplinados, os quais deverão executar, durante esse período, tarefas a determinar. No nosso tempo, íamos “para a rua”, com uma falta, mas íamos passear. Agora, para além da falta, o aluno é excluído da sala, indo executar uma tarefa atribuída pelo professor da disciplina. Ou seja, não fica com o “tempo livre”. Fiquei a saber que a Filhota se pôs de argumentos com um dos professores. Como a matéria não lhe interessava, deitou a cabeça na carteira e pôs-se a cantar, baixinho, qualquer coisa da Britney Spears. O professor acusou-a de estar a falar. Ela, espertalhaça, responde que não estava a "falar". Não se livrou do castigo, e queixou-se, lá em casa, da injustiça qualitativa. “Com franqueza, filha. Olha que grande, a diferença!”. No fim, acho que a Escola não está preparada para absorver esta carga de vivacidade, durante as aulas. Nem para vencer o cansaço dos miúdos, em fim de tarde. E, pergunto-me, porque, neste País, com tanto Doutorado em Ciência do Nada, mais as bolsas para a investigação do aproveitamento económico da formiga, não se trabalha e investiga a sério, neste assunto, o de aproveitar a irreverência e a criatividade dos nossos filhos, mitigando-lhes o cansaço das últimas aulas. Faria mais sentido que, à última hora, tivessem educação física, EVT e outras actividades menos exigentes do ponto de vista intelectual e psíquico. A repressão, eu já a conheci, não ensina nada. Enquanto o Mundo aí está, com tanta coisa boa para ensinar aos nossos filhos. Se é do sistema, mude-se o dito. Aonde se vota, para isso?

Quarta, 9 de Março de 2005 (Reunião de Pais, havida no dia 3 de Março, às 18:30)

Despojos

A folha de papel tem formas, outras, para além da bola que, nem sempre, entra no caixote do lixo. Mas a tua folha de papel tinha sempre muito, fossem letras, ou não. Bem dobrada, era um grande segredo. Aquela, desenhada, tem o teu coração, recordação, um desejo puro, uma ode, onde o teu sorriso escreveu “és o meu melhor pai”. Aquela folha, não tem papel. É o cofre da minha vida. Eu, agarro-a, enquanto choro, junto do coração, onde tu puseste o teu, para me juntar ao teu. Explicaste, esta sou eu, este tu, a Mãe e o Mano, com um chicoração. E eu agarro-te, assim, àquela folha, desejando que sintas que te sinto, e quero, muito, apertada a mim.

Quarta, 9 de Março de 2005

Descobertas

Prenda de Natal, festa organizada pela empresa da Mãe. Equipamento completo: microfone, com suporte, imitação de guitarra eléctrica e alti-falante. “Made in China”. Ele, talvez, três aninhos. Ou menos. A guitarra, só com teclas e, algumas, melodias pré-definidas. Coisas de criança, já se vê. Mas ele, fosse qual fosse a melodia, guitarrita a tiracolo, todo debruçado sobre o microfone, gritava, gritava, tal como os rockeiros que via na televisão, fingindo línguas que, tanto quanto percebi, não seriam deste planeta. Punha-nos a cabeça em água, eram horas de guitarrada. De alguma maneira, lá o convencíamos a deixar, por momentos, a vida artística. O que, para nós, também era difícil, tal eram as gargalhadas, as palmas que batíamos. Ah, não haviam visitas, lá a casa, que ficassem sem um espectáculo a preceito. Engraçado, sempre que voltavam, perguntavam-lhe, primeiro, pela guitarra. Nós, aprendíamos. Quando ainda entravam pela porta, já sussurrávamos, “…não lhe peçam, já, as guitarradas”. Quando se descaíam, bom, nada a fazer. Depois, ou era o alti-falante, ou a guitarra, que começavam a ter alguns “problemas de pilhas”. Arranjos demorados. Como não há brinquedo que resista, a guitarra, um dia, avariou-se mesmo. Mas, os espectáculos, esses, continuaram. Fosse ao som de uma cassete, ou do “Top +”, na têvê. Lá estava o nosso rockeiro, no palco, para mais um espectáculo.

Quarta, 9 de Março de 2005

Tuesday, March 08, 2005

Difícil

Chegar a casa às 11. Da noite. Cansado, mesmo muito. E tê-la, por vezes, à minha espera (“Mãe, é só até o Pai vir”). Depois, cabia-me a mim convencê-la a deitar-se. “Ó Pai, leva-me ao colo”. Ou seja, com ela deitada, nos meus braços. E, nisto, teria ela, já, os seus 8 aninhos. Era uma brincadeira, princezisses, coisas nossas, de Pocahontas e Bela Adormecida. Eu, o “príncipe. E queria cócegas. Abraços, beijos, festinhas, judiarias com o meu cabelo, com a gravata, cócegas não, filha, senão ainda despertas mais. À sucapa, lá iam duas ou três. Cócegas, pois. Gargalhadas que não dobravam. Um regabofe. Que bons os beijos, festinhas, carícias, abraços, daquele alento, daquele amôr. Sentir de perda, este, o de perder a minha bébé, no ultimo bocadinho em que ainda foi bébé, e tão minha, por já não estar comigo. Agora, é sempre mais comedida nos seus afectos. Não só porque está mais crescidinha. É que o Pai passou a ser alguém a quem já não se pode contar tudo, até pode ser um inimigo, se souber de coisas que não deve. No Natal, a propósito de qualquer brincadeira, tive-a no colo, outra vez, assim, grandinha. Aquela gargalhada, que não enrolava, e abracei-a muito, muito. Lembrei-me, senti-me, do resto do tempo em que ela, ainda, foi bébé, e não a tive. É por isso que é tão difícil, senão impossível. Isto, o de perdoar, dia a dia, minuto a minuto, segundo a segundo, o roubo, de um filho.

Terça, 8 de Março de 2005, Dia Internacional da Mulher, o dos seus direitos, de mãe, de trabalhadora, tão extensamente escritos, e ainda por cumprir.

Monday, March 07, 2005

Primavera

Os namoros, de amor, são assim. Procura-se, para estar, sentir, porque não se fala, são arrulhos, porque namorar não é, própriamente, o debater de mentes. É esquecer, são arrulhos, até, para combinar, mais momentos, para se estar. É telepático, aquele sentimento, em que se vai andando, e respirando. Coisa estranha, esta a do amor, do namoro, quando se é novo. Em que o mais violento se transforma, até, num manso jumento. E como será, quando não se é novo? Atenção, que penso nos que, por fortúnio ou infortúnio da vida, também se pôem a namorar quando entram nos “entas”. Uns, dizem que é igual, outros que não, que é diferente, sem tanta chama, porque não há quem a aguente. Até fico curioso. Ah, deixem a primavera chegar, vou estar atento aos namoros que, por aí, vão desabrochar.

Segunda, 7 de Março de 2005

Primo A

Primo direito, por parte da minha mãe. Gente algarvia. Aniversário a 5 de Março. 51 Anos. Sai ao pai, o meu tio T. Que também lá estava. Com 80 anos. São daqueles que não envelhecem. Olhar calmo, penetrante, o do meu primo A, que vai arranjando tempo, no meio de duas reuniões, para me saber, como estou. Veio, também, a minha prima E., irmã dele. Mulher de ferro, esta menina. Não de aço. Tem as suas fragilidades, as suas tristezas, lá bem escondidas. O PJ, marido, assenta-lhe que nem uma luva. De paciência, carinho. E duas alegrias, as duas filhas, miúdas educadas, vivas, simples. Não exibem o que têm, apesar de terem muito, ao contrário de colegas e amigos dos meus filhos, que gostam de exibir o que não têm, ou não é deles. Gosto do convívio delas com os meus. São uma lição de humildade. A idade é a mesma, e riem-se perdidamente quando se juntam. O meu, fica sempre com uma asa descaída, quando vê a priminha mais velha. Há aqui uma “primandade” engraçada. Fiz um esforço para os pôr em contacto, durante as férias de verão. Estivémos juntos 5 dias. Senti-me pai de 4 crianças. Ou, talvez, o irmão mais velho. Gostei do papel. Ainda quis ir à discoteca. Não me deixaram. Irmão mais velho, fica em casa. Mas, lá fomos ao cinema.

Domingo, 6 de Março de 2005

Avô

Paterno. Aniversário, a 1 de Março. Nasceu num ano de Fevereiro com 29. Por brincadeira, diz que está mais velho por causa de um dia. Foi azar, se tivesse nascido no anterior, só mudava de idade lá de 4 em 4 anos. Os tais em que têm lugar os jogos olímpicos. Almoçámos perto de onde eu e os filhos já vivemos. É engraçado, como os filhos ficam tão bem com a prima e com os tios, a minha irmã e o marido. Adoro estas reuniões. De vê-los felizes e brincalhões. Com os outros, e comigo. E aquela minha sobrinha … lá me confidenciou a minha irmã, “sabias que és o tio preferido dela?”. Obrigado, estou sempre a defendê-la. Tal como a minha irmã faz com os meus. Para além disso, sou maluco, digamos que um puto, ao pé de putos que se portam como putos.

Sábado, 5 de Março de 2005

Saturday, March 05, 2005

Desapontamentos

Disfarcei a voz, quis sentir-me calmo e bem disposto. Transmitir confiança, serenidade. O filhote tinha tido, hoje, o teste de matemática. Liguei-lhe, “Oi, amorzão, um beijão para ti, que tal vai isso?”. “Pai, olá, beijo para ti … hoje, não vai bem”. Voz de derrotado. O puto está em baixo. Bolas, para gajos na lama, já chego eu. “Foi o teste de matemática …?. “Correu-me mal …”. Tá percebido. Nesta altura do campenonato, era da maxima importância que ele recuperasse. No meio da conversa, acrescenta, “Amanhã preciso de ir cortar o cabelo, lá ao pé de ti”. Proponho, “Vamos beber um copo? Olha, Fazemos um cineminha e dormes lá em casa …” . “Pode ser, Pai …”. Também sei que o gajinho anda lá com uns amôres, ainda não declarados. E outros conflictos. Tinha entrado para uma boa equipa internet (eles chamam-lhe “clã”), do jogo Soldier of Fortune. Tanto quanto percebi, numa conversa anterior, andava arrecadado do computador, por causa do “vício”. Finalmente, senti medidas da Mãe. Lá chegado, à porta dele, “Olha, ainda vou que ter ir à avó para buscar a minha sopinha”. “Ó Pai, então faz isso primeiro, hoje não quero estar com os avós”. Umas voltas depois, de novo à porta. Beijos de Pai e Filho, Cascaishoping, o filme do Clint estava esgotado e, o “Constantine”, ainda não estreado. Não havia mais nada, não digo que de jeito, mas apetecível. “Olha, comemos e vamos alugar um filme, que tal?”. “Mas, depois, levas-me lá a casa porque tenho de ir passear o cão”. Fico desapontado e sou franco. “Filho, eras suposto ires dormir lá a casa. Já são dez e meia, só lá para a noite é que ficamos despachados. Por essa altura estou cansado, guio mal, perco o sono e não prego olho toda a noite. Assim, ias primeiro passear o cão, víamos o filme, dormias lá em casa e, de manhã, cortávas o cabelo, enquanto eu fosse à natação”. Que não, porque tem de ir passear o cão à meia noite”. Proponho, “Olha, é melhor deixarmos esta ideia para outra altura”. Que sim. Fico a pensar se ele, hoje, ou não quer estar com ninguém, ou se segue uma estratégia prédefinida pela “requerente”, demonstrando que os filhos não querem dormir em minha casa, e aproveitá-lo para justificar, em tribunal, os estratosféricos montantes da pensão. Recordei o argumento da advogada, “Porque os pais não se falam …", como se não tivesse sido a Sujeita a deixar-me de falar. De repente, deixei de me sentir Pai, apenas alguém no meio de um jogo. Mais uma noite, em que acabei por não pregar olho, apesar de todas as “ajudas” diponíveis. Maldito o dia, em que cada noite se transformou neste pesadelo, e isto começou uma ano antes da desunião. De novo, estou em “negativos”. Cheguei a isto, para quê? Odiei a vida, a que tenho, a que levo e a solidão. Não vivo. Sobrevivo, em tudo. Nesta Sexta, procuro recordações, das boas, mas não me liberto daquelas paredes, nem da escuridão que as cobre, reflectindo-me pressentimentos, desconfianças, suspeitas e perigos. Sinto-me beligerante, agressivo, rodeado de inimigos, uns mais concretos, outros menos definidos. Na minha vida privada, no trabalho, e no resto, sobre o que sobrar. Revejo amigos, avalio-os. Quero saber com o que posso contar. Sinto que é altura de deixar de ser “bonzinho”, e uma necessidade terrível de ser contundente, de ir à Guerra, a todas, sejam quais forem, sem tréguas. Ganhá-las, dôa a quem doer, seja qual fôr o resultado, para ganhar, na vida. Acabar com climas de paz pôdre, onde foram criadas. Porque quero estar vivo, e viver. Mas, se tiver que morrer, que seja de pé, bem comigo. Hoje não quero amar. Nem sentir coisas boas, nem abandonar-me. Quero confrontar e derrotar. Esses, os inimigos, que vou identificando, os internos, e os outros, um a um. Esta, é mais uma noite em que tenho muito, muito tempo, para pensar em tudo. Mesmo no que não quero. Estou só, e não me sinto mal com isso. Apenas com muita, muita raiva. Todos temos o direito à indignação. O que me faz sentir bem. Agora, começo a vislumbrar alguns amigos. Estou sereno, mas não esqueço. Apercebo-me do canto dos pássaros, na mata da feira, que já regressaram para a primavera. Por isso, já devem passar das cinco da manhã. Tenho mais um dia de vida, e de guerra. Lavo loiça, lavo roupa, aspiro a sala, arrumo roupa, guardo papéis, e preparo-me. Para o que der e vier. Fecho o saco da natação. Já sei como vai ser. Quando está com a mãe, a filha, mal me cumprimenta. Dualidade de personalidades. Vou-lhe mostrar que não gosto. Depois, saio de casa, à procura de um café aberto, vou direito ao "Cantinho", ali, ao pé da igreja. É bom, ver gente, logo de manhã, que nos desejem os bons dias. Gente de vida dura e difícil, das obras e outros ofícios. Nunca me senti mal no meio deles. Pelo contrário, sempre me foram irmãos. Coisas de educação. Às vezes, meto-me nas conversas, as de futebol. Nas de política, sou mais discreto, meto umas colheradas, mas nada de academismos. Esta gente, matou-se mais do que eu, para chegar a quase nada. Trabalham desde a infãncia, arrancados à escola pela necessidade de sobrevivência. Entre estes, eu sinto-me e sempre me senti bem. Apesar de saber que, também, podem ser mafiosos. Mas, por agora, com estes não tenho com que me preocupar. Trabalho, é trabalho. Conhaque, ...

Sábado, 5 de Março de 2005.

Friday, March 04, 2005

Nada

O que sinto. E dum julgamento, que vai continuar, a quinze. Dum "requerido". Não o que pode. Testemunhas, da "requerente", nem dois filhos têm, dissertando sobre o que haverá a dispender. Porque alguém terá de dar o que não tem. E a quem já não tem. Para que trabalho, pelo que luto, pelo que me mato, pelo que morri, envelhecendo, sofrendo, como um cão abandonado, em fim de vida? Que sentido? Há dias, assim, sem saída, em que o mero acto de respirar não me enche de alegria, como se o prazo da vida fosse, de repente, encurtado, e de tão curto o sinto que não me quero, nem a mim, nem aos outros, nem em casa, nem na rua, nem em lado algum. E desejo correr, sem destino, sempre. Depois, renascendo. Reencontrado, comigo, com os filhos que tinha, com os meus, poucos, amigos. De que tenho saudades, mas não os quero ver. Há dias assim, gostava de ser melhor companhia, não o sendo, e recuperar sonhos deslumbrados, de que tenho alimentado os meus dias. De repente senti-me, eu, como o centro de nada, sem nada, ou vontade para nada.

Monday, February 28, 2005

Companhias

Também me calhava, à vez. Cinco livrões em cima da cama, venha a primeira história. Contada pela milionésima vez. Deitava-me ao seu lado, ela tapadinha, eu à fresquinha, quase a cair da cama. Enquanto “relatava”, ia passando as páginas, fingindo ler. De repente, deixava de ouvir o chuac-chuac da chuchinha, ela levantava a cabeça e dizia, “Ó Pai, a história não é assim …!”. Ai, que lá vem o controlo de qualidade. “Atão, o que falta?”. Completava com o pormenor que eu ocultara. "Tens que ler tudo ...!". Bolas, como é que eu podia adivinhar o que a Mãe inventava? Depois, foi-se habituando às diferentes versões, diferentes em cada mês. Se fosse igual, reclamava "outra vez?" E haviam dias em que eu contava, contava … e que bem ali se estava. “Pai ...? chuac - chuac ... Pai ...?” … E se dormia.

Segunda, 28 de Fevereiro de 2005

Sunday, February 27, 2005

19 de Março

Reparei no cabelo loiro. Achei-o giro. De resto, não passava de mais uma caloirazita que entrara. Não era bonita. Não me atraía em nada. Por qualquer motivo, um dia, falámos. Tocou-me, talvez pela ternura que emanou. Fui-me enamorando e, a sua presença, deixava-me descontrolado, fora de mim. De repente, tornara-se Linda, sempre, em cada gesto, em cada palavra, vestisse o que fosse, estivesse mais gorda ou mais magra. Amava-a sempre. E sofria, vendo-a namorar e, também, sofrer por outros. Tentei esquecê-la, não queria vê-la, e impor-me a mim próprio a ausência de um amor que me consumia por dentro. Ela sabia de tudo mas, eu não era o seu Ele. Evitou-me e, eu, evitava-a. Outras amavam-me, amaram-me, mas eu só tinha o pensamento na que sabia ser Aquela, em cuja companhia a vida fazia sentido a dois. E assim sofri, durante anos, calculo que cinco. Ajudei-a num trabalho de fim de curso. Já estava mais controlado, apesar de o amor ser redobrado. Talvez por ter assumido, aceite, de que nunca seria minha. Um dia, acompanhei-a, já tarde, até ao autocarro. Estávamos no jardim do Campo Grande. Virou-se para mim e disse: Beija-me. Olhei-a, para os seus olhos, para aquele cabelo louro, que acariciei, e fui beijando-a, suave, muito suavemente, delicadamente, na testa, nos olhos que me olhavam, um de cada vez, no nariz, naqueles lábios. Acreditei que Deus estava ali, a olhar por nós, naquele momento, e deixámo-nos abraçados, em longos beijos, de namorados, há muito, muito tempo. Foi no dia do Pai, de 1986.


Domingo, 27 de Fevereiro de 2005

Sempre

De tudo o que Deus criou, no Homem, nada seria eterno. Dizem que até o Universo … Excepto, talvez, o que homem sente, ultrapassando tempos, gerações, heranças feitas com um traço genético, muito o ódio … Mas o amor, que pode morrer, se amado, será, para sempre, eterno. Bem hajam, os que amam.

Domingo, 27 de Fevererio de 2005.

Expectativas

“Trás os teus apontamentos. E, também o livro”.
Fizémos ovos mexidos, “daqueles que fazias, com ketchup”. Lá foi. “E o livro?”, “Não trouxe”. Que pena. Fui comparando, lendo e perguntando. Ele, “informando”. “Que história é esta do quaternário?”. Não se lembrou. Apelei ao meu pós-graduação, qualquer coisa relacionada com a Informação. Comentei que, comum a todos os sectores, o “saber”, a informação e a sua gestão já eram, na altura, considerados como um quarto sector, embebido em todos os outros. No dia seguinte, telefonou-me, confirmando relacionar-se com o saber e as novas tecnologias. Este sábado, quis falar comigo. Eu, ainda dormia. Depois, não atendeu. No domingo, “Filho, que me querias?”, “Pai, tive um 15, a Economia”. Subiu, de onze para quinze. Desfiz-me em louvores e amôres. “E que tal um cineminha?”. “Pai, não posso, amanhã tenho o de inglês. Na terça, o de filosofia”. Não faz mal, passo por aí, e dou-te os impressos que ainda faltam para a carta da mota. Um beijo de boa vindas. "O que fizeste ontem?". Em casa, a estudar. "E hoje?". Mais, do mesmo. Voltei a sentir-lho, um olhar, assustado. Um receio, um medo. A vinte e três, do três, no ano passado, era aquele o olhar que tinha, de manhã. Quando cheguei, á noite, a casa estava vazia. Ele, proibido de dizer onde vivia. O que irá a mãe alegar, no próximo dia 3, em tribunal? É isto que me vem matando, aos poucos, todos os dias.

Saturday, February 26, 2005

Idas

Há anos que não o fazia. Sair à noite, borrifar-me na vida e curtir uma discoteca. Antes, fora o jantar de despedida. De uma colega. No fim, ao agradecer as presenças, a voz embargou-se, começou a chorar. Custou-me. Subi para uma mesa, comecei a cantar coisas, tipo "can-can", fiz-me provocador, tirei o cinto, que pus a rodar, e já tudo esperava o que dali sairia. Não, só tirei o cinto. Depois ofereci-lho, para o guardar. E há anos que não ia. Talvez, antes da minha filha. Dez anos e tal. Esqueci-me, diverti-me e, no fim, lembrei-me. Deste maldito joelho, velhos "benefícios", do desporto, de competição. Nem se mexia. Inchou. Arteroses, fim de boas vidas. Que pena. Soube-me tão bem ... estar tão bem.

Sábado, 26 de Fevereiro de 2005

Friday, February 25, 2005

Polícias

Ele era … arrojado. Lembro-me de o levarmos a centros comerciais e ele, desandava. Ó M., olha que depois perdes o pai e a mãe … Isto, no Amoreiras. Queria ele lá saber, ia andando e nós, escondidos, a ver o que fazia. De vez em quando, olhava para trás. Se nos via, desatava a correr, de nós, claro. Nunca se perdeu, nunca o perdemos. A gajinha, nem avisou. Estávamos no Palmeiras, em Oeiras, clube de vídeo. De repente, nada. Plano de emergência, Mãe, vai tu por aí, que eu vou por aqui. Seguranças avisados, saídas fechadas, casas de banho revistadas. Era o tempo em que as crianças desapareciam, roubadas e, quando vistas, só de cabelo rapado, já em Espanha. Num desespero incontrolado, dei com ela, na loja de brinquedos, mesmo ao lado do clube de vídeo. Ó filha, olha que há pessoas más que levam os filhos meninos dos outros e, depois, nunca mais nos vias, nem ao Pai, nem á Mãe nem ao Mano. Ela, imperturbável, que sim, que sim. Olha, quando não nos vires, vais logo falar com estes senhores, assim, vestidos de polícia. Que sim, que sim, com a cabeça, claro. Já nas compras, no Carrefour do Oeiras Park, estávamos a ver bolachas e, de repente, nada. Seguranças alertados, avisos pelo altifalante (criança desaparecida, blá blá blá). A mãe lá a viu na ala dos brinquedos. Ó filha, tu já sabes … . “Ó mãe, mas eu não me perdi”. Pois. Finalmente, estávamos nos brinquedos e, pronto. Coração aos saltos, fui logo ter com os seguranças à entrada do supermercado. Qual não foi o meu espanto, lá estava ela, sentada, e o altifalante já anunciava, “Pede-se aos pais da menina C que a venham buscar à segurança”. Aproximei-me, devagar, disse, “Eu sou o pai daquela menina”. Quando me viu, atirou-se ao meu colo e, entre soluços, balbuciou, tremendo, “Porque é que vocês fugiram de mim ….” . Depois, explicou, saíu dos brinquedos para ir ver as bicicletas. Quando voltou aos brinquedos, já lá não estávamos, e foi à entrada, para falar com aqueles senhores vestidos de polícia, como lhe tínhamos indicado. À cautela e até ser mais crescidinha, passou a sentar-se em cima das compras que íamos pondo dentro de um dos carrinhos do supermercado.

Autonomia

Era de tarde. Sábado ou Domingo, depois do almoço. Talvez três anitos. Veio ter comigo com ar tristonho, lágrima no canto do olho. E não é que o rapaz estava mesmo sentido, magoado? Tínhamos visitas, os futuros padrinhos da irmã. Não ligou aos estranhos. Que estava muito zangado com Mãe, porque ela se tinha zangado com ele, sem razão. Anunciou que se ia embora, de casa. A princípio, achei-lhe piada mas, depois, entrei em pânico. De verdade. Naquela casa, o único autoritário com licença para se zangar, era eu. Porque sabia que a Mãe, depois, me equilibrava, o acolhia e nela ele se refugiava. E agora? “Ó filho, olha que a mãe não se zangou a sério, ela gosta muito de ti, não te vás embora, senão ela chora”. Que não, estava muito triste, que ia fazer a mala, e ia-se mesmo embora. A Mãe ouvia tudo, lá ao longe e não intervinha. E ele, de pijama, calçou os chinelos, pôs os brinquedos num saco de pano, abriu a porta e disse “Adeus, pai, vou-me embora”. Acendi a luz das escadas, perguntei “posso fechar a porta?”. Anuiu com a cabeça e fiquei a espreitar pelo buraco da porta. Chamou o elevador mas, sentou-se nas escadas. Pensativo. E eu a espreitar, a espreitar, preparando-me para ir atrás dele. Até que, 15 minutos depois, o vejo levantar-se, aproximar-se e tocar à campainha. Abri e perguntei-lhe, “Então amôr, o que falta?”. Ele entrou, e lá foi dizendo naquele ar tristonho, “Hoje ainda vou desculpar à mãe por se ter zangado comigo”. E lá lhe foi dar beijinhos. Que alívio.

Infalível

Rabujices de sono. Sempre, ou quase, depois do almoço. Ainda em pequenos. Com ele, aprendemos, dáva-mos uma volta de carro, beber o café um pouco mais longe, e … voilà. No retorno, estaciona-se à sombra e tira-se à sorte, a quem fica atento ao acordar do pequeno. Com ela? Eu trato do assunto. Carrinho de bébé, vamos descobrir o mundo, sons e imagens, uma volta ao quarteirão, a ver se chegamos à tapada, à escola agrícola. Mas não, ainda a caminho, já a cabecinha se encostava à fralda, e a chucha descaía. Agora, há que regressar, vamos de vagar, cuidado com o elevador. Chegados ao quartinho, feito o silêncio, levantam-se os apoios dos pés, ajuda-se com uma almofada e, duas horas depois, “paiiii …”. O que ela suava. Em chovendo, a coisa complicava-se.

Ú

Vínhamos dos avós, pois claro, de onde haveria ser? Não o deixei comer mais rebuçados. Tirei-lhe o pacote, “Já chega! Depois é sempre a mesma coisa, lá vêm as dores de barriga e não almoças”. Enfurecido, proferiu qualquer coisa. Ouvi um “Cá” e, no fim, o “Ú”. A mãe estacionou o carro, e perguntei-lhe, “Diz?”. “Cáa do Cú”. “Quem?”, “Tú!”. Aguentei-me, sem saber o que fazer. A Mãe susteu a respiração, à espera do meu ataque de autoridade, receando, talvez, uma incontida severidade. E lá foi. Ri tanto, tanto, tanto, que ficámos a rir os três. No fim, olhei-o, bem nos olhos, e disse-lhe: “Não quero e não me voltas a chamar isso, outra vez!”. Acabou-se ali a repreensão, o assunto. Não lhe devolvi os rebuçados e, a ele, nunca mais lhe ouvi aquela mácriação. Preparando-me para o que virira, no que esta pequenagem fala, durante um qualquer intervalo, do infantário.

Quinta, 24 de Fevereiro de 2005

Wednesday, February 23, 2005

Aparecida

Sonhava-a, loirinha, igual à Mãe, como a conheci, como a vi em fotos, ainda novinha. E já me abraçava, em sonhos, à minha boneca vestida de pintainha. Sonhos de Maio. Queria-a muito, muito, muito. Queria-a, toda e só minha. A Mãe que se danasse. O chorão foi sempre dela, nunca o largou, e ele não a largava. Eu bem tentara mas, a maminha, tinha-a ela. De vez enquando, enganara-o, com biberon e chuchinha. Ah, mas a boneca, seria minha, só, só e só minha. Segredo meu, egoísmo feio. E depois? Cada um tem o seu defeito. Avisaram-me, “a sua mulher telefonou, já foi andando”, assim, fosse às compras, ou a um almoço, foi este o recado que me chegou. Preparei-me para o pior. Ecografias? Certezas, ninguém mas dava. Talvez fosse, talvez seja, uma menina. A barriga era pequenina, a mãe desconcertante, de calma. As sogras já não arriscavam. Olhavam-me de lado, malandro duma figa, com a verdade me enganas e, gato escaldado, já se sabe, não volta a meter a cauda no caldo. Bom, se a mãe vai andando, eu vou correndo. Ainda cheguei a tempo de a ver na sala de espera. Sorrimos, gracejámos, quando a chamaram não falámos, telepatia de vidas, um beijo, um abraço, podia ser a despedida. Comprei uma dúzia de revistas, não tivesse de esperar até ao fim do dia. Mal ia no índice da primeira e chega a enfermeira. É o Sr. L. D.? Dei um salto, “Porquê?”. Trazia um bébé. “Aqui o tem”. Agarrei-o e fiquei ali, a olhá-lo. E vi o meu filho, igual, igualzinho. “Porque está a olhar, acha que não é sua, a filha?”. Nem liguei à rudeza, “E agora, para onde ma levam?”. “Para o berçário, tem que ser limpa e observada”. “Posso ver?”. “Mas não pode tirar fotografias”, olhando para a máquina, que tinha escondida por baixo do casaco do fato. Lá fui a correr, a tempo de os ver a aspirá-la, auscultações e outas malandrices que se fazem aos bébés, quando nascem. Meu Deus, o que ela berrava. Do meu lado, do vidro, fiz-lhes gestos, “olhem que ela é minha”. Encolheram os ombros. E ela berrava. Mais gestos, levantei os braços, palmas da mão para cima, como quem pergunta se havia algum problema. Do outro lado, gestos também, apontaram com a mão para a boca, como quem diz, “quer comer”. Depois daquela tortura, lá acederam a dar-lhe dois dedos de biberon. Diabo da moça, sôfrega e esfomeada. Fui ter com a mãe e, lá estava ela, na primeira mamada. A mãe ria-se, com a sofreguidão da rapariga. Era morena, olho achinesado, a minha irmã perguntou-me, “Foi feita de olhos fechados?”. Cabelo encaracolado, que orgulho, sairá ao pai? Quando era novo, claro. Ah, e cuidado, façam o favor de me dar espaço, tenho ao colo a minha Menina.

Quarta, 23 de Fevereiro de 2005

Montanhas

E ciclismo. Não percebo nada das suas tácticas, nem das manhas que utilizam. Lembro-me de, na televisão, ver as equipas em estratégias, ou de sobrevivência, ou de protecção. Ora passa um à frente, ora vai outro, mais fresco, puxando pelos colegas e, ao principal, até lhe dão um empurrão. É assim que, nos momentos difíceis, eles lidam com batalhas de sofrimento, escaladas do inferno, ultrapassam-se em quedas e lesões. Curioso. Na segunda, estive com o meu filho. Deu-me a mão. Ontem, nem queria companhia, mas faltava-me uma voz amiga que me desse um alento para aguentar o resto do dia. “Filha querida, já acabaste as aulas?”. “Olá, Pai, podes esperar por mim? Podemos ir lanchar ao pé de ti?”. Ah, um convite. Quanto menos espero, a minha equipa dá-me um empurrão. Fomos, por breves momentos, a minha casa. Escolheu uns livros, pediu-me para levar uns peluches e, no fim, não sabia como lhe exprimir tanta, tanta gratidão. Claro, comemos umas torradinhas, fiquei a saber que, amanhã, haveria um teste de inglês. "Mas olha, tens de te habituar, outra vez, a dormir cá em casa. Pelo menos, de vez em quando, e deixares-me ajudar-te nos estudos. Um dia, a mãe pode ficar doente, tu precisas de apoio e eu, como não te acompanhei, apenas serei um ignorante". "Ó Pai, mas eu já estudo sózinha!". "Êêê ... mas eu posso, também, ajudar na imaginação ...!". Ou lá no que for. Pois bem, despedidas, como gostava que me abrisses mais o coração. O meu, estava feliz.

Tuesday, February 22, 2005

Paixões

Sou eu. “Então, amigo, esse fim de semana, correu bem?”. Ele, “Hoje, vens ter comigo?”. Ena, um convite. Deixa-me ver, se sair a tempo, e o trânstio não estiver lento, passo por aí, telefono e tu vens. Entre as sete e as sete e meia. Para ti, está bem? “Oh, sim, tá-se bem”. Olha, porque não jantas comigo? “Pode ser, pode ser, tenho aqui um filme para vermos. E o que vamos comer?”. Lá lho contei. Chegado em tempo, tudo pacífico, cumprimentámo-nos, pai e filho. Queria-me falar das faltas, das que deu ás aulas. Mencionou-me as disciplinares. Olha que não, as que conheço, somam 14 e, dessas, 4, são insustificadas, por atraso “intelectual”. Não existem indisciplares. O que sei, devo- à conversa que tive com a tua DT. Se não faltaste a mais nenhuma, não há nada a reportar.
E o jantar? Já estava cozido. Coisas de homem. Ao fim de semana, é um investimento, três horas nas cozinha, comida sem prazo, que dure até domingo. Cozidos de segredos, descobertas de momento, criatividade à solta , alquimias e panelões, especiarias misturadas, tudo inventado, de inspirações ou, se preferirem, dee pressentimentos. Se saíu bom, ainda bem. Senão, paciência, come-se tudo, à mesma. Da próxima, sairá bem.
Mas, desta vez, safara-me. Bifinhos guisados, de cebolada à là desenrasca, arroz basmati feito no momento, tudo rápido, serviço gentil, o deste “Chez Moi” agradecido. Táva gostoso. No fim, vamos ao filme, com um chocolatinho de avelãs. Pasmámo-nos com acrobacias, desafios de miúdos, corajosas montarias em pranchas de body board. Lembrámo-nos do Carvalhal. Um dia, contarei. Filmes do mar. Antes, só meu. Agora, cada vez mais, o dele.

Terça, 22 de Fevereiro de 2005

Monday, February 21, 2005

Maturidade

Lembro-me do imberbe desespero que me assolava, quando ele atirava o prato para o chão. O que eu me zangava. Filho meu, homem, assim, não! A minha mãe, lá me explicava, “olha que tu, com as batatas, fazias de barcos e, do bife, já mem ne lembro”. Pois, desculpas de avó. Depois, fui crescendo, numa complacência sorridente quando ela me cuspia a sopa na cara … . Ai, o que a mãe me ralhava. “Essa camisa, lava-la tu!”. “E … e a máquina?”, balbuciava, “Essas nódoas? Há, quero vê-las a sair esfregadas sem mãos!”. E e eu sorria. Já sabia, tinha que ser, passei a vestir coisas com que que há muito não me via. E a história do “avião”, essa viagem duma colher que, antes de aterrar naquela goela fehada, passava por terrenos inpensáveis de aventuras galácticas, após voltas e revoltas a esconder-se dum mauzão. Com ele, pegava. Com ela, não. Ria e dizia, “ôta vês”. À cautela, a sopa da menina era sempre duplicada. Queria comer sózinha, ora com a colher, ora com as mãos e, metade, claro está, ia para o chão. Lá lhe ia dizendo, “Ai, ai, …. Assim não …!” O prato voava, a parede pintada, e eu, no meio de tanta sopa borrifada, lá lha ia dando enquanto exemplificava: “faz assim, com a boca”, … gargarejava. Só que, na minha boca, a sopa descia. Na dela … bom, subia. Ah, Perdoa-me Mãe querida, como é bom ser Pai porcalhão e brincar neste bocadinho que é a refeição.

Segunda, 21 de Fevereiro de 2005.

Sunday, February 20, 2005

Partir

Era para estarmos. Conversa de amigos. Ele, bem mais novo. Eu, nem tanto. E falarmos de tudo, dele, de mim. Cuidei das horas porque, à sexta, pode ser o fim. Horas de ponta, tudo e todos, contra todos. Como aqueles, coitados, esmagados, uns nos outros, impedindo-me o descanso para mais este encontro. Agradeci à sorte por não me ter ali. Ah, foi boa a prudência, a de sair mais cedo. Até cheguei a tempo de o chamar, “olha, já estou aqui”. “É só um bocadinho” e eu, fui comendo, lendo, bebendo. Hum, já passou tanto tempo. Parece que, hoje, não vão haver, nem encontro, nem conversas, nem amigo. Mais tarde, ligou-me, perdido, soou-me, de dôr,“perdoa-me, muito, perdoa-me por favor”. Sosseguei-o, não te procupes, foi uma pena mas, não fiques assim, não te quero infeliz. Não ligues, não foi nada. Olha, amo tu, muito, meu amôr. "Amanhã, talvez, logo se vê”. Ah, perdoar, a um filho? Sempre! Mas o quê?


Saudades, Sexta, 18 de Fevereiro de 2005

Amar

Há dias, assim. De gostar. Estar, só, abandonar-me. Sem ir, sem destino, ou chegar. Só, por estar, não olhar, não pensar. Apenas sentir-me, devagar, muito, muito devagarinho. Sem chorar. E amar-me, assim, tanto, de mansinho.

Manhãzinha, Domingo, 20 de Fevereiro de 2005.

Friday, February 18, 2005

31

Balanço, de vida. Com este, 32. Mas, este, não conta. O primeiro, a 3, deste mês, de 28. Contagem de textos, de dias, de Fevereiro. Se, à partida, já os tivesse, seria, primeiro, o "Côr de Rosa". O 13, a contar do fim e, por enquanto, do princípio. Depois, tanto me faz, como me fez, à medida que escrevia. Sou todo eu. Não as esperava, as visitas, tantas e tantas, de palavras amigas. Pressinto tempos, ventos, medos, do que aí vem. Desencontros? Muitos. Encontros? Talvez. Não o sou mas, um dia, serei, ainda, mais feliz. Obrigado.

Thursday, February 17, 2005

Miopias

Verão de 2003. Atitudes de separação. Navegação à vista. Fomos ao oftalmologista. Primeiro a Mãe. Também contou a nossa vida. Depois, na consulta da Filhinha, eu entrei. Perguntou se notámos sinais, ou de progressão, ou de regressão. “Não, está tudo bem”, apressou-se a Mãe. Ele, olhou para mim, discordei, “Talvez não”, “já em casa e, mesmo ontem, na da prima, aproxima-se e aproximou-se muito da televisão”. Referiu-me que, talvez fosse do pouco à vontade da rapariga, na casa da tia, tentando abstrair-se do que a rodeava. Como quem diz, estava em território inimigo, não se sentia bem. Voltei a discordar, “Esteve sempre muito àvontade e divertida”, “e, em casa, nada o justifica”. “Então, vamos tirar a prova dos nove”. Fez-se o exame. Afinal, aumentara a miopia. Relacionado com o crescimento mas, reversível, se acompanhado correctamente. Apesar de mais aliviado, continuei preocupado. A miopia tinha piorado.

Hoje, discordei. Quinta, 17 de Fevereiro de 2005.

Fitas

Fim de dia, sexta à noite, princípio do ano. Melancolia, cabeça vazia mas, até se estava bem. Pus-me na fila. Reparei na rapariga. Quantos teria? Desejei-lhe vinte. Era parecida, fez-me lembrar, muito, a Mãe. Enquanto se comparavam, esqueci-me dos olhos na moça do balcão. Acordei com o barulho de DVD’s no chão, moedas a saltar e uma menina corada que me dizia “… faz-me lembrar alguém”. A situação era, no mínimo, desconfortável. Ah, “hoje, os meus colegas, chamaram-me Victor … Melícias”. Confessei, era verdade, foi do que me lembrei. Mas não, seria outro, ouvi “Martin”. Tremi, associei-o ao único de que me lembrei, muito mais novo do que eu, cantor para adolescentes de, pelo menos, há um bom par de anos. Afinal, não. Que alívio, a moça dizia ser um actor. Saíu do balcão e mostrou-me um DVD. Lá estava, o cabelo todo branco, penteado à zézinho, bochechas pró descaído. Sim senhora, haviam parecenças, só não percebo porque não fico tão bem nas fotografias. Já o conhecia. Agora, o nome … lá descobri o “Steve Martin”. Em casa, sem ligar muito ao filme, relembrei. As parecenças da moça, com a Mãe, a de então.

Hoje, aluguei. Quinta, 17 de Fevereiro de 2005.

Wednesday, February 16, 2005

Poca Hontas

Lavar a banheira, tem que ficar tudo bem limpo, abram-se torneiras, tempere-se mais para o quentinho. No inverno, tudo arrefece, muito depressa. As toalhas já cá estão, pijama, roupão … eh, já está uma piscina. Abram alas, “Sra. Dona Majestade … “, nada, “Amorzinháá, vamos depressa, senão, não brincamos”. Ai, ai, ai … esta barriguita, está mesmo a pedir uma dentadinha. Começa a sessão, “… Pai, faz …!”, suplica. Aqui vai, toda deitada, bem esticadinha, boiando por cima das minhas mãos, embalava-a, para trás e para a frente, a água ondulava, “Tomba larão, cabeça de cão, orelha de gato não tem…?”, suspense, “ … não tem o quê?”, mais suspense, “… não tem, não tem, não tem …” , punha-me em posição de ataque, ela, já nem respirava, à espera do meu final e, eu, “ … não tem penas!” Ah, que alívio, esta ainda não contava. E lá voltava ao princípio. À terceira, tinha que ser, “…orelha de gato não tem…”, suspense, posição de ataque, “não tem … não teeeemmm …” e, de repente, “… CORAÇÃÃÃOOO!”. Atirava-me à barriga, fingindo que mordia, grunhia barulhos medonhos, coisa de monstros, eu sei lá o que lhe fazia … . Ela saltava, berrava, gargalhava, espernejava, tantas cócegas, ria, ria … . Que excitação. Mais uma vez, terei que limpar o chão. “Fechem a porta!”, ouvia-se da cozinha, a Mãe assustava-se com tanta gritaria. Depressa, que a água fica fria. Champô e, “ … pronto, já está!”, dava-lhe uma toalhinha para limpar os olhos, afligia-se quando a água os cobria. Já se passou um quarto de hora e, de banho, só o cabelo. Vá, vamos ao resto do corpito, “Então, já está?”, entrava a Mãe, olhar grave, admoestador, “… olhem-me só para este chão, a água já está fria, não sei quem é mais criança!”. Olhávamo-nos, coisa de pai e filha, cumplicidades, fingia-me, “Está quase, está quase … só mais um bocadiiinho!”. Mais água quente, banheira quase a transbordar, e ela, “…ó Pai, faz mais!”, eu, advertia-a “Só mais uma vez!”, “Não, mais três!”, “Mas não podes gritar tanto, senão a Mãe ouve”, “Eu não grito, eu não grito!”. Ai não, que não gritas, deixa-me fechar melhor a porta, que lá vamos outra vez. Esgotadas as últimas, depois daquelas três, toca a limpar, depressa, para não teres frio. Uma toalha no corpito, outra no cabelo, “vamos fazer o ááá´”, e o “áááÁÁÁááá” ia e vinha, ondulando no abanar da cabeça equanto lhe limpava o cabêlo. Depois de escovado, esticava-o, estava tão comprido … , “Já está como o da Poca Hontas, Pai?”, “Olha que estás igualzinha …!”, “Mas ela tem outra pele!”, “É porque lá está calor e já foi à praia …!”. Cotonetes e ouvidos. Pijama, roupão, chinelos, faltam os chinelos. Agora sim, estás quentinha. Chão enxuto, toalhas estendidas, ralo limpo, juntava-me aos três, que já comiam. Um olhar doce, de cuidados, “Não o queres aquecer? Já está frio”. Amôr Grande, “Não vai ser preciso, para mim está morninho, gosto dele, assim …”, deste nosso dia.

Hoje, molhei-me. Quarta, 16 de Fevereiro de 2005.

Traição

Frio de rachar. Era verão. Mas, em Vila Nova, as noites, de Mil Fontes, são mesmo frias. Ainda por cima, sendo noite de pescaria. Friezas de mulher, indignação de Mães, noite de traição, ciúmes dessa amante, sim, dessa, a de pescaria. Lá concordámos, que sim, não viríamos tarde, teríamos cuidado no regresso, queriam sossego, os miúdos dormiam. À despedida, afaguei o cachorro, sempre brincalhão, o meu novo amigo, o meu cúmplice silencioso. Ainda não lhe ouvira grande coisa. Lá rosnava, baixinho, enquanto nos roía as mãos, gania quando se aleijava, arfava porque corria. Já comentáramos o assunto. Diabo do bicho, já tinha idade para mostrar algum vozeirão. Pois bem, vamos aos carapaus. Fez-se tarde. Peixe? Mesmo nada. Frio? Por demais. A Noite, já na madrugada e, “Ó pessoal, que tal deixarmos o resto do peixe p’rá manhã? Senão, ainda se acabam …”. Que sim, vamos primeiro ali, aquecer o espírito. No fim, despedimo-nos, abafando o riso, com um “Então, bom dia!”. Ah, que bela, a vida. Hoje, dormiria na sala e, os pequenos, com a mãe. Pé ante pé, entrei. Uns ressonam, outros assobiam. Sala com ele, fecha-se a porta, já me safei, luz acesa para …, e aquilo aconteceu. Esse, o meu amigo, nem me conheceu, tomou-me por bandido, tudo acordado, grande o reboliço e, quanto mais me escondia, mais me ladrava. E ladrou que se fartou, via-se que gostava, assim, de ladrar por ladrar, não se calava. Por pouco, não veio a polícia mas, até ao fim, acabou-se a pescaria.

Hoje, prenderam-me. Quarta, 16 de Fevereiro de 2005.

Curas

Demos por um corrimento, fomos a correr, podia ser grave. “Teve relações?”, olhámos um para o outro, encolhemos os ombros, “Dra., vontade não lhe falta mas, que saibamos, não”. “Têm a certeza …? alguma menina vadia …?”. “Ai, isso é que não!”, esclareceu a Mãe. Diagnosticou, “É uma infecçãozita, nada de grave, primeiro betadine, depois, pomadita, assim, numa seringa, abana-se o prepúcio, p’rá frente e p’ra trás …”. Exemplificava, ele gostava, pois, via-se, a olho nú. A Mãe olhou-me, calma, demasiado calma, mirou a demonstração, depois, sussurou-me, “eu dou-lhe os comprimidos e, esta parte, fazes tu”. Chegados a casa, lá teve que ser, os miúdos sorriam, mas ele, todo satisfeito, não se fazia rogado, já me esperava deitado. Estou a falar do cão.

Hoje, resmunguei ainda mais. Terça, 15 de Fevereiro de 2005.

Terceiro

Eu não queria. Ele, chorou, deixou de comer, de me falar. “Quero um!”. “Quando mudarmos de casa”, “e pudermos”. Mudámos, mas não podíamos, assim o entendia. Depois, já era o único que não queria. Coisa feia, a minoria. Sem a Mãe, autoridade não havia. Tentei, que ele, também, não podia. Pedimos um emprestado, bébézinho, pela dona à rua tirado, cócó, chichi, vomitado, ficou tudo empestado, O Filhão limpava, a Mãe ajudava. Devolvemos e agradecemos. À noite, já não queria. Fiquei aliviado. Uma semana depois, já queria, raça de moço marafado! “É coisa viva”, “e depois?”, “não é consola, computador ou televisão!”, “e depois?”, “cócó, chichi, vomitado”, “eu limpo, passeio e cuido!”, “no inverno, chuva e frio”, “eu cuido!”, “vacinas, doenças e veterinário”, “eu trato”, fez-se ouvir a Mãe. Derrotado! Como se não bastasse, veio aquela vózinha chover no molhado, “ó pai, deixa o Mano ter um cão”. Derrotado! Ah, mas não, se querem um cão, as regras tenho-as à mão … . Onde dorme? Fica em casa, não há quintal e a varanda é desabrigada. Raças? Só as amigas de crianças. O Filhão já o escolhera, pois que fosse, um golden retriever. Demos com o último numa ninhada, ninguém o queria, já estava com 4 meses, “tenha paciência, restos de colecção, só com preços de saldo”. Fomos a Coimbra. Tímido e medroso. Não era peludo como os outros. Ora, maldito o coração, velho, trôpego, "Parvo!", a fazer boquinhas ao cachorro. Chegou a separação. Gostou do colo no carro. Hora de lanche. Chocámos com pavores. Os dele. Sítios escuros e toldos? Foge, desgraçado, nem vos quero ver, vou já esconder-me. … quase morreu atropelado. Para entrar no prédio, ao colo o carreguei, mal chegou a casa, debaixo da cama aquartelou. Coisa estranha, num sítio escuro como breu. À noite, demos uma volta, ele, medroso até mais não, qualquer folhita o assustava. Foi cheirando e recuando, avançar, só ao colo, e como era pesado. O que me havia de calhar, mais um filho abébézado. Noite não tivémos. De manhã, lá estavam todos, chichi, cócó, vomitado. Partimos logo de ferias, e quem o treinou asseado? … o levou à rua e brincou? … no veterinário o vacinou? Pois, este pai dominado!


Hoje, resmunguei. Terça, 15 de Fevereiro de 2005.

Tuesday, February 15, 2005

Cuidados

Sexta, grande algazarra, “isso é tudo namoradas?”, que não, tinham ido à praia, com as três do costume, baixou a voz, “só elas é que falam”, mais algazarra, tinham ouvido, demorou, mas lá se acalmaram, “como correu?”, não houve matemática, professora doente, teste adiado, temos mais tempo”. Sábado, a caminho da BP, “e qual foi o último?”, o de Inglês, “tive 13", entusiasmei-me, “excelente, parabéns”, que não, queria mais, que precisava. Questão de contexto,“Acho bem, ou Bom, ou mais, mas, de 11 para 13, é excelente”, e “o que falta?”. Composição, sobre a robótica, “… como se diz, em Inglês?”, “robots”, “acredita em mim, será: robotics”, e “sabes o que é?”, que sim, mas não disse. À cautela, “gosto muito desse assunto, posso trabalhar contigo …”, desnecessário, uma composição, coisa sem importância, “Filhão, não estragues o 13”, que te custou. Sorriu-se, percebendo que, mesmo no Inglês, o pouco de bom, também se perde.

Hoje, calculámos. Sábado, 12 de Fevereiro de 2005.

Labirintos

Na Terça, garantiu-me: “Pai, os papéis, para a carta, vão-se buscar à seguradora F”. Indaguei junto de amigos, os meus. Na zona, só em Cascais e Algés. Na quarta saí mais cedo. Algés, 17:30, fechada. Horário? Para mim, fora de serviço, sempre. Na Quinta, “Call center”, atenderam, que não. “Filho, eles não sabem do que estou a falar”. “Pai, mas a chocapic disse que sim”. “Chocapic?”. “..., a C”. “E onde foi?”, “Em Dezembro no liceu da Madorna, durou 15 dias”. Porque não lhe telefonas, a confirmar? “… em Andorra, só volta no Domingo”. Falei-lhe do que li, numa revista, mencionando a Prevenção Rodoviária Portuguesa. Sugeri-lhe uma pesquisa na net. “Eu pergunto a outros lá na escola”. Sexta, ponto de situação: “Então, o que disseram?”. “Já sei, é em Paço d’Arcos”. Íamos lá no Sábado, para vermos onde fica. No dia, 10:30, “Estou a ir para aí.”. “Pai, ainda estava a dormir, pode ser à tarde?”, “É melhor de manhã, há mais coisas abertas, mais pessoas a quem perguntar”. Cumprimentos no encontro, beijos de pai e filho, de que agora tem menos vergonha, deixa-me feliz. “Entaõ, onde fica?”, “…é qualquer coisa chamada MZ”. Esquecera-se. “Não há problema, pergunta outra vez, ao teu colega”. Peremptório, “DGV, Direcção Geral de Viação, ao pé da BP”. Fomos perguntando, “…sabe onde é?”, que não, nunca tinham ouvido falar, nem a escola de condução, que fica lá ao pé, o sabia. Ficou abatido. “Não te preocupes, havemos de encontrar”, “falas com a chocapic e pesquisas na net”. Segunda, “Então, já sabes?”. A chocapic confirmou, papéis na seguradora F, aulas no da Madorna. “E a pesquisa na net?”. “A Mãe vai fazer”. Não percebi porquê, pressenti impasses, joguei-me ao Sapo, lá estava a PRP, licença especial, de condução, para 50cc, até os papéis, para a inscrição, lá estavam, quase todos. Que sim, inscrições, também entregues na seguradora F. Ligo, “aulas, Cascais e Oeiras? Na secundária do Penedo, ou Abóboda”. Secundária do Penedo, igual a liceu da Madorna. Tudo bate certo. Compus um e-mail, “edit, copy paste”, ficheiros “atachados”, “Filho, agora também é contigo”. “… que mais precisas?”. “Obrigado, Pai”. “Beijão p’a ti, Filhão”.

Hoje, progredimos. Segunda, 14 de Fevereiro de 2005.

Monday, February 14, 2005

Pretextos

Sexta-feira, abraços, beijinhos, mais beijinhos. Queria saber-lhe tudo, “ … e a exposição do trabalho sobre o tubarão branco, o professor gostou?”. Vacilou, “… foi bom", “… mas nós não lemos lá muito bem, sabes Pai, enganámo-nos em muitas palavras por causa do nervoso e a professora perguntou se estávamos a aprender a ler …”, ufa, que fôlego, “ … mas gostou do trabalho que fizémos …”. Ah, “ … que excelente, filhota, estou muito contente” e, lembrando-me, “… há novidades dos testes?”. Desviou o olhar para o lado, “… o de Ciências correu muito mal …”, apertou-se-me o coração. “ Não te preocupes, há mais testes, que venha o próximo …”. Deu uma risadinha, olhou para mim, “… tive Bom …”. Mal refeito, lá balbuciei, “… grande bandida…!”.
Finalmente, atrevi-me, “ … vão fazer alguma coisa no dia dos namorados …?”. Ui, que entusiasmo. Que a escola organizou uma caixa de correio, especial, para lá colocarem um pedaço de coraçãozinho. Que, no ano passado, um “… gato …”, “… um quê?”, sim, “um”, do 6º ano, recebeu mais de 30 cartas, “ … e tu, também lhe vais escrever uma?”, que não, “ … é abusado de convencido …”. Que o grupo delas encarregou uma outra, de colocar todas as cartas na caixa, para ninguém ver e saber “que elas enviaram cartas aos rapazes”, “… porque é muita vergonha toda a gente saber …”. Ah, segredos, orgulhos, amores, meninas …, se eu soubesse da caixa, também lá tinha posto uma cartinha. Preparei-me, lá foi, “Olha, tu sabes que eu ..., não tenho namorada, podias ser a minha namoradinha, no dia dos namorados?”. Duas risadinhas, empolgamento, “O que é que me ofereces?” , “ … pois ...”, “ … um relógio novo?”, pois, “… tinha pensado numa flôr e num postal bonito …”. Trocista, sentenciou, “ … assim, não convences ninguém!”. Engoli em seco, “ … mas, o importante, é o amor …”. Ora, aquele brilho nos olhos ..., estávamos combinados.
Domingo de manhã, pelas compras, plantinha numa mão, postal na outra, “… e hoje, porque não?”, arrisquei. “ … estás em casa?", "podes descer um bocadinho? É do dia dos namorados … eu não sei como vai ser amanhã, preferia hoje … não é nada de especial, aquilo de que falei … ”. Não se surpreendeu, que sim, desceu, deixando-me com mais lembranças, de estar enamorado.

Hoje, brinquei. Domingo, 13 de Fevereiro de 2005.

Saturday, February 12, 2005

Namoro

Quantos anos teria … cinco? … seis? Lembro-me de as ter comprado à entrada da Estação, no Cais do Sodré. Sempre detestei este dia, muito corrompido. “… tenho de levar mais, afinal, são duas …”. Ah, este ano, o amor sorria-me. Caminhei, orgulhoso, de ramo farto, bonito, frondoso. No combóio todos me olhavam, sorrindo, tantos cuidados com aquele tesouro. Autocarro é que não, ficaria todo amachucado. Vamos de taxi, o que levo é precioso. Combino com o Filho, “ … esta é para a tua namorada …. chchchchchch … , sim, a grande”. Depois dele, entro eu, ofereço-as à Mãe, “… um beijo, são para ti, meu amôr …”. Virei-me, ajoelhei-me, devagarinho, estendi-lhas, declarei-me, “… para a minha namoradinha …”. Surpreendida, pegou nelas, trémula, e, de repente, desmoronou-se num pranto, num tal pranto, que me afligi. Abracei-a, peguei-lhe, embalei-a, “… o que foi, meu amôr … o que foi …?”. Ainda hoje, não sei, o que a fez ficar assim, naquele lindo dia, de namorados.

Hoje, enamorei-me. Sexta, 11 de Fevereiro de 2005.

Friday, February 11, 2005

Novo

Ele, o mais velho, não caminhou. Sempre correu, sempre, mais à frente, do que eu. Até no dia em que nasceu. Conduz-me para sítios desconhecidos, arrasta-me para o impensável, por vezes de magia, outras, de muito perigoso. Fez-me rir e, bolas, chorar. De nada vale olhar-me na vida, tentando adivinhar-lhe a próxima jogada. Nada se pode esperar, dum filho mais velho, tão depressa é doce como, depois, amarga …! Para o acompanhar? Bom, isso, fica para outro dia, o melhor que consigo, é persegui-lo, ... mas, à distância ...! . Ora, um filho mais velho, não se deixa apanhar. Com ele, é tudo novo, sempre, em cada dia. Não há táctica que me valha, só me resta esperar o que a sua mente decida. Depois, lá vou eu, outra vez, tacteando pelo caminho que ele, umas vezes, vai abrindo, outras, rasgando, não para mim, para ele. E, em cada caminho, com um alfinete de paciência, explica-me o que é isto, de ser pai. Se um, e melhor, para ele, não sei, mas, pelo menos, para o o outro, o mais novo, neste caso, uma filha. É que, nisto, dos filhos, com o mais velho, é sempre tudo muito, muito novo …

Hoje, persisto. Sexta, 11 de Fevereiro de 2005.

Junho

De 89. Muito quente. Nada tinha sido fácil. A Mãe, martirizada, 3 meses em casa, gravidez de risco, hipertensão. Chorava, muito, deprimida, da solidão. A médica pô-la de baixa, sem autorização para sair de casa. Por azar, nos dois dias em que saíu, um dos quais para a consulta, apareceu o fiscal da segurança social. Ficou tão aflita. Num dia, de manhã, vieram as águas. Como combinado, corri ao J, casal amigo, 6º C, guiou como um louco, até ao Dona Estefânia, Magalhães Coutinho, edifício arrepiante. Entrou. Voltou, entregou-me a roupa, ainda estava atrasado. A sua médica não viria, congressos, receei que a Mãe não fosse bem cuidada, era uma sexta-feira, quase sábado, do descanso, nós sabemos como são estas coisas no hospital. Entrou às 9 da manhã. Pela tarde, deixaram-me vê-la, sózinha, lençol em sangue, em desalento, assustada, Fiquei com ela. Veio-me à memória, lembrei-me do cordão. Era um domingo. A Mãe, sentiu um estremeção, disse, “ … tenho a sensação de que bébé sufoca no cordão”. Corremos para o hospital, o bébé estava bem. No agora, vieram médicos, mediram a dilatação. Podiam ter usado o sôro, mas haviam outras à frente, se calhar suas pacientes. Já noite, mediram-na outa vez, disseram, "vai para o parto, o bébé está em sofrimento". 9 e meia da noite. Estranhei, os outros choravam, o meu não, pareceu-me que miava, chamaram-me à sala, vi-o deitado, sobre o peito da mãe. Enquanto a cosiam, ela esboçou um sorriso, tirei-lhes uma foto, “posso pegar?”, “mas tem que ser rápido”. Aninhou-se, tão quentinho, mas logo mo levaram, “para observação”. No dia seguinte apareci para a visita, munido de flores, da família e de muitos amigos. Qual é a cama, não a encontravam. Por fim, disseram-me, "na sala de observações", por causa das costuras. Ao seu lado, outra mãe, que chorava a filha perdida. Do nosso filho, tinha ido vê-lo, estava a soro, estava bem, diziam-lhe. Por causa do cordão, ficara com a garganta ferida, a custo mamava, não chorava. Foi um choque, pediu-me para ir vê-lo, e fui. Bata por cima, entrei no berçário, indicaram-me um bébé rosado, de cabelo rapado e soro espetado, na cabeça, pois. Era tão bonito. Chorei. Quando me acalmei, voltei à Mãe, “é tão bonito”, disse-lhe que estava bem. Depois, foi a recuperação, da Mãe e do filho, até que se juntaram, finalmente, num quarto decente. E eu queixava-me, ao otorrino, “ele não chora …”. “Não se preocupe, dê-lhe um tempo, prepare os ouvidos ...”. No primeiro fim de semana em casa, foi um reboliço. Ora mamava, ora deixava, pouco dormia. A Mãe arreliava-se, com o próprio leite, recorremos aos suplementos, vieram os gases, prisão de ventre, ele chorava, ó se chorava. Quando adormecia, a Mãe dáva-mo, punha-o em cima da minha barriga, o calor aliviava-o. Depois, quando me virava, ele aninhava-se, como uma cobrinha, vinha, vinha, encostava-se ao meu corpo. Aprendi o que eram fraldas, biberões, esterilizações, fatinhos e camisinhas, dôres de costas e cantigas de embalar, pô-lo a arrotar.

Hoje, tive saudades. Quinta, 10 de Fevereiro de 2005

Thursday, February 10, 2005

Terça

Tinha tudo planeado. Que é como quem diz, adiado. Ora então, …. às 5, já estava acordado. Tudo normal. O que fazer … ?, hoje não é dia de trabalho, foi só um pesadelo. De manhã, piscina, depois, logo se vê. A roupa está por tirar, carne picada para fazer, sopa para cozinhar e …, bom, depois, logo se vê. Ah, e muitos papéis para arquivar, assuntos do condomínio e ... , caramba, hoje é feriado. Estou farto de ficar deitado. Vamos, vamos, o “Cantinho” já deve estar aberto. É longe, ao pé da Igreja, finalmente, um café, estou quase acordado. Tratemos do saco, arrumemos qualquer coisa, é preciso não parar … ah, e também há o carro por lavar. Que diabo, mas hoje é feriado. Até às 5, as da tarde, o dia é meu, todo, só meu. Depois, logo se vê, não faço jantar, vou comer os coelhos que ajudei a esfolar. Almoço? Que rica sopinha, foi feita pela mãezinha, vou-me deitar, tenho muito tempo, já sabem, hoje é feriado. Não sei deles, dos Filhos, queria ligar-lhes, perguntar-lhes, “ … às 5, querem vir, comigo, à casa do ZC? … “… hoje não, pai, já tenho combinado uma ida ao teatro”, ou lá o que fôr, pensei, desejei, hoje gostava de ser lembrado. Sopinha não foi, atum e feijão, do frade, que bem me soube, deitei-me, telefone, era o ZC, convidava-me, “ … almoço?”, “… obrigado, já estou almoçado”, “vem daí “, “para quê?”, “… ajuda, preciso de ti”, “e o ZB?”, “… bandido, desaparecido”, certo, conta comigo, aqui vou eu, pensar que este era, para mim, um dia planeado. Não interessa o que fiz, o que pude, às cinco, lá fomos, a casa do J, feitas as contas, já em 30, não cabíamos na do ZC. Grande festa, um arraial, cantámos, rimos e não chorámos. Entrámos no vinho, ou ele em nós, trocaram-se provas, coisas do Mouchão, tinto redondo, graduação temida, chá escocês, caldo entornado. Lá fomos bebendo, mais do Mouchão, às duas por três, uma baixa, uma menina, a T, foi para casa, discussão, algazarra, que causa haveria para assim ter ficado? Vi gente, boa gente, embalei-me, também nas cantigas, mais nos copos, sobrou coelho, “.. leva, ó D”, não me fiz rogado, não vi o caminho, temia pelo carro, cheguei bem, quando me deitei, corri, “… o que hoje bebi, já não está aqui”, não, não era eu, à sanita abraçado. Depois, dormi, às 7 despertei, levantar-me não pude, aguardei, experimentei o banho, cabeça de chumbo. Ora bem, não há como o vinho em dia feriado.

Ontem, dormi. Quarta, 9 de Fevereiro de 2005.

Relato

Como não atendia, lá foi um SMS, “Olá, como estás, pensei em ti. Beijos do Pai”. Um toque, seria do Filhão? … não, era da Filhinha. Arfava, “Olá Pai desculpa não ter atendido mas estava com o sangue”, disse num fôlego. Percebi, estava a estancar uma hemorragia, tinha as narinas tapadas, respirava pela boca. Entrei em ansiedade. Respirei fundo e perguntei-lhe, “Podes falar, ou é melhor deitares-te mais um bocado? “Não, pai, já parou. Olha, pai, como estás, estás bem?”, “Agora estou …”, riu-se, “ … e tu, o que fizeste na Terça?”, “Fomos a casa da avó …”, “e o avô, já está em casa?, “… ainda não pôde vir”, respirou, “… estavam lá os tios e os primos, a tia J não estava, porque ficou no Algarve, e tu, onde foste?”, dei-lhe tempo, “à Praceta”, “… foi giro, perguntaram por ti e pelo teu irmão. Éramos 30, e gostei muito, foi no J”, “… era para ser no ZC, mas não cabíamos”, “ … 30? … a F … (mulher do J) devia estar muito zangada …”, “… não me pareceu, se tu visses o que as mulheres beberam …”, “… o que vais ter hoje?”, “… estudo acompanhado e o trabalho de campo …”, “… o do tubarão branco?”, “sim, olha Pai, estou a ficar atrasada …”, “... isso é que não, olha, um beijinho muito grande e muito bom dia”, “… também para ti, Pai”.

Hoje, estou aqui. Quinta, 10 de Fevereiro de 2005.

Wednesday, February 09, 2005

Sítio

6 da manhã. 1º e 3º domingo. Em cada mês. Os martelinhos relembram os incautos e os adormecidos, que hoje é dia de cuidados. Chamamento de feira. Lembro-a, de então, espalhada pelas ruas de Rana, de onde veio escorraçada, para a mata, ali, mesmo ao meu lado. Não vai haver lugar, nem para um carro estacionado. Garagens fechadas, tudo trancado. Usam-se cadeados. Com a feira vêm outros que não vendem por atacado. Rondam, rondam, de olho no alheio, à procura de um descuido, dum tesouro escondido, nada está a salvo neste dia de pregões, também de trinados, onde tudo se vende, desde pássaros a melões. Da Mãe, uma bicicleta fugiu, num dia de feira, já se vê. Foi grande a raiva. A impotência. Agora, querem mudá-la, para longe. No lugar da feira, fica um jardim. Pois sim. Prefiro a feira, ao jardim. Enquanto houver feira, sobra a mata, mesmo aqui, ao pé de mim. Porque hoje, é muito fácil vender um jardim.

Hoje escolhi. Domingo, 6 de Fevereiro de 2005.

10 Euros

Era pequena, a banca. Procurei “XL”, mas não, só “L”. “Ó jeitoso, experimente esta que lhe fica bem”. Pois, era bonita, mas não servia, não a queria. Insistência, a da senhora, cigana. E eu, “.. que ia ali e vinha…”, mas não a vencia. ”Do seu pessoal, onde há mais?”, atrevi-me, sabendo como trabalham, em família.
Libertou-me para outra banca, cheia de “polares” e, também, muita, muita gritaria. Mas a minha, não havia. Mais adiante, já em abandono, olhar feito de pensamentos, poisei-me numa azulinha.. Que pena, “… não haver XL”, lamentei. “… tenho ali um guardado”, respondeu. E tinha. Pele curtida, vida difícil, a de uma cigana. E o sorriso, continuava, “… vá, leve, também, a clarinha”, percebendo-me, num olhar, que a queria. “Suja-se muito”, desculpei-me, na certeza que soube como lhe mentia.

Hoje, encontrei. Sábado, 5 de Fevereiro de 2005

Tuesday, February 08, 2005

Higiene

Ela não está, para se lançar no meu colo e eu lhe fazer, com o queixo, cócegas na mão e no pescoço. Depois, outra não há, para se queixar, em susurro, olhar comprometido e semblante disfarçadamente zangado, dos seios arranhados num momento de calor. Não vão haver colegas críticos a policiar o meu aspecto. A barba. Hoje não a faço.

Hoje, decidi. Terça, 8 de Fevereiro de 2005.

Monday, February 07, 2005

Coelhos

Senti-me mentalmente esgotado, aquela sensação de zumbido na cabeça, vazia, quase a estalar, pedindo-me sono que não havia. 17 horas. Recostei-me. Tocou o télélé. “O que é que estás a fazer?”, perguntou o J, na a sua aspereza alentejana. “Estou já a sair de casa”, disse eu, sabendo que estava atrasado, “Já está tudo aí?”, “Há muito tempo, despacha-te!”. Pois, tábém. Procurei as luvas de borracha, daquelas da cozinha, mas não haviam. “Lá, arranjo umas”, peguei no impermeável da pesca e abalei. “Então, isto é que são horas?”, cumprimentou-me o ZC, e não me importei. É assim com todos, mesmo quando chega atrasado. Arranjei umas luvas, vesti o impermeável e apresentei-me. “O que posso fazer?”. O ZC apontou para a fila de coelhos bravos, pendurados pelas patas traseiras. “Pega naquele …”, que já estava começado,“ …como se faz?”. “Assim, com pequenos golpes, e vais soltando a pele. Sempre que ficar presa, vês o que a está a reter, e qual a melhor forma de aplicar os golpes para se soltar.Há sítios em que, antes de puxares, vais precisar de separar, primeiro, a pele da carne com o dedo.“. Admirei-lhe a pedagogia. Com o estômago às voltas, lá fui fazendo pela vida. “Agora, tens de ter cuidado para não lhe arrancares a cabeça”. “Mas ela já está meio arrancada …”. “Vê o que podes fazer”. Marcharam as orelhitas, trabalho feito. “Este já está, e agora?”, eu, na esperança que me libertassem. “Pega no outro. Primeiro golpeia à volta das pernitas”. E lá fui pelando o bicho, inventando para o aliviar da cauda. Finalmente, safei-me. Por essa altura, já estavam todos esfolados. Foram lavados, esquartejados e mandados descansar em vinha de alhos. Discutiu-se o cozinhado e a hora do manjar. Serão estufados e comidos às 5 da tarde, Terça de Carnaval. Reunimo-nos no atelier do ZC, envolvidos pelo quentinho da salamandra. Éramos cinco. Lá vieram as cervejitas, cajus e amendoins. Estava-se bem. Desafiei-os, “Como vão os planos para a Páscoa na Neve?”. “Porquê, agora já vais?”. “Não, mas gostava de saber”. Apercebi-me de ser esta a primeira vez que pensavam mais a sério no assunto. Tomaram-se algumas decisões, adiaram-se outras, porque não estavam todos, e galhofaram com os episódios recambolescos da estadia anterior. Ri-me e viajei com eles. Quando cheguei a casa, já não tinha a cabeça vazia.


Hoje viajei. Domingo, 6 de Fevereiro de 2005.

Côr de Rosa

Compraram, cozeram e fiaram. Leram a cara da Mãe, como ciganas que lêm a sina, aquelas manchas não enganavam. Era côr de rosa, pois então. “Olhem que não”, advertia, que o sabia, porque o queria. Mas aquelas manchas na cara da Mãe, tudo diziam. Ah, e a barriga, tão redondinha? E a Lua, Santo Deus ...! “Olhem que não”, lá lhes dizia, já farto de feitiçarias. E as três, sorriam, como senhoras da verdade, senhoras da vida. Para me sossegar, lá foram bordando coisas em branco, e amarelo, “e azul ...?”, sim, também, sacrilégio do diabo que tudo ouvia. Elas, e a Mãe, todas contentes, fiavam, fiavam e eu, só via fitinhas, “...é pró cabelo!”,diziam, “... e o vestido?”, “ ... prá menina ...”, e a Mãe, fugindo com olhos, lá repetia, “Tanto me faz, seja o que for, vem do amor, por isso, que venha bem.”. E veio o dia, da próxima ecografia. “Aqui está a cara, ali a orelha, o nariz, tudo perfeitinho”. Eu bem olhava, dizia que sim, não lhe via a cara, a orelha não distinguia, mas que lá havia uma coisinha viva, havia. Olhei a Mãe, que me fitava, e lhe perguntou cheia de coragem: “É menino ou menina?”.”Ainda não sabem?”. “Pois não ...!”. “... seja o que fôr, que venha bem“. E ele, “... cois’e tal ... cois’e tal ... testículozinhos ... lindo menino ...”, no fim, todo eu sorria. Acompanhei a Mãe a casa da mãe. Que ao saber, meio zangada, magoada, “Vá-se embora, daqui não me leva nada!”, queriam estar sós, coisas de mãe e filha. Soube, depois, que Mãe chorou. Afinal, ela que tanto sofria, tivesse ao menos a felicidade do que queria. Depois, foi uma Mãe linda, com aquele filho que a nós vinha. Hoje me rio, com tão pequeninos pedaços, deste doce chocolatinho na minha vida.
Primavera ou início do Verão de 1989.

Hoje sorri. Segunda, 7 de Fevereiro de 2005.

Sunday, February 06, 2005

o Porto

Por pouco mais de 25 Euros, já se vai do Porto a Londres. E de Lisboa. Mas eu não quero ir a Londres. Sonho num domingo, apanhar o avião, de manhãzinha, farnel na mochila, e sentar-me ao pé do Douro. Ou ir a Faro, visitar a minha doce tia. Podia, também, fazer o mesmo a Madrid, com companhia.

Hoje sonhei. Domingo, 6 de Fevereiro de 2005

Contas

15 contos em dinheiro português. Pelo menos. 5 idas ao cinema com os Filhos. 2 vezes ao restaurante, também com eles. Umas calças bonitas para o trabaho. Oftalmologista, lentes novas, ou um mês de gasolina. Água, gaz e electricidade. Dois meses de aulas de natação. Anos de vida. É este o amor que destruo, nas beatas do mês.
Hoje tremi, Domingo, 6 de Fevereiro de 2005.

Saturday, February 05, 2005

Prendas

Um livro. De “Como ajudar o seu filho”. Ainda por cima, de uma autora estrangeira. Como se já não chegasse a livralhada, que nunca me ajudou, dos nossos psiquiatras, psicólogos e afins. Como se, ser pai, fosse coisa que se aprenda nos livros. E porque não? Veio dos padrinhos do Filhão, senti que o tinham lido, era a sua forma de me dizerem “Queremos partilhá-lo contigo“. No outro dia, peguei-o pelo meio, saltei para o início, recuperei o fôlego e pensei no meu Filho. Então, deitei-o fora, devagarinho, ao Pai. Derrubei preocupações e vi outro Filho.

Hoje agradeci. Sábado, 5 de Fevereiro de 2005.

Os Padrinhos

Do Filhão. Percebo que ele é muito crítico em relação a mim, embora, na maior parte das vezes, não o diga. Amigo? Também. Acima de tudo, é como um irmão. Talvez se reconheça nos meus erros e, emboras isso o ajude, também o incomoda. Têm sempre o cuidado de não nos juntarem, a mim e à Mãe, desde a desunião. Não sei como fazem e escolhem. O segundo filhote dos três, o A ..., também é Nosso afilhado. Quando alguém faz anos, não me convidam. Se me lembro e telefono, dizem “Aparece!”. Quando chego, sei que a Mãe já lá esteve. Se ainda lá está, não entro, espero. Por respeito, a eles, a Ela e aos meus Filhos. Esta é a nova vida.

Hoje, aterrei. Sábado, 5 de Fevererio de 2005.

Aniversários

“Olá, bom dia meu Amor, gostei muito quando te vi na piscina”. “Olá, Pai”. “Hoje vais fazer alguma coisa?“, “... não sei ...”, disse com voz de incomodada. “A C... hoje faz a festa dos 11 anos e eu, vou até lá. Queres vir comigo à praceta?”. “Pai, não sei ...!”, que é como quem diz, não insistas. Quis sossegá-la, percebendo um conflicto na sua cabecinha. “Olha, Amor, o pai só está a dizer, para saberes e, só se quiseres, também ires.”. “Pai, não ... vou fazer os trabalhos, mas olha, diz à C que mando um beijinho e parabéns”. “Serão entregues. Um beijinho, amo-te muito”. “Eu também, Pai”. Agora, a sua voz estava mais natural. Quando cheguei a casa da C, ela interrogou-me, “A ... (tua Filha)?”, “Olha, não pôde vir, mas pediu-me para te enviar esta lembrançazinha, um grande beijinho e te desejar muitos parabéns”. “... que pena, muito obrigado ...!”. A C é muito maria rapaz. Lá a vi, mais aos colegas, em brincadeiras atléticas e audazes, por vezes brutas e perigosas. O pai, já sabendo do que a casa gasta, lá andava em cima deles, tentando abrandar aquele ritmo. Se a Filhota cá estivesse, iria sentir-se marginalizada, ficaria na sala a ver televisão. Até porque estava um frio de rachar. Hoje falei com a minha filha.

Sábado, 5 de Fevereiro de 2005

Piscina

Quando cheguei, olhei para os pequenitos da aula. Ela ainda não estava. Comecei pelas de “crawl”. Pelo meio, voltei a olhar. Ah, tinha chegado. Acenei até me ver. Também me fez adeus. Fui nadando, já ia nas de costas. Parei um bocado, a aula já tinha acabado. Estava à espera, ao pé da Mãe, na aula de hidro. Mais piscinas, quase a acabar, passaram elas, olhou para o lado, como que implorando “Pai, agora não”. Depois foram-se embora. Não mais a vi, neste Sábado. Hoje, não abracei a minha filha.

Sábado, 5 de Fevereiro de 2005.

Virtude

Está no meio. O óptimo é inimigo do bom. Frases feitas. Por onde andam os meus “meios?”. Se calhar, já lá passei, sem nunca dar por isso. Com a certeza de que fazer o bem, e fazer bem, é estar-se no meio. Fazer os filhos sentirem-se bem, é bom.

Hoje acordei. Sábado, 5 de Fevereiro de 2005.

O Medo

Não te chegues, a mim, Filho. Porque podes sentir, este, o meu medo. Sabes como é, trememos, da cabeça aos pés, só de pensar, de entrar, na realidade. E sair do sonho, que queríamos de felicidade. A vida, poderia ser sonhar. Fazer, aceitando-me como sou, feito de medo, de que o sol me abandone em cada noite da solidão, da escuridão que antecede cada dia, para voltar, a ela, à realidade, do medo. Ainda sussurro a pedir ajuda, mas ninguém escuta o medo. E peço-Lhe para parar, não o medo, o mundo, que continua mudo, suspenso, seco. Filho, é este o que eu sou, o medo.

Hoje, tive medo. Sexta, 4 de Fevereiro de 2005.